Limite (1931)

Eleito pelos críticos como o melhor filme brasileiro de todos os tempos, “Limite”, de Mário Peixoto, é uma obra que chama a atenção principalmente pelo seu apuro técnico. E se você levar em conta que o diretor tinha apenas 22 anos quando rodou o filme (que inclusive é o seu único trabalho no cinema), fica até meio difícil não ficar chocado com tamanha genialidade.

O cinema mudo exige mais do espectador não só no sentido de paciência para encarar duas horas “apenas” com imagens e trilha sonora, mas principalmente para absorver a construção da narrativa por meio de metáforas não muito óbvias. Se você está acostumado a esperar aquele momento em que o personagem sábio aparece e explica tudo o que está acontecendo, talvez fique meio frustrado com uma história que, em nenhum momento, passa perto de esclarecer o seu enredo, o qual nos é apresentado de maneira não-linear e com várias possibilidades de interpretação.

Groso modo, pode-se dizer que é a história de um homem e duas mulheres. Eles são náufragos e estão num barquinho mequetrefe à deriva, sem sinal de vida por perto. Enquanto tentam sobreviver à fome, o calor e à sede, eles começam a se lembrar de suas vidas, como se, ao agarrarem-se ao passado, fosse possível permanecerem vivos. As lembranças são confusas e bem fragmentadas, mas fica claro que todos ali levaram uma vida de merda e se aquele passado é a única tábua da salvação, significa que toda a existência não faz lá muito sentido, pois tudo se resume à solidão e sofrimento.

Confesso que o hermetismo da história me tirou um pouco da imersão na narrativa, o que me impediu, por exemplo, de emocionar com ela. Mas o que fez o filme me ganhar de verdade é a direção. Mario Peixoto utiliza movimentos de câmeras e alguns ângulos que são inimagináveis para a época em que o filme foi rodado — tendo em vista que os equipamentos utilizados eram uns trambolhos pesadíssimos — fazendo até eu me lembrar da primeira vez que vi Cidadão Kane e me questionei “Caralho, como o Orson Wells enfiou essa câmera aí?”.

O filme é todo contemplativo, com câmera balançando, cheio de imagens de árvores, mar, sol, plantações, silêncios (claro, é cinema mudo, né seu retardado?), cabelos ao vento o tempo todo… Não manjo muito de cinema, mas este é um estilo que me fez lembrar os filmes do Terrence Malick, aquele mesmo cineasta que é odiado por alguns dos críticos que elegeram Limite como o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Curioso.

Além de contar uma história lazarenta de triste, Peixoto também compôs poesia com imagens e é desta poesia, mais do que da narrativa, que abstraímos os questionamento existenciais que o filme propõe . É um grande feito.

Nota: 4/5

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