Millennium — Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With a Dragon Tattoo, 2011)


Quem já leu a trilogia “Millennium” do sueco Stieg Larsson deve ficar com um pouco de preguiça de assistir a uma adaptação cinematográfica com quase três horas de duração, pois o que realmente nos move quando lemos o primeiro livro (um tijolão com mais 600 páginas) é tentar descobrir quem é o assassino de Harriet Vanger ou pelo menos onde está o corpo da garota. A situação piora quando você já assistiu a um filme sueco que conseguiu levar para a telona, de maneira bastante decente até, toda a trama criada por Larsson. Enfim, a esta altura um remake americano representaria apenas a terceira oportunidade de acompanhar a mesma história, cujo mistério já não é assim tão, hum, misterioso.

Então é melhor fugir para as montanhas? Não, pois basta colocar o nome “David Fincher” ali nos créditos para que a produção ganhe status (merecido) de cinema de alta qualidade. O cineasta responsável por obras como “Clube da Luta” e “Seven” não decepciona e consegue traduzir em belas imagens todo o clima gélido descrito por Larsson. É bastante fiel ao livro (bem mais fiel que a adaptação sueca), mas consegue ir além.

Já na introdução, toda estilizada e cheia de conotações que remetem a sexo e à violência percebemos que este é um olhar mais pessoal a respeito de uma obra que, como comprovam as cifras exorbitantes, possui bastante apelo popular. A conhecida obsessão de Fincher pelo apuro técnico se mostra presente em todos os momentos, desde fotografia fria e azulada de Jeff Cronenweth (indicado ao Oscar), passando pela direção de arte (quem leu os livros deve ficar embasbacado com aqueles cenários) até a ótima montagem, que consegue dar fluidez a um volume muito grande de informações sem fazer com que o espectador se perca na história.

Daniel Craig consegue desenvolver muito bem o personagem de Mikael Blomkvist, o repórter garanhão. Embora a virilidade seja uma marca presente, está bem claro que não é o 007 que está ali e a ausência de atitudes violentas por parte dele deixam isso bem claro.

Mas o filme, assim como os romances, é mesmo de Lisbeth Salander, interpretada de forma magistral por Rooney Mara (também indicada ao Oscar). O papel ajuda, já que a personagem foi muito bem desenvolvida nos livros, mas a atriz dá um exemplo de atuação ao não se deixar levar pelos exageros e, de maneira contida (reparem na postura dela, sempre retraída, indicando uma aparente fragilidade), ir desenvolvendo aos poucos as nuances que tornam a complexidade Lisbeth interessante e não caricata.

E é neste ponto que David Fincher pode salvar a pátria, caso siga em frente e filme as sequências. Ainda não li o terceiro livro, mas achei o segundo bastante inferior ao primeiro e o problema está exatamente no que havia de melhor: Lisbeth Salander. Talvez Stieg Larsson tenha assistido a muitos filmes de ação dos anos 80 e 90 e emprestou de lá o conceito de herói invencível e inatingível. A hacker esquisitona parece que tem poderes para dominar o mundo só com seu computador, bate em todo mundo independentemente do tamanho do inimigo, leva tiros e chega a ser enterrada viva (ei, só o Tarantino tem permissão para filmar isso!), mas escapa de tudo na boa, o que torna a narrativa muito inverossímil.

Espero que o cineasta consiga melhorar a boa história criada pelo escritor sueco, tornando-a mais realista assim como fez neste “Os homens que não amavam as mulheres” como na sequência da perseguição de moto e mais complexa como na última cena, ao criar uma camada dramática à personagem de Lisbeth.

Confio na genialidade de David Fincher, coisa boa vem por aí.

Nota: 4/5


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