Upstream Color (2013)

Há uma grande possibilidade de que eu não tenha entendido bulhufas sobre esse filme, mas há também uma boa chance de que ele seja uma espécie de obra em aberto, passível de diferentes interpretações. Tentarei algumas.

Para se ter uma ideia, não dá nem para dizer com precisão sobre o que o filme fala. Sei lá, é sobre perdas? Recomeços? Biologia? Química? Deus? Caso façam sentido as peças que tentei encaixar, Upstream Color funciona como espécie de palíndromo, uma vez que história segue um círculo que, por não haver uma sequência exata, talvez possa ser lido em qualquer direção.

O cineasta Shane Carruth, que também atua, escreve, produz, compõe a trilha sonora e, certamente, serve cafezinho, opta por utilizar uma montagem que prioriza a fragmentação e a repetição, fazendo com que a própria estrutura do filme se assemelhe à confusão mental dos personagens depois de terem contato com um verme (?) criado com finalidade de modificar o comportamento das pessoas, de modo que elas fiquem esquisitonas e façam movimentos sincronizados (!?). Após ser forçada a ingerir o tal verme e entrar em um estado que se assemelha à catatonia, só que mais funcional, a protagonista acaba sendo roubada, perde o emprego, se automutila, sofre uma cirurgia esquisitíssima envolvendo um porco e se apaixona por um cara que aparentemente também teve contato com o verme (lembra da sincronia?).

Há um ir e vir na relação, que leva sei lá pra onde, mas talvez o que importe sejam apenas as questões de sinestesia, em que sons e imagens se misturam, de forma que o som sempre parece transcender aquilo que o produz, como se fosse possível senti-lo com toque das mãos. Não sei muito bem o que o diretor pretendia com isso (captar a essência do mundo? atravessar o silêncio que preenche tanto vazio?), só sei que ficou bem bonito.

Outra questão importante são os porcos utilizados (talvez) como uma metáfora sobre a alma humana, como um retorno ao primitivo. Penso nisso, pois o tempo todo o filme cita e mostra o livro “Walden” de W. D. Thoreau, uma espécie de manifesto contra a civilização tal como a conhecemos e uma reflexão sobre as reais necessidades humanas (foi esse o livro que Alexander Supertramp leu antes de partir para sua aventura em “Na natureza Selvagem”). Talvez isso explique a busca de minérios no fundo da piscina com azulejos em forma de crucifixos, um mergulho casa vez mais profundo dentro de si mesmo em busca de suas crenças; Parar à beira da rodovia e pensar em como chegou até ali e para onde vai depois. Neste caso, pouco importa se você escolhe a direita ou a esquerda, pois a vida é um ciclo e todos os caminhos darão no mesmo lugar.

A metáfora mais óbvia (mais ou menos óbvia, em termos de Upstream Color) é a do tratador de porcos. Ele é o criador, o Deus onipresente, aquele que escolhe quem vive e quem morre e, pelo que a história dá a entender, só é possível seguir em frente e recomeçar se conseguirmos matar aquele que nos deu a vida, para que ela renasça. O fluxo segue, as águas da torneira e do rio se renovam. As flores retomam a sua cor.

Foi isso que entendi, eu acho.

Nota: 4/5

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