Filmes não terminam quando você sai do cinema

O cinema conta histórias que nos interessam, sempre por motivos muito diferentes. A forma como as compreendemos, no entanto, diz mais sobre nós do que percebemos.

A idéia de que filmes necessariamente precisam entregar um final satisfatório vem da nossa concepção de que ninguém começa a contar uma história sem que saiba como terminá-la. De fato, toda história tem um final, a parte do satisfatório é que abre discussões.

Gostamos de filmes porque eles contam histórias sobre nós mesmos, é um eterno estudo da nossa sociedade, dos nossos sentimentos, de como nos relacionamos, como agimos e reagimos. Faz parte da nossa natureza procurar nos conhecer e entender o tempo todo, encontrar respostas para todas as perguntas não respondidas. Parece assim, também apenas natural que busquemos contar histórias onde todas as perguntas feitas tenham respostas, já que uma vez que estamos dentro de um universo onde temos total controle, provavelmente vamos querer usá-lo por completo, só por ser um espaço onde de fato podemos fazer isso. É tão natural que é o que esperamos, que nos surpreendemos quando um filme não o faz, e chegamos até a dizer que “o filme não tem final”. Tem, é claro que tem, ele só decide deixar isso a cargo da sua interpretação.

Não sabemos o que Bob sussurrou no ouvido de Charlotte ao final de Encontros e Desencontros, tampouco descobrimos se Deckard era ou não um replicante em Blade Runner, da mesma forma que também não temos idéia de se o peão parou de rodar depois dos créditos finais de A Origem.

E são esses finais abertos que fazem com que pensemos nestes filmes até hoje.

São eles que nos fazem voltar a primeira cena e rever o filme a partir dela com outros olhos, buscando ações ou palavras que poderiam ter passado despercebidas da primeira vez, quando não sabíamos onde todas elas culminariam. Começamos a analisar o que pensamos ser pistas, observar as escolhas de um personagem e suas consequências, imaginar o que seria diferente caso essas escolhas tivessem sido outras.

Quase sem perceber, começamos também a analisar nós mesmos, colocando nossas impressões nos personagens, afinal nos identificamos com eles, temos os mesmos sentimentos. É outro ponto perfeitamente natural. O que eu faria de diferente se estivesse nessa situação? Talvez o personagem seja mais corajoso do que eu, talvez eu tenha mais força de vontade do que ele. E são essas impressões que levam as inúmeras conversas entre pessoas que assistiram ao mesmo filme.

Comparando e justificando cada um dos nossos finais particulares, estamos também compartilhando mais de nossas ideias e nos permitindo conhecer outros pontos de vista de pessoas que são diferentes de nós. E essa troca é tão interessante e pode tomar proporções tão grandes que a esperada resposta absoluta deixa de ser necessária. Não precisamos saber o que Bob disse, todas as discussões ao redor do que imaginamos tornam-se muito mais ricas do que qualquer final que o filme poderia nos ter proporcionado.

Uma única pergunta não respondida que desperta nossa curiosidade gera muitas outras que não sabíamos ser capazes de fazer, é como se nos dessem um pequeno impulso para que pudéssemos ver mais longe, visualizar algo que sempre tivemos capacidade de fazer, mas nunca nos permitimos enxergar. Muito mais do que as respostas que somos capazes de elaborar, as perguntas que fazemos dizem muito mais de quem nós somos. Dizem muito mais do que nós podemos ser. E é maravilhoso que o cinema, em seus curtos estudos de possibilidades de duas horas e pouco, tenha a capacidade de iniciar esse tipo de questionamento.

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