Que Horas Ela Volta? (2015)

A tensão entre diferentes classes sociais tem sido uma preocupação do cinema brasileiro há alguns anos. A distância enorme entre uma ponta e outra rendeu aquele período em que a violência era o elo entre o morro e o asfalto, com filmes como Cidade de Deus e Última Parada 174. Depois a polarização extrema ficou um pouco de lado e a recente ascensão da classe média fez com que surgissem Casa Grande (escrevi sobre ele aqui) e O Som ao Redor, por exemplo. Que horas ela volta? é fruto direto dessa tentativa de compreender esse novo modelo de sociedade que vem se formando nos últimos anos.

O filme dirigido por Anna Muylaert conta a história de Val, uma empregada (vivida de maneira impressionante por Regina Casé) que mora na casa dos patrões e que reencontra a filha após 10 anos. A presença da garota desestabiliza o cotidiano da família, pois os limites entre aqueles dois mundos começam a ficar meio cinzentos.

Há sutilezas interessantes como o reflexo de um outdoor com uma foto de Neymar na janela do ônibus lotado ou a expressão corporal de Val, que antecipa tudo o que vai dizer com muitos gestos, reforçando a característica de uma classe até então sem voz. Por outro lado, o maniqueísmo das cenas como a do jogo de xícaras e a da menina fazendo a refeição junto com o patrão, incomoda um pouco, pois esbarra no novelão.

Mais do que debates sociais, Que horas ela volta? discute de maneira bastante sensível a questão da maternidade. A proximidade entre o filho da família rica e a empregada versus o distanciamento da mãe biológica, poderia render uma avalanche de clichês, mas felizmente eles são totalmente evitados graças ao ótimo trabalho das duas atrizes.

Que horas ela volta? é um filme sobre distâncias, físicas, sociais e principalmente emocionais. Nenhum dos personagens chega a explicitar com palavras a angústia que devora suas vidas, mas entre silêncios e dissimulações, eles deixam transparecer seus abismos interiores. E é assim, cada qual com sua dor, que eles seguem suas vidas e aguardam as mudanças que estão por vir.

Nota: 4/5

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