A lama e a homossexualidade em “Pelos bairros do vício”

Barbara Stanwyck foi uma mulher revolucionária para sua época. Poucas atrizes brincaram tanto com os papeis de gênero como ela. Em Pacto de Sangue, vemos-a como a cínica e devoradora de homens Phyllis Dietrichson, evocando o que há de mais sedutor em uma mulher. Já no filme de faroeste Forty Guns, de Samuel Fuller, ela é a líder de 40 homens, despida de qualquer “qualidade feminina”. Aqui ser mulher significa ser durona e saber usar bem uma arma. Missy, como era chamada na intimidade, emprestou sua persona para construir personagens femininas muito diferentes entre si, fazendo com que sua filmografia seja fascinante para os que desejam conhecê-la melhor. Nada é a mesma coisa com ela.

Ao avançarmos para o final de sua carreira cinematográfica, encontramos um papel pouco conhecido, talvez pelo fato de essa não ser uma personagem convencional, leia-se heterossexual, para uma respeitada atriz com seus mais de 50 anos na época: a cafetina Jo, de Pelos bairros do vício.

Atenção! Este texto contém spoilers.

Naquela época, o cinema vivia como se estivesse em meio a uma brincadeira de cabo de guerra, sendo puxado por dois valores completamente diferentes. De um lado, havia as comédias sexuais de Rock Hudson e Doris Day; de outro os musicais e filmes românticos que tentavam desesperadamente resgatar uma era perdida. Pelos bairros do vício contribuiu para o enterro dos valores tradicionais, ao ambientar sua história em um bordel e dar um rosto tão respeitável como o de Barbara Stanwyck à homossexualidade.

Os créditos de abertura de Pelos bairros do vício, assinados por Saul Bass, já nos introduzem de maneira fantástica a essa viagem ao wild side. Neles, há um gato preto caminhando elegantemente por um beco. Ele se encontra, no meio do caminho, com um gato branco e os dois começam a brigar. Tanto o gato preto como o branco representam valores distintos. Um deles é a tentação, o errado, enquanto o outro é a pureza e a inocência. Qual deles sairá vencedor?

Créditos de abertura de “Pelos bairros do vício”

Baseado no livro homônimo de Nelson Algren, o centro da história é a busca de Dove (Lawrence Harvey) por sua amada Hallie (Capucine), a quem ele considera “sua religião”. Ele sonha reencontrá-la e poder viver o amor do qual a vida havia lhes privado. Porém, o que Dove não sabe é Hallie agora é uma prostituta de luxo na Doll House — e não tem plano algum de sair dessa vida.

Na Doll House, Hallie é tratada como princesa pela cafetina toda-poderosa, Jo (Barbara Stanwyck). Ela tem regalias que as outras prostitutas não têm: o direito de dormir até tarde, um quarto grande para pintar e esculpir. Logo na primeira cena entre elas, é possível perceber como Jo é apegada à garota:

Hallie: Eu não sei o que você vê em mim. Sou como todas as outras garotas, não sou especial.
Jo: Você é especial para mim.

O diálogo entre elas continua e fica cada vez mais evidente o desejo de Jo em agradá-la. Quando Hallie diz estar entediada, Jo sugere que ela termine seu busto ou comece a esculpir mãos, usando as dela como molde. Hallie declina e Jo tenta mais uma vez adulá-la, dessa vez convidando-a para fazer compras. Até aí, o diálogo não deixa exatamente evidente o caráter dessa relação.

O caráter amoroso da relação entre Hallie e Jo só se torna evidente quando a presença de Dove se faz presente na Doll House. A partir daí, a faceta mais sombria da cafetina é revelada: ela precisa manter Hallie sob controle, pois tem medo que ela vá embora e a deixe para sempre. A presença de Dove é um desafio ao seu controle, uma vez que ela não consegue manipular Hallie com ameaças, adulações, dinheiro ou poder.

Hallie (Capucine) e Jo (Barbara Stanwyck).

A primeira grande discussão entre elas, e talvez a mais famosa do filme, é a fusão de ações e palavras que deixam mais do que claro a presença da homossexualidade. Na cena, Jo questiona as saídas de Hallie para ver Dove e lhe joga na cara algumas verdade dolorosas:

Jo: Conte pra ele sobre a lama na qual você tem se refestelado todos esses anos.
Hallie: Eu vou mudar!

Ao contrário de filmes como Infâmia, que também retrataram a homossexualidade entre mulheres, Pelos bairros do vício não se vale das palavras para dizer aquilo que não pode ser mostrado. As palavras tornam-se muito mais poderosas, pois vêm acompanhadas de ações. Nesse caso, é o tapa dado por Jo no rosto de Hallie que rasga de vez a cortina da homossexualidade. Combinado com o diálogo sobre se refestelar na lama, o espectador conclui que Hallie perdeu qualquer traço de inocência ao começar a se relacionar com Jo. Pelos bairros do vício parece querer mostrar de maneira sutil como Hallie foi coagida a se relacionar com Jo. Na verdade, o relacionamento dela com outra mulher parece ser apenas um tapa-buraco para compensar a ausência de Dove.

Além de nos servir a homossexualidade ao se referir à lama e ao fato de querer “mudar”, essa cena também é sobre controle. Ao desferir um tapa no rosto de Hallie, Jo mostra quem está no comando. O relacionamento entre elas é baseado no medo que Hallie sente de Jo, no controle exercido pela parte mais forte. Elas jamais estão em igualdade. Portanto, o que temos é uma amostra do que seria um relacionamento abusivo entre mulheres.

A cena na qual o caráter do relacionamento entre Hallie e Jo é revelado.

Mais uma vez, Hollywood nos oferece um retrato extremamente tóxico de um relacionamento amoroso entre mulheres. Assim como a Martha de Infâmia, não há espaço para o amor saudável. A homossexualidade é histérica, com direito à possessividade e comportamentos abusivos. É como se, através dessas características, Pelos bairros do vício tentasse justificar que o único final possível entre as duas personagens é a tragédia.

Jo e o uso de velhos tropos hollywoodianos

A escolha de Barbara Stanwyck para o papel de Jo não é fruto do acaso. Conhecida pela voz rouca e atitude masculina, ela era perfeita para encarnar um dos tropos mais famosos em Hollywood, ou seja, o da lésbica durona.

Como escrevi neste artigo, a homossexualidade feminina vem mais uma vez acompanhada de traços masculinos. Ao olharmos para Jo, percebemos que ela se veste quase sempre em tons escuros. Além disso, sua maneira de se portar é bastante masculina — ressaltada pelos enormes casacos, que parecem ternos, usados por ela. Ela comanda um negócio de prostituição e é encarada como um homem tanto pelas moças como por seus empregados. Jo é temida por eles e, exceto em uma cena chave do filme no qual voltarei a seguir, ela não demonstra emoções. As coisas, para ela, resumem-se a dinheiro, ao poder e a Hallie.

Há muitos problemas nesse tropo, o primeiro deles talvez seja o fato de resumir a experiência lésbica nos moldes da dureza e da masculinidade. Jo não é a primeira personagem LGBT+ a ser masculinizada, basta nos lembrarmos da Rainha Cristina de Greta Garbo. Não há espaço para a feminilidade, pois, na visão de Hollywood, isso foge ao que a sociedade espera de uma lésbica. Uma mulher que ama mulheres não pode performar a feminilidade, a não ser que ela seja a parte vitimizada da relação, como é o caso de Hallie.

Quando Pelos bairros do vício já está chegando ao final, Hollywood tira outra carta da manga para vilanizar a homossexualidade: a da lésbica raivosa. A única cena em que Jo demonstra seus verdadeiros sentimentos é uma ode ao esteréotipo da mulher que odeia os homens e sua maneira de objetificar as mulheres e que, por essa razão, teria “partido rumo à homossexualidade”. Na dita cena, descobrimos que, na verdade, um dos homens com os quais ela trabalha é seu marido. Ele pede para que Jo deixe Hallie ir embora e diz saber o que ela sente. Jo responde:

Amor. Será que um homem pode amar uma mulher pelo o que ela é, sem desejar seu corpo para o próprio prazer? Amor é compreensão, beleza (…) e não luxúria. Não me fale sobre amor. O que você sabe sobre o amor? (…) O que um homem sabe sobre o amor?

Portanto, Jo seria, neste contexto, tão vítima quanto Hallie. As mulheres se desiludem com o amor e vão procurar o prazer em outra freguesia. Procuram pelo amor puro, simbolizado aqui pela homossexualidade. Oito mulheres, filme de François Ozon, contém um diálogo muito parecido entre as personagens Pierrette (Fanny Ardant) e Gaby (Catherine Deneuve). Esta diz:

Eu me relacionei com mulheres para me purificar dos homens.

Pelos bairros do vício, deliberadamente ou não, coloca a homossexualidade como um tapa-buraco para uma desilusão amorosa com homens. Ao fazer isso, está querendo nos dizer que a homossexualidade não existe de verdade, que ela é uma fase. Se Jo tivesse sido feliz com o marido, talvez não tivesse se relacionado com Hallie. É nos braços de um homem que uma mulher encontrará o prazer e o amor.

Os boatos sobre a possível bissexualidade de Barbara Stanwyck adicionam um tempero sórdido à sua personagem. Reza a lenda que ela teria se relacionado com Joan Crawford, bem como com sua agente publicitária, Helen Ferguson. Não se sabe ao certo se isso de fato aconteceu, mas uma parte de mim tende a pensar que talvez esses mexericos tenham sido espalhados pelo fato de Missy não performar a feminilidade como era esperado dela. Mesmo em seus papeis mais femininos, ela tinha uma presença muito forte e determinada, o que era confundido com masculinidade e dureza.

Colocar a homossexualidade nos filmes antigos era uma forma de chamar a polêmica e lucrar ainda mais. Além disso, também funcionava como uma forma de educar a população através desses tropos, mostrando que relacionar-se com o mesmo gênero era um vício, como o próprio título em português denuncia. O único lugar no qual a homossexualidade poderia acontecer seria em prostíbulos, porque tanto faz, uma vez que eles já não são respeitados. Ninguém se surpreenderia ao ver isso. Imagine se nossa Jo fosse uma simples dona de casa — e homossexual — , o rebuliço que isso não causaria.

Pelos bairros do vício, apesar de seus problemas, continua sendo um filme muito interessante para estudar a representação da homossexualidade no cinema clássico, especialmente ao falarmos sobre mulheres mais velhas. É surpreendente constatar que muitas ideias do filme acerca de lésbicas ainda estejam tão enraizadas na sociedade, como a de que uma mulher é lésbica porque ainda não conheceu o homem de sua vida, ou porque tem raiva deles. O ano poderia ser 1962, mas é 2017.

Vamos continuar conversando?

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