O Desprezo (Le Mépris, 1963)


Escrever sobre experiências cinematográficas é flertar com a precariedade, uma vez que a palavra escrita é insuficiente para dizer aquilo que realmente vimos ou sentimos diante da imagem em movimento. É como se não existisse uma tradução exata e então a nossa percepção do mundo fosse sempre falseada. Não é a toa que muitas pessoas que dizem gostar de ler/escrever o fazem porque sentem que vida real não lhes parece suficiente.

O mesmo ocorre com o cinema, como vemos na citação de André Bazin no início de “O Desprezo”: “O cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com nossos desejos”.

Já nas primeiras cenas, quando vemos um filme sendo rodado, Godard direciona a câmera que está ali no set para a câmera que é o nosso ponto do vista, quebrando a barreira ficcional e dando a impressão de que nos observa, mas ao mesmo tempo é como se nos dissesse “isso aqui é um filme”.

Ao utilizar a metalinguagem, o cineasta aproveita para descer a lenha no cinema hollywoodiano, representado no filme por Prokosh, um produtor boçal pouco interessado nas questões artísticas ou intelectuais (eles estão filmando um desdobramento da “Odisséia”), algo que já não era novidade lá em 1963. Inclusive, a certa altura, uma das personagens nos lembra de que só os sonhos não são suficientes para realizar cinema.

Mas Jean-Luc Godard parece mais interessado em refletir sobre a linguagem e a incomunicabilidade (o tal produtor fala inglês e o personagem do roteirista fala francês e nem sempre a tradutora está por perto). Os ruídos de comunicação se estabelecem já de início, não apenas pelas diferentes línguas, mas também pela própria visão de mundo e da arte, como vemos na cena em que há uma exibição privada daquilo que já havia sido filmado, com a presença de Fritz Lang (representando ele mesmo!) em que se estabelece a dicotomia com relação ao cinema: dinheiro/arte.

A incomunicabilidade surge na cena que dá origem ao título do longa (a elipse utilizada pelo diretor nos leva a criar imagens do que pode ter acontecido e também a questionar sobre a substituição da palavra pela linguagem corporal, já que eles não falam a mesma língua) e principalmente no longo diálogo do casal dentro do apartamento novo, ainda inacabado. Frases desconexas, contradições e repetições vão se amontoando de forma a demonstrar que não existe mais amor (o pé sedutor que ameaça deslizar pela perna, mas que desiste no meio), existe apenas um desprezo que não é verbalizado de forma direta.

Quando partem para ilha de Capri, onde serão realizadas as filmagens, percebemos o quanto o homem é pequeno diante da grandiosidade da natureza, daquilo que é belo, daquilo que é alvo de desejo, algo que não podemos nem mesmo tocar, apenas sorver como prazer estético. Parecem inatingíveis tanto as belezas naturais da ilha quanto o corpo de Brigitte Bardot.

Por fim, nesse sonho inventado por Godard os desejos não são realizados e os sentimentos parecem tão falsos quanto a cidade cenográfica onde tudo começou. Meras ilusões. E a tragédia que vemos na tela, a interrupção que sugere a ausência de um fim, apenas evidencia o caráter transitório da existência em que tudo permanece inacabado, o apartamento, o roteiro, o casamento, o filme… Como se na vida fôssemos Penélope a esperar não por Ulisses e sim por Godot.

Nota: 5/5


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