Sono de Inverno (Kis uykusu, 2014)

Assim como a arquitetura do hotel construído na região montanhosa na Anatólia precisa se integrar ao relevo do local, os personagens de Sono de Inverno se adaptam às imperfeições da vida e seguem seus dias silenciosos sob um impiedoso céu de chumbo.

A câmera do cineasta Nuri Bilge Ceylan (do ótimo Era uma Vez na Anatólia) ainda capta a beleza local, mas desta vez embrenha-se no interior de cômodos aquecidos à lenha para desvelar pequenas intimidades e misérias humanas, através de diálogos e silêncios que soam como facas.

Na história, acompanhamos o cotidiano de um dono de hotel que mora com sua jovem esposa e com a irmã, que se separou do marido. São três horas e dezesseis minutos de filme que parecem flutuar com leveza, em meio a uma tensão que cresce a cada novo embate verbal. O casamento que se dilui, a cumplicidade que vira agressão, o estranho que interrompe o conforto, tudo ao redor parece compor um enorme mal estar prestes a transbordar de dentro de cada personagem.

O filme discute as diferenças sociais e o vazio existencial através de sutilezas, como a ironia e o rancor presentes tanto na fala, quanto no olhar, ou mesmo de forma não tão sutil, através da brutalidade de uma pedra jogada num vidro ou um erro do passado sendo jogado na cara, por exemplo.

O tédio e o silêncio são interrompidos pela realidade que atravessa a porta e deixa os sapatos sujos de lama, bem como a sua dignidade, do lado de fora, para não sujar o tapete. No fim das contas, percebe-se que nem toda violência é física.

Nota: 4/5

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.