O garoto que come alpiste (To agori troei to fagito tou pouliou, 2012)

Ao longo dos últimos anos, a crise econômica na Grécia vem sendo representada de forma impactante no cinema produzido no país. Antes mesmo de “Miss Violance” (2013), “O garoto que come alpiste” já cravava um parâmetro perturbador àquilo que podemos entender como “filme sobre mundo cão”. Se aquele falava sobre incesto e exploração sexual, este fala sobre outro trágico desenrolar da crise: a fome.
Yorgos (Yiannis Papadopoulos) é um jovem que não tem quase nada. Essa “quase” diz respeito a um pequeno apartamento com contas atrasadas e uma gaiola com um passarinho. O nada é todo o resto. Ele não tem um emprego, não tem família, não tem um amor, não tem nem mesmo comida.
O filme dirigido por Ektoras Lygizos não busca em nenhum momento reproduzir algum tipo de estética da miséria (estilo Sebastião Salgado), muito pelo contrário, a câmera na mão acompanha o personagem sempre de muito perto e gera um desconforto enorme, pois não há praticamente nenhum plano aberto e em diversos momentos a câmera balança muito. Chega a ser sufocante. É como se Lygizos quisesse esfregar o desespero na nossa cara.
O personagem não é um mendigo, pelo menos não ainda, então o impacto das ações dele acaba sendo maior, pois ele de certa forma representa uma classe média em plena degradação, mas que finge não sê-lo, para preservar algum resquício de dignidade. Não há a discrepância socioeconômica evidente que separa aqueles que caminham pelas ruas rumo ao trabalho e aquelas que lá estão para pedir esmola. Ele usa boas roupas, tem um apartamento ok, não mora numa favela, mas simplesmente não tem o que comer. É um pavor muito próximo, pois dá a impressão que o seu vizinho pode estar passando por essa situação e você não tem a mínima ideia disso. E mesmo que soubessem, seria uma vergonha para ambos admiti-la, então o melhor a fazer seria fingir que está tudo bem e seguir em frente.
“O garoto que come alpista” é um curioso estudo de personagem. Com a câmara quase colada ao rosto de Yiannis Papadopoulos, o que vemos é uma dedicação impressionante à composição do personagem. Pouquíssimos atores encarariam o desafio de se expor de forma tão degradante. Há várias cenas perturbadoras (digamos que ele não come só alpiste, então se eu fosse você não veria esse filme junto com a família depois de um almoço de domingo), mas que não soam gratuitas, pois são importantes para dar a dimensão do desespero que colapsa o país.
Num determinado momento, o protagonista precisa esconder a gaiola no meio dos entulhos de um prédio abandonado e proteger o passarinho da luz. Para isso, ela enrola a gaiola com o que parece ser uma bandeira da Grécia.
Uma população presa no escuro (sob os escombros de um país que desaba) e refém das políticas econômicas. Haveria metáfora melhor?
Nota: 4/5