Cinematógrafo — nota dos curadores: por que "Febre do Rato"?

Nota dos curadores: por que "Febre do Rato"?

Claudio Assis não é um diretor de consensos, “Febre do Rato” tampouco. Por que o Cinematógrafo de dezembro (sáb, 29) exibe o filme?

Não há propriamente novidade no quase excessivo desbunde style, nem nas figuras udigrudis que inspiram as caricaturas cotidianas de artistas marginais que frequentam botecos baratos e universidades federais, nem no artificialismo das imagens que, desde a abertura do filme, nos prometem uma sofisticação que, graças a deus, não se cumpre. Não se cumpre a promessa de sofisticação da retórica visual, mas — por outro lado — um primor estético se revela: no domínio que Claudio Assis demonstra fazendo confluir a Fotografia, o ritmo do filme, o texto, os planos sequências e a elaborada mis en scène que contrasta com a narrativa anarquista.

Mas também não é por tais qualidades que exibimos o filme.

Politicamente, a nossa escolha se liga a um contexto: o encerramento de um ano de negação política ou, antes, de uma política da negação; de empoderamentos fracassados; de retóricas que esvaziam até a paródia termos em si mesmos desgastados, como resistência; do medo apocalítico e mal dramatizado; da propagação dos discursos e narrativas desligados do mundo. Dentre os filmes brasileiros que tiveram maior visibilidade no cenário cultural nesta década, esta é uma das raras obras que logra produzir dissenso sem ser chapa branca — um dissenso no interior do vício consensual da esfera cultural cooptada por discursos simplistas de esquerda.

Esteticamente, escolhemos “Febre do Rato” por uma razão mais simples: mesmo sem novidades, aliás, talvez por conta dessa ausência de novidade temática, o filme inverte o valor do novo para resgatar os temas mais típicos do nosso cinema reivindicadamente cultural, artístico e político: o poeta marginal, a libido transgressora, a vontade de chocar (a quem?), o grito dos excluídos. Em suma, a novidade de “Febre do Rato” é que ele se desvia da árvore morta que é o cinema brasileiro recente de maior destaque, e retorna às raízes dessa árvore outrora viva.

Tânia Granussi e Matheus Nachtergaele em "Febre do Rato"

Portanto, o filme passa no Cinematógrafo da Saladearte pos suas características menos evidentes, menos importantes e mais profundas: sua evidente força poética que parte da recuperação do corpo e da palavra como meio de realizar as múltiplas possibilidades de insurreição e transcendência, de desespero e crítica, de denúncia viva e inútil. Zizo (Irandhir Santos) toma a palavra e move seu corpo numa dança espacial e simbólica (retórica e poética) que se quer contestadora, mas que encontra seus limites na vida mesma do casal Matheus Nachtergaele e Tânia Granussi: prestemos atenção nessas personagens que vivem a outra história de amor que o filme conta, ofuscada pela história convencional de Zizo e Eneida.

Deixamos como ponto de partida da nossa roda de conversa após a sessão, essa característica que é a força do filme: a de transferir ao espectador a invenção mútua do filme a partir do que ele vê na tela. Que o espectador, convocado pelas imagens e sons, tome para si a palavra e realize sua própria performance, durante e depois do filme, no cinema e na vivência do mundo.

Por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, curadores do Cinematógrafo na Saladearte (saiba mais).

Nossa sessão de dezembro: