Shotgun Stories (2007)

Considero Jeff Nichols um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Nem sabia que ele existia até ser atropelado por “O Abrigo”. Eu não estava preparado para aquilo, então foi maravilhoso me sentir tão perdido. Depois veio “Mud(Amor Bandido), filme de uma sensibilidade comovente, que o fez figurar na minha gloriosa listinha de melhores do ano de 2013.

Resolvi ir atrás da origem desse cinema tão desconcertante e Shotgun Stories, o debute de Nichols, demonstra que, desde o início, esse era um cara que tinha e ainda tem muito a dizer.

Uma característica presente neste filme e que se estendeu para suas outras obras é o espaço em que as narrativas acontecem: o interior dos EUA. Longe do tumulto da cidade, temos o silêncio e o tédio se escondendo nos vãos das casas da população pobre que mora no subúrbio.

O ritmo naturalista e a presença da classe operária (o fato de Michael Shannon, um ator brilhante, fazer praticamente o mesmo papel nos três filmes é um sinal mais de coerência, de um plano narrativo maior, do que mera repetição) remetem ao cinema de John Cassavetes em Uma Mulher Sobre Influência.

Shotgun Stories é sobre o vazio e a necessidade de preenchê-lo como o que for possível, inclusive com violência. Se os filmes de máfia mostra todo o glamour das lutas entre famílias, Jeff Nichols prefere traçar um panorama seco e nada glamouroso do ódio que, numa leitura mais ampla, permite entender a lógica (ou a falta dela) por trás de todos os conflitos.

Em Shotgun Stories tudo está devastado, principalmente a esperança. As pessoas não têm nem mesmo onde morar, vivem em barracas ou nos próprios carros, e essa ilusão de mobilidade faz com que tracem planos para o futuro enquanto bebem cerveja ou perdem tudo num jogo de cartas, como se fosse possível seguir adiante, dar uma guinada, se perdoar, corrigir os erros… Mas no fundo, seus olhos tristes não se enganam, as cicatrizes não deixam, todos eles têm a consciência de que suas raízes profundas os aprisionam naquele solo sempre sedento por mais sangue.

Nota: 4/5

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