Mãe!, ou o maior mico filmado de 2017.

Acho que poucas sessões em 2017 me deixaram tão furioso quanto a de Mãe!, o novo filme de Darren Aronofsky, estrelando J-Law feat. grande elenco. Teve Power Rangers, que achei muito ruim e teve… mais nenhum. Não costumo sair com raiva do cinema pois acho simplesmente um sentimento que não tem como levar alguém a lugar nenhum, a maioria das vezes quando eu não gosto de um filme só saio cansado, ou com fome mesmo. Mas segunda-feira, o único sentimento que tomou conta de mim ao sair da sala de cinema foi uma indescritível raiva, que nas horas seguintes tentei organizar numa pequena lista de argumentos, principalmente para eu não me transformar no que considero o pior tipo de espectador: aquele que odeia um filme pelo simples motivo de odiar.

Pra mim faz completo sentido direcionar o seu ódio na forma de argumentos, ou pontos focais, e nesse caso quase tudo caiu no fundo de um poço da mais simples depreciação. Sério, odiei muito esse filme e precisava fazer alguma coisa em relação a isso. Sem mencionar que acho um dos sentimentos mais gratificantes se deparar com um filme que de uma forma ou de outra lhe desperta o ódio, então pelo menos por isso posso dar os devidos créditos para Aronofsky.

É bem rápido, são só 5 pontos bem básicos:

1.Festival de male gaze

Male gaze significa literalmente “olhar masculino”. Parte importante da teoria de cinema, estudos de gênero e da teoria feminista, principalmente após o ensaio de Laura Mulvey “Prazer Visual e Cinema Narrativo” e que praticamente pôs o termo nas conversas de análise fílmica, o male gaze se resume ao olhar masculino e heterossexual que a câmera, e por extensão o filme, lança ás personagens femininas. Posteriormente tal debate foi estendido para a forma como a câmera masculina olha para o mundo, incluindo a si mesma, mas por motivos práticos irei simplificar a conversa tendo em vista apenas a objetificação femininina. Mulvey praticamente jogou diante de nós como o male gaze influencia a nossa visão das mulheres na mídia e audiovisual num sentido mais amplo, o que inevitavelmente acaba transbordando para as searas do convívio social.

Sem tentar me aprofundar muito, até porque eu realmente não tenho bagagem teórica o bastante para ir tão longe, basta dizer que ao assistir Mãe!, talvez um dos pontos que mais tenha saltado aos olhos foi o verdadeiro festival de male gaze que domina a tela. Me surpreende que Aronofsky esteja em um relacionamento com Jennifer Lawrence já que provavelmente ela é a pior personagem feminina já criada pelo diretor, tratada como uma criatura passiva mas sempre hábil nos trabalhos domésticos e sempre presente para os desejos e preocupações do seu esposo e visitantes. Um objeto sensual mas ainda assim singelamente imperceptível; a câmera captando cada segundo do seu sofrimento, ela como o único alvo de toda a violência que nos é oferecida em baldes durante todo o filme… e os exemplos seguem. Na verdade, a Mãe é tratada aqui nada mais que um objeto, pulando de cômodo em cômodo quase sempre incapaz, não sendo respeitada e muito menos escutada, com os eventuais surtos de raiva sendo logo em seguida punidos ou repreendidos condescendentemente por seu marido (Javier Bardem). E nem entrei nos casos off-screen das filmagens, no qual foi até usado como material de divulgação o fato da atriz ter machucado, fraturado e torcido um sem número de órgãos, membros e relativos. Como se isso fosse uma parte inevitável do trabalho de uma atriz que busque uma performance mais “visceral”. Felizmente não chega a ser a misoginia preocupante de um Lars von Trier (por pouco mas ainda não chega), mas é o suficiente para realizar um simples questionamento: precisava ser mostrado dessa forma?

2.Alegoria versus Personificação

Tal problema da angustiante inércia da Mãe leva a outra questão: muitos dos que viram o filme defendem essa característica da protagonista como sendo um traço inevitável da sua personalidade já que ela representa …………….. SPOILEEER ……………… tanto a Mãe Natureza como o Planeta Terra e o próprio imaginário feminino. E como tudo não passa de uma alegoria, devemos então encarar o filme como tal, já que não é necessário ter essa relação com o “mundo real”. Aí entramos no significado mais primário de alegoria, que é basicamente a construção de um sentido simbólico para conseguir transmitir um ou mais significados além daquele expresso na literalidade. Constrói-se um discurso para transmitir outro. O cinema de horror em especial é mestre nisso, com seus monstros, fantasmas e entidades sendo, em grande frequência, representações habilmente metamorfoseadas de medos, traumas sociais e paranoias geracionais. Mas acima de tudo, para o funcionamento do dispositivo alegórico é necessário uma compreensão total do todo para que daí se entenda a rede de significados que se constroem ao redor do significante inicial.

Não é algo fácil de funcionar, ainda mais de forma bem-sucedida, e comumente se recorre a recursos como ironia e humor para aliviar o peso que algumas alegorias óbvias demais possam carregar ou constrói-se um aparato tridimensional que dê peso e substância á essa narrativa. Mãe!, por outro lado, se aproxima mais de uma personificação e do símbolo do que qualquer outra coisa. Jennifer Lawrence não é uma alegoria para a Mãe Terra, ela é a própria Mãe Terra, transformada aqui numa bela jovem que se ve incapaz de proteger sua própria casa. Entende a diferença que existe aqui? Ao não criar para si uma personagem que represente uma ideia, mas sendo ela mesma o próprio receptáculo ambulante de uma ideia por demais genérica, a inevitabilidade óbvia é a do filme cair no raso das significações, já que tudo se transforma na mais simples das transliterações. Nessa construção amontoada de interpretações possíveis, o filme desafia o próprio entendimento, caindo numa lógica desmanteladora que aborta quase que imediatamente qualquer linha de raciocínio que se tenha como organizada e ordenada. O caos é a matéria prima desse processo que de maneira infeliz acabou saindo pela culatra.

Qual a relação dela com seu marido? Quais são seus desejos? Porque ela é tão passiva em relação ao que acontece dentro da sua casa? Me parece impossível deixar passar essas questões, ainda mais numa obra que se propõe uma reflexão acerca de qualquer coisa.

Isso acaba caindo tanto pelo lado do desenvolvimento narrativo, que se torna de uma simplicidade primária, como também cai para os atores que, sem muito terreno para explorar, acabam ficando irremediavelmente presos aos incontáveis símbolos apegados as suas personas (J-Law faz cara de sofrimento. Michelle Pfeiffer segue firme com sua bitch face…E é basicamente isso). Sem contar que, da metade pro final, já se torna mais ou menos óbvio para o expectador o curso dos acontecimentos, de tão esquemático que o roteiro se torna. Teve momentos em que não consegui acreditar na obviedade dos “simbolismos” utilizados, de tão banais que são para todos aqueles que pelo menos tem um conhecimento básico da bíblia.

E falando nesse livro sagrado…

3. Ninguém cansa de copiar a bíblia?

Sim sim, entendo que é um livro importante e que definiu basicamente grande parte da cultura humana nos últimos dois mil anos mas já não está na hora de fazer umas adaptações um pouco mais inteligentes? Não estou dizendo para não usarem o livro sagrado do cristianismo como material de roteiro, até porque um dos meus filmes preferidos do ano passado, O Ornitólogo, é baseado na história de Santo Antônio, e contém muito material do Novo Testamento. Mas a questão aqui é: Aronofsky não podia ter se esforçado um pouco mais nesta transcrição? A sensação que se tem é que ele apenas selecionou eventos chave entre as mais de 2000 páginas do livro e foi simplesmente adaptando para que ocorressem dentro de uma casa. Em duas horas. Não me parece uma ideia muito inteligente.

Basta passar uns 30 minutos e tudo se transforma numa bagunça tão grande que é melhor apenas desistir de ver sentido e aceitar os símbolos quando eles pulam na sua cara. Adão e Eva, Caim e Abel, a maçã proibida, o dilúvio, Sodoma e Gomorra, o corpo e sangue de Cristo… é tanta coisa tão gritantemente óbvia e tão imediatista que sinceramente, onde se consegue enxergar alguma profundidade se o significado se encontra em primeiro plano? COMO TEM GENTE QUE O FILME É GENIAL?!?! A Record tá realizando essa tarefa de transcrição bíblica audiovisual de forma muito mais competente e honesta na minha opinião. O diretor (e roteirista!) deveria saber que não se deve levar muita coisa a sério do que foi escrito ali, ainda mais considerando o Velho Testamento.

Alguém precisava ter falado pro Aronofsky pra usar a Bíblia como ponto de partida, e não como o meio principal e o fim em si mesmo.

4.Pessimismo sem fim

A humanidade está fadada a destruição, tem que acabar com tudo mesmo e começar do zero, tudo que fizemos até agora foi a quintessência de toda a decadência e perversidade… não parece um discurso não só terrivelmente chato como extremamente batido e raso? Sim, a humanidade fez coisas ruins e sim, a humanidade talvez esteja realmente destruindo o planeta Terra. Mas o Greenpeace já faz o seu papel alertando a população acerca dos riscos que nós estamos causando ao nosso amado planeta. E eles fizeram um trabalho melhor que Mãe!. Sem falar que a Bíblia está aí para provar que no meio das desgraças existe ali e aqui alguns momentos de bondade né? Ok, na verdade não posso afirmar isso com convicção mas me parece certo afirmar que não foi de todo uma jornada ruim. Mesmo que o filme esteja aí nos dizendo o contrário.

Sim, somos todos monstros e Aronofsky esta aí para mostrar que não somos complexos, somos apenas ruins e irrecuperáveis e que isso basta para dizer alguma coisa sobre qualquer coisa, o que aparentemente aparenta ser a pretensão dele aqui, num conto moral dos mais nauseantes por justamente não oferecer alternativa á danação eterna a qual estamos condenados. Parece que assim como o livro no qual se inspirou, o diretor procurou retratar tudo com a mesma profundidade narrativa das parábolas que de vez em quando são contadas durante a catequese.

5.Imagem ocupada versus Imagem vazia

Para aqueles que viram Mãe! é um consenso, entre TODOS os que viram o filme, que MUITA coisa acontece. Mas MUITA COISA MESMO. Para exemplificar isso basta pegar os último ato do filme para ver que é tanta coisa que mal dá pra respirar. E acima de tudo, mal dá pra absorver alguma coisa do que está se passando. Sim, me falem que esse era exatamente o objetivo de Aronosfky: lotar a tela de informação até chegar o ponto do espectador virtualmente não entender mais nada do que esta acontecendo diante dos seus olhos, simulando assim, de alguma forma, as terríveis visões do inferno e purgatório que já lotam nossa iconografia ocidental cristã. Mas precisava de duas horas disso? Na verdade, precisava mesmo de tudo isso?

Sabe-se bem que existe outros meios de apelar para literais visões do inferno do que o simples amontoamento de coisas. A única palavra que tem pra o que acontece é realmente “coisas”, uma versão mais desorganizada e menos impactante de Bosch, e que tenta de alguma forma chocar pelo aspecto gráfico das suas cenas mas que acaba perdendo força pelo simples motivo de eu não conseguir me importar com nada nem ninguém. O pouco de empatia que ainda me restava era por parte de Jennifer Lawrence, que após levar pancada após pancada durante todo o filme, se torna um objeto inevitável de pena até para o mais frio dos espectadores. E apelar de um modo tão baixo para a empatia daqueles que assistem não me parece ser algo muito inteligente de um diretor que se considera tão provocador e revolucionário.


Kristen Wiig atirando em desconhecidos na frente da Mãe? Não me surpreendeu. A polícia invadindo a casa, jogando bombas de gás lacrimogêneo e atirando para todos os lados? Não me surpreendeu. Até a cena onde o Filho é morto e logo em seguida comido por um grupo de neófitos… infelizmente não me surpreendeu. Tudo isso por um motivo tão que chega a ser risível: mais uma vez e sempre, não havia com o que me importar. Posso até chegar a amar o filme um dia se eu encarar que era realmente isso que era esperado da minha parte: não me importar com nada e ninguém que abusasse da casa da Mãe. Um pornô da destruição cujo objetivo seja a sedução provocada pelas suas imagens barrocas e não tivesse realmente nenhuma mensagem importante além daquela impressa a ferro em cada frame.

Mas acredito que Aronofsky não é tão divertido para criar um filme tão irônico assim, irônico o bastante que confundiu boa parte da crítica e público. As pretensões dele são altas (na verdade quase arrogantes), e são extremamente sérias. Ele levou a sério cada cena detalhadamente construída e talvez seja essa a cereja do bolo: não tem muito para levar a sério aqui. Porque não se transformou numa comédia? Não sei, mas com certeza seria melhor.