Qual a função do cinema em tempos de crise?

Por Rafael Alves

Há uma crise afinal, e em muitos critérios ela se assemelha à crise que antecedeu o começo das duas Grandes Guerras.

Há uma crise econômica iniciada em 2008 e ainda não totalmente sanada; uma crise política com a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo; uma crise humanitária, a pior nos últimos 70 anos de acordo com a ONU; uma crise social, e a xenofobia descarada em países europeus e nos Estados Unidos não me deixa mentir.

Uma receita complicada e difícil de administrar, cujas consequências começam a mostrar sua face mais complexa e sinistra, com Donald Trump aumentando os gastos com o exército em detrimento da diplomacia e iniciando uma nova corrida nuclear.

Em momentos como este, as pessoas comuns, perdidas em suas contas e preocupações cotidianas como torcer pelo seu time, pedir pizza de calabresa ou quatro queijos, qual camisa vestir para a festa de sábado a noite, costumam se ver perdidas. “Enquanto os transeuntes na avenida comercial estão muito preocupadas pra saber o que pensar” (Raul Seixas, Segredo do Universo), a vida segue, e parece, segue para um abismo.

Então nós todos, com nossas bocas escancaradas e cheias de dentes, buscamos formas de encarar problemas que parecem grandes demais. Buscamos formas de entender e resolver o mundo, e neste quesito, chego no ponto que queria, dado o debate sobre dois filmes, Moonligth e La La Land, mas que se estende a outros filmes e até a outras mídias.

O debate sobre ambos os filmes diz respeito ao teor de ambos os roteiros. La La Land apresenta uma história simples e comum, de pessoas que buscam seus sonhos, desafiam algumas regras, sofrem um tanto, vencem outro tanto com música e dança e fim.

Moonlight trata de temas relacionados ao uso e tráfico de crack, homossexualidade, desilusão, pobreza, violência, e tem como um de seus protagonistas um homem negro e muçulmano.

Moonlight ganha o Oscar de melhor filme em 2017 e minha timeline foi a loucura com pessoas defendendo o o segundo filme por ele tratar de temas tão relevantes a estes tempos sombrios. A pergunta entretanto é: seria esta a função do cinema?

Cinema Crítico?

Quando Black Mirror foi lançado muitos de meus amigos, como por exemplo Jeronimo Araujo que grava comigo no Canal do Cinesofia no Youtube, vieram me dizer que eu tinha que assistir a série porque ela é brilhante e genial. Mas resisti. Fiquei um ano evitando a série, e não exatamente por sua qualidade. O seriado britânico, que hoje migrou para o Netflix, é realmente muito bom. Mas genial? Brilhante? Não sei.

Black Mirror para quem ainda não sabe tem episódios isolados que tratam de temas relevantes a nossa sociedade, problematizando nossa relação com a tecnologia.

Alguns episódios como The National Anthem (o do porco) e o especial de Natal são fantásticos por colocarem em evidência nossos costumes, pensamentos e comportamentos cotidianos.

Quem os assiste é colocado diante de questões profundas e corriqueiras, mas apenas quem nunca leu Nietzsche realmente se chocaria com o tal episódio do porco. O filósofo alemão (prussiano na realidade) já havia escrito sobre nosso fascínio ao que é sujo, proibido, pecaminoso. Assim como também já havia escrito sobre o real teor que envolve as ações morais.

Afinal, devo salvar a princesa da Inglaterra fazendo sexo com um porco ou proteger a minha reputação e consciência a deixando morrer e não transando com o animal?

A pergunta é terrível, mas a resolução de modo antecipado se encontra em Nietzsche, que morreu no dia 25 de agosto de 1900. (Se você quer saber porque a resposta do episódio estava colocada de modo antecipado, leia Genealogia da Moral).

Preciso dizer que se você se chocou com este episódio, é porque lhe faltou algumas horas de leitura em cima de Além do Bem e do Mal, Genealogia da Moral, Assim falou Zaratustra.

E não se deve ler tais livros para concordar com Nietzsche, mas porque o mundo não é o seu umbigo, e quem lê só o que gosta ou com o que concorda é fascista. Gente que não consegue suportar o contraditório.

No caso específico da questão acerca da moralidade, vou mais longe e digo: não importa se você concorda ou não, Nietzsche está certo. Freud, Lacan, Young, Mead e tantos outros psicólogos e psicanalistas, assim como as bases de ambas as disciplinas — psicologia e psicanálise — estão aí para provar que sim.

Neste caso, debater se você concorda ou não com Nietzsche, é como debater se você concorda se dois mais dois são quatro. Sacou?

Meu ponto é: o sujeito assiste algo como Black Mirror ou Moonlight e sai extasiado com a qualidade crítica do filme por um motivo: lhe falta estudo, leitura, cara nos livros mesmo.

Não que tais filmes e séries não sejam excelentes, mas se vamos chamar de gênio os diretores de filmes em Hollywood, vamos chamar Aristóteles, Gödel, Adorno, Hegel de que?

Indústria Cultural e o papel do cinema

Adorno e Horkheimer escreveram, lá no começo do século XX, sobre um conceito chamado Indústria Cultural, que em linhas gerais nos permite entender como age Hollywood, Netflix e afins.

A indústria do cinema/série nos oferece produtos que promove uma satisfação compensatória e efêmera, agrandando a nós, consumidores, impondo sobre nós seu monopólio e por consequência nos tornando acríticos, uma vez que seus produtos são consumidos consensualmente.

A Indústria Cultural se apresenta como um poder de dominação e difusão de uma cultura de subserviência, tornando um guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e que por isso desativa, desarticula, qualquer revolta contra seu sistema. Isso quer dizer que a pseudo felicidade ou satisfação promovida pela Indústria Cultural acaba por desmobilizar ou impedir qualquer mobilização crítica que, de alguma forma, fora o papel principal da arte (como no Renascimento, por exemplo). Ela transforma os indivíduos em seu objeto e não permite a formação de uma autonomia consciente.

Pergunte-se por favor: porque a mesma indústria que patrocinou filmes como O Nascimento de uma Nação, Sniper Americano, Guerra ao Terror entre outros, patrocinaria um filme que pudesse colocar em xeque tudo aquilo que o norte americano médio defende e acredita.

A resposta é: não patrocinaria.

Por melhor que seja Moonlight, sua crítica é superficial e inócua.

Após Moonlight vencer o Oscar a vida seguiu. Infelizmente os negros continuam sendo vítimas de racismo, os gays vítimas dos homofóbicos, os viciados em crack sendo menosprezados e violentados nas ruas, e quem se importa com essas questões são as mesmas pessoas de sempre.

Por um motivo: embora o filme trate desses temas, ele não o faz de modo suficientemente aprofundado, nem oferece nenhum tipo de resposta, saída, solução. E não oferece por um motivo: essa não é sua função.

Qual a função do cinema portanto?

Quem tem a função de tratar desses temas são as ciências em geral, especificamente as Ciências Humanas e Sociais como a Filosofia, História, Sociologia, Geografia entre outros.

E você, meu brother, tem que sair do Whats, do Face, do Insta, do Snap, e começar a estudar se quiser realmente que essa merda toda mude.

Já devem ter lhe dito, mas textão no Face e pinta de hipster não muda nada.

Ler, estudar, debater, agir de modo a propor mudanças. Isso sim muda algo, e espero que para melhor.

Já o cinema, ele tem a função que sempre teve e sempre terá.

Fazer bons filmes que divertem, entretêm, e podem até servir como ponte para uma reflexão mais aprofundada. Mas somente se você tiver alguma leitura prévia na bagagem.

Esperar mais do cinema é como esperar que um escorpião lhe trate com cortesia após tê-lo salvo. Não o fará, e você acabará por sofrer com isso no futuro.

PS. Temos agora um canal no youtube e lá fizemos um vídeo sobre o assunto. Clique aqui.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Rafael Alves’s story.