A culpa é (sempre) da mamãe: Atypical e o julgamento materno

Letícia Magalhães
Sep 7, 2018 · 6 min read
(Fonte: TV Time.com)

Alguns personagens são criados com o claro objetivo de que o público os odeie. Outros, entretanto, recebem o ódio gratuito do público. Gratuito, não: revelador. Afinal, o fato de odiarmos um personagem fictício diz mais sobre nós mesmos e nosso julgamento moral do que sobre o personagem. Acredito que este é o caso de Elsa Gardner, mãe do protagonista da série Atypical, da Netflix.

Atypical: um olhar sobre um autista

(Fonte: reprodução)

Sam Gardner (Keir Gilchrist), protagonista de Atypical, é autista. Atypical vem de “neuroatypical”, ou neuroatípico / neurodivergente na tradução para o português, que significa tudo que não é neurotípico, ou seja, tudo que não é considerado comportamento “normal” do cérebro. Pessoas cujo cérebro funciona de maneira “diferente” do normal são neurodivergentes, e neste grupo entram pessoas com depressão, autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e outras.

A série gerou expectativas na comunidade autista, e na mesma proporção gerou críticas. Algumas pessoas reclamaram sobre mais uma vez um autista ser retratado de maneira estereotipada — e minha principal crítica com relação ao estereótipo é que mais uma vez se trata de um menino com autismo, e isso é problemático se considerarmos que as meninas têm mais dificuldade de conseguir o diagnóstico, e ainda são sub-representadas na ficção.

Não podemos perder de vista o fato de que a série, por mais engajado que seja seu discurso, ainda é um produto capitalista que visa atingir o maior número de pessoas. Por isso, Atypical não é voltada para os próprios autistas, mas sim para aqueles ao redor deles — parentes, amigos, cuidadores, médicos, professores — que são em maior número que os próprios autistas. Retratar a família de um autista — e de um só, porque cada autista e cada família são únicos — é mais comercialmente interessante.

Família “feliz” (Fonte: reprodução)

E essa família tem conflitos. Existe o termo “mãezinha azul” — e a variante masculina, “paizinho azul” — que se refere à mãe ou pai do autista que, após o diagnóstico do filho, passa a se considerar alguém superior, abençoado por ter sido escolhido para tão difícil e nobre missão que é guiar um autista na Terra, e que não perde uma oportunidade de desabafar sobre suas agruras e provações. A nomenclatura vem do termo, também errado, “anjo azul”, usado para se referir aos autistas — termo que desumaniza os autistas e lhes tira o próprio arbítrio.

Elsa é quase uma mãe azul. Interpretada por Jennifer Jason Leigh, também produtora da série, Elsa é cabeleireira — embora ela raramente apareça de fato trabalhando — e cuida o tempo todo de Sam e da irmã mais nova dele, Casey (Brigette Lundy-Paine). Sobrecarregada, Elsa inicia um affair com um jovem barman, Nick (Raúl Castillo). E é aí que o tribunal superior da internet ataca, chamando Elsa de egoísta, irritante, insuportável, vaca e considerando sua personagem um lixo.

(Fonte: aplicativo TV Time)

Mãe-geladeira: quando acharam que o autismo era culpa da mãe

O autismo é uma neurodivergência descoberta há pouco tempo, embora ela certamente sempre tenha existido. Os primeiros estudiosos que se dedicaram exclusivamente ao autismo foram Hans Asperger e Leo Kanner, nos anos 1940. Isso significa que são feitos estudos sobre autismo há menos de 80 anos, e ainda há muitos mitos a serem desmentidos e várias descobertas a serem feitas.

Ambos os “pais do autismo” foram pessoas não muito boas. Hans Asperger colaborou com nazistas. E Leo Kanner disse, em uma entrevista à revista Time em 1960, que as mães de autistas eram “somente capazes de descongelar o suficiente para produzir uma criança”. Para ele, a causa do autismo seria falta de afetividade e da criação de vínculo amoroso entre mãe e filho — e na declaração para a Time podemos também ver um quê de misoginia, pois é possível interpretar que Tanner também considerava estas mulheres “frígidas”.

Como a maioria dos jovens pacientes em estudo tinham sido levados por suas mães, mulheres com curso superior, algo raro na época, Kanner chegou à incrível conclusão de que a causa do autismo era falta de atenção da mãe, que preferia se dedicar aos estudos. Ele também disse que outra prova para a existência de “mães-geladeira” era o fato de que a mãe raramente conseguia brincar com a criança autista — na opinião dele, não era porque a criança não tinha interesse pelo brincar, mas porque a mãe não tinha interesse pela criança.

(Fonte: Portal Singularidades)

Em 1967, o psicanalista e psiquiatra Bruno Bettelheim publicou um livro chamado The Empty Fortress, mesmo sem ter feito estudos para respaldar suas teorias, e assim reforçou a ideia de que o autismo era culpa da mãe.

Essa teoria, obviamente, já caiu por terra, embora alguns médicos mal informados insistam em usar variantes dela ainda hoje — como, por exemplo, que autismo pode ser causado por “excesso de televisão e vídeo game”.

Dois pesos e duas medidas para Elsa e Doug

Se a fictícia Elsa Gardner tinha um caso extraconjugal com Nick, ela tinha um marido para trair, certo? E o marido é Doug, interpretado pelo ator preconceituoso e machista Michael Rapaport. A internet está massivamente do lado dele, mas não deveria.

(Fonte: aplicativo TV Time)

Para começo de conversa, em um episódio descobrimos que Doug nunca contou para colegas de trabalho que seu filho era autista. Eu entendo que isso é uma questão pessoal e delicada, mas a impressão que fica é que Doug tem vergonha de Sam. Ele, aliás, não consegue se conectar com o filho e durante os 18 anos de vida do garoto não fez esforço para mudar isso, o que mostra que ele acredita na ideia machista de que um homem não deve explorar seus sentimentos, mesmo que esteja se sentindo incomodado.

E aqui está o detalhe: muitos anos antes, quando Sam era uma criança de quatro anos, Doug abandonou a família por oito meses porque estava sobrecarregado. É a velha história do abandono paterno que passa despercebido. Como ele diz que apenas ficou numa fazenda, e não transando com outras, merece o perdão irrestrito? E Elsa, que continuou sempre do lado da família, mas transando com outro, merece ser chamada de vadia? Ela até estava mais feliz com Nick! Ela estava, pela primeira vez, se sentindo livre!

(Fonte: aplicativo TV Time)

Aqui vem a reviravolta: muitos fóruns na internet, como o Reddit, apontam para a possibilidade de Elsa ser também autista. Como dito acima, o autismo se manifesta de maneiras diferentes em homens e mulheres. E o autismo tem causa genética, portanto, hereditária — tanto é que muitos adultos só descobrem que são autistas depois que seus filhos recebem o diagnóstico!

Sim, Elsa pode ser superprotetora, dar muita atenção a detalhes e, em seu único momento de alegria, ser considerada vagabunda. Isso é parte do que a sociedade pensa das mulheres — e como as julga diferentemente dos homens. Mas será que o público estaria pronto para aceitar todos estes traços e falhas como parte de um possível autismo de Elsa, assim como acham as excentricidades de Sam “fofas”, ou isso não mudaria nada e nem ensinaria nada sobre julgamento e aceitação, que é o objetivo da série?

Cine Suffragette

Letícia Magalhães

Written by

Lê. 26. Aspie. Brasil. Cinema.

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