2º Metrô — Mostra Panorama II

No segundo dia de Panorama no Metrô, houve espaço para o luto, a vida-além, as relações afetivas, as memórias geográficas e um aniversário de 60 anos.

A Mostra Panorama II da segunda edição do Festival de Cinema Universitário Brasileiro — Metrô aconteceu na última quinta-feira (22) na Cinemateca de Curitiba. Na sessão que durou pouco mais de uma hora e meia, foram exibidos sete filmes do Sul e Sudeste do Brasil. Os curtas-metragens variaram entre os gêneros documentário e ficção e abordaram temáticas tocantes e reflexivas.

A programação da segunda sessão da mostra Panorama contou com sete filmes, produzido por universitários do Sul e do Sudeste do Brasil (Foto: stayflow)

Logo de início foi possível perceber o combo de filmes sensíveis que a curadoria havia preparado para o público. O primeiro a ser exibido foi Foggy (2018), de Bianca Ono e Fred Hiro, acadêmicos de Cinema da Unespar. Em 17 minutos, a produção curitibana mostrou a história de Gabriel Fogaça e sua mãe, Bel, antes e depois da morte do pai, Anderson. À medida que a narrativa se desenvolve, o espectador constrói uma ideia do mundo individual de cada membro da família e, junto com eles, vai enxergando que o futuro pode ser melhor do que tudo que já viveram. Sempre em primeira pessoa, na voz do garoto ou da mãe, são narradas as fases do luto vividas pelos dois.

Fred Hiro e Fernanda Tavares, da equipe de Foggy (2018), falam sobre o filme durante o debate da Mostra Panorama II (Foto: stayflow)

Em seguida e num fluxo natural, começou Materializações Luminosas, curta de Victor Neves, que trata do sobrenatural, do post-mortem. O filme foi produzido no ano passado, no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Gravado no centro espírita da pacata cidade de Santa Maria do Jetibá, interior do Espírito Santo, o documentário apresenta ao espectador uma reunião mediúnica e seu decorrer. Ao longo de seus 17 minutos, se utilizou das cores (principalmente as quentes) e vozes para criar o tom íntimo de uma conversa interdimensional.

A seguir, para quebrar o ritmo fúnebre do início da mostra, vem Sam, filme de Julia Souza e Miguel Moura. Os alunos de Design do Senai Centiqt do Rio de Janeiro produziram o curta em 2017. A produção de oito minutos nos mostra Julia, uma garota tímida, e sua vida na escola. Sua história é mais uma dessas que todo mundo sabe que existe mas ninguém fala sobre. Ela se apaixona pela garota popular da sua turma e ambas vivem descobertas e experimentações sexuais que existem apenas debaixo dos panos. A agonia de Julia se esconde atrás dos seus olhos baixos e se expressa em seu silêncio gritante. Gera identificação e lembra aquele amor não-correspondido da adolescência que todo mundo já viveu.

O quarto filme também falou de relações afetivas. Astro Negro (2018) tem 15 minutos e foi dirigido pelo estudante de Jornalismo da UEL, Gustavo Nakao. O curta apresentou a incerteza, o silêncio e a autossabotagem. A história trata deste relacionamento que envolve dois jovens bastante intensos que estão passando por momentos muito distintos da vida. Questões pessoais os levam ao desencanto, que é refletido diretamente no silêncio entre eles — e vice-versa. A fotografia do filme se utiliza das cores vermelho e azul para contrastar os estados de espírito das personagens e funciona muito bem usando luz e sombra para colocá-las em diferentes atmosferas psicológicas. A direção de arte está focada em dar um tom pós-moderno (até líquido?) à obra, que gera um sentimento de vazio e frustração em quem assiste.

Teaser do filme Astro Negro (2018).

Repentinamente, o ruído desconcertante da cidade do Rio de Janeiro invade os ouvidos dos espectadores e limpa (ou suja?) a aura sentimental que havia tomado conta da sala com os filmes anteriores. Era Um Jardim Singular (2017), de Mônica Klemz, o quinto filme da Mostra Panorama II. Numa mistura de cenas da correria do dia-a-dia, fotografias do Brasil Imperial e da Velha República e imagens animadas, os jardins palaciais, hoje patrimônio tombado do Rio, são apresentados ao público. A colagem de 15 minutos, realizada no curso de Cinema da UNESA, se mostra sendo um retrato documental de valor. Sem falas, usando apenas a sonoplastia e os recursos visuais, imagens antigas ganham vida e cenas cotidianas se tornam surreais. Neste filme, fomos instigados a mergulhar nos lagos artificiais do Palácio do Catete e tomarmos fôlego para o que viria a seguir.

Palmyra: the invented city (2018), um falso documentário de Cauê Nunes. Narrado em inglês e baseado no relato de um imigrante sírio nascido em Palmira e que agora vive no Brasil, o filme se passa como uma tentativa deste cidadão de reconstruir o imaginário e o patrimônio (i)material acerca de sua terra natal. O diretor do filme se inspirou na obra de Luis François Cassas para redesenhar Palmira, uma das grandes cidades do mundo antigo que foi destruída pelo fanatismo religioso. Em seus dez minutos de duração, o curta produzido durante o doutorado em Ciências Sociais pela Unicamp (SP) discute sobre patrimônio, religião, território e exílio. Um filme extremamente político, feito com imagens que tentaram censurar. Uma bela montagem aliada à um relato comovente. Talvez o ápice da sessão.

Para o final, o dia em que uma senhora de hábitos estranhos completa 60 anos. Em Caburé, de Luiz Todeschini, acompanhamos este dia da vida de Clara, moradora de Foz do Iguaçu que é casada há longos anos com o seu Benjamin. Depois de uma descoberta nada feliz, seguida de uma tediosa comemoração de aniversário, ela toma uma decisão — e isso envolve uma faca. Ao assistir esta trama produzida em 2017 na faculdade de Cinema da UNILA, o espectador sente o clima de suspense do início ao fim, pois nunca vê realmente o que acontece. É aquele bom thriller onde há apenas indícios do que pode ter acontecido — e o olhar vigilante de uma coruja. Encerrou os 101 minutos de Mostra com um ar de dúvida e libertação: o que (ou quem) exatamente Clara cortou naquela noite?

Foggy (Curitiba/PR), de Bianca Ono e Fred Hiro 2018 | 17’ | UNESPAR/Cinema

Foggy, 2018 (Foto: Divulgação)

Materializações Luminosas (Santa Maria de Jetibá/ES), de Victor Neves 2017 | 17’ | UFES/Cinema

Materializações Luminosas, 2017 (Foto: Divulgação)

Sam (Rio de Janeiro/RJ), de Julia Souza e Miguel Moura 2017 | 8’ | Senai Cetiqt/Design

Sam, 2017 (Foto: Divulgação)

Astro Negro (Londrina/PR), de Gustavo Nakao 2018 | 15’ | UEL/Jornalismo

Astro Negro, 2018 (Foto: Divulgação)

Um Jardim Singular (Rio de Janeiro/RJ), de Mônica Klemz 2017 | 15’ | UNESA/Cinema

Um Jardim Singular, 2017 (Foto: Divulgação)

Palmyra: the invented city (Campinas/SP), de Cauê Nunes 2018 | 10’ | Unicamp/Ciências Sociais

Palmyra: the invented city, 2018 (Foto: Divulgação)

Caburé (Foz do Iguaçu/PR), de Luiz Todeschini 2017 | 19’ | UNILA/Cinema

Caburé, 2017 (Foto: Divulgação)

Texto de Ana Gilda Vicenzi e revisão de vino