A vida e a carreira de Dorothy Davenport

Dorothy Davenport escrevendo (imagem: reprodução)

Este artigo é um guest post de Joe Thompson, do blog Big V Riot Squad.

Houve um tempo em que uma mulher casada não usava seu próprio nome. Alguns leitores devem se lembrar da Princesa Michael de Kent. Eu costumava pensar que o nome dela era Michael. Quando a baronesa Marie Christine Von Reibnitz se casou com o primo da Rainha Elizabeth II, Príncipe Michael de Kent, ela passou a ser a Princesa Michael de Kent. Se ela fosse da família real, e não de uma família nobre, ela seria chamada de Princesa Marie Christine.

A atriz britânica Beatrice Tanner era creditada Sra Patrick Campbell durante toda sua carreira, que continuou por 40 anos após a morte de seu marido em 1900. Ela foi a primeira pessoa a interpretar Eliza Doolittle no “Pigmalião” de George Bernard Shaw.

Eu me lembro de quando os cartões de crédito e os cheques da minha mãe vinham com o nome “Sra (nome do meu pai)”. Nós que não somos da realeza abandonamos a prática de escrever o nome das mulheres casadas assim, com exceção de quando vem escrito no convite de casamento “Sr e Sra (nome do marido)”.

A atriz, roteirista, produtora e diretora Dorothy Davenport era comumente creditada como Sra Wallace Reid mesmo depois de o marido ter morrido muito jovem e de forma trágica em 1923. Isto provavelmente ajudava a atrair o público para os filmes que ela dirigiu, mas eu tentarei evitar chamá-la de Sra Wallace Reid. Dorothy Davenport merece ser conhecida por seu próprio nome.

Dorothy Davenport nasceu em uma família teatral. Seus avós paternos eram Edward Loomis Davenport, que contracenou com Junius Brutus Booth, pai do covarde que matou o presidente Abraham Lincoln, e Fanny Vining, uma atriz inglesa. EL faleceu em 1877, Fanny Vining em 1891. Quando foi pesquisar sobre Fanny Vinning no livro “Edward Loomis Davenport: a Biography”, editado por Edwin Francis Edgett, encontrei isto no índice:

Fanny Vinning aparece como Sra EL Davenport (Fonte: Edward Loomis Davenport: A Biography)
Fanny Davenport (Fonte: Shakespeare’s Heroines on the Stage, By Charles Edgar Lewis Wingate, 1895)

A filha deles, Fanny Davenport, foi uma atriz popular. Aqui está ela vestida como Cleópatra na primeira produção norte-americana da peça de Victorien Sardow, que foi escrita por Sarah Bernhardt. Ela faleceu em 1898.

Os fãs de cinema clássico reconhecerão o filho de EL e Fanny, Harry Davenport, que interpretou velhos no cinema desde o final dos anos 1930 até sua morte em 1949. Ele interpretou o Rei da França em “O Corcunda de Notre-Dame” com Charles Laughton, o avô em “Agora Seremos Felizes”, o juiz em “A Vida de Alexander Graham Bell” e o pai de Nick Charles em “O Regresso daquele Homem”. Sua carreira teatral começou no século XIX. Ele estreou no cinema na era muda e também foi diretor. Harry Davenport era o pai de Dorothy Davenport.

A mãe de Dorothy, Alice Shepphard Davenport, a esposa de Harry, fez várias comédias da Keystone, incluindo “Carlitos Repórter”, a estreia de Charles Chaplin no cinema. Ela interpretou a mãe no filme.

Dorothy (Dot) Davenport nasceu em 1895. Seus pais se separaram no ano seguinte. Não encontrei muitas informações sobre a vida dela entre o nascimento e o momento em que ela começou a trabalhar nos estúdios Biograph.O primeiro filme de Dot listado no IMDd é “A Mohawk’s Way”, dirigido por D.W. Griffith em 1910.

Uma nota cheia de erros sobre Dorothy Davenport (Fonte: Variety, 07-January-1911)

Em janeiro de 1911, Dorothy Davenport, aos 17 anos (? — ela nasceu em 1895), trabalhava para a companhia Reliance. Fanny Davenport era sua tia.

Em outubro de 1911, Dorothy Davenport foi contratada pela Nestor Film Company. “Miss Davenport, embora ainda adolescente, é considerada no cinema e no teatro uma das estrelas mais brilhantes. Ela vem da famosa família Davenport, sendo seu pai o popular ator Harry Davenport, sua tia a talentosa atriz Fanny Davenport, e seu avô o renomado ator trágico EL Davenport”.

“Alice Davenport, a conhecida atriz e dramaturga, foi contratada pela Nestor Film Company para papéis secundários, e agora ela e a filha, Dorothy Davenport, protagonista de filmes da Nestor, estão indo para o sul da Califórnia com cinquenta outros atores da companhia”.

Cena de “Her Indian Hero” (Fonte: Moving Picture News, 06-April-1912)

Dorothy fez “Her Indian Hero” para a Nestor. Não tentarei explicar o que está acontecendo nesta cena, mas é um pouco menos racista do que parece.

(Fonte: Moving Picture World, 16-March-1912)

Dorothy muda de estúdio constantemente.

Dorothy voltou para a Nestor em julho. “Ela age como os outros atores”. Harry Edwards mais tarde se tornou diretor.

Alguém recortou uma nota da revista Moving Picture World de 31 de agosto de 1912 que explica que o estúdio da Nestor havia sido absorvido pelo estúdio Universal e que Dorothy estava protagonizando filmes para uma companhia dirigida por Milton H. Farney. Na época, Dorothy fez vários filmes de ação e pôde exibir suas habilidades ao cavalgar.

Trabalhando na Universal, Dorothy conheceu Wallace Reid. Wally nasceu em 1891 e era filho de dois atores. Seu pai era também dramaturgo. Quando seu pai, Hal, entrou para a indústria cinematográfica para trabalhar como ator, diretor e roteirista Wally foi com ele. Wally queria ser um produtor, roteirista ou diretor, mas os estúdios queriam tirar vantagem de sua beleza e seu corpo atlético e o incentivaram a atuar.

Quando Dot conheceu Wally, ela ficou impressionada com a beleza dele e com suas habilidades como cavaleiro. Eles se casaram em 1913.

Nota sobre o casamento de Wallace Reid e Dorothy Davenport (Fonte: Motography, 04-October-1913)

Dorothy ficou um tempo afastada dos cinemas. O primeiro filho deles nasceu apenas em 1917, então não foi por causa disso que ela deu uma pausa.

Release cheio de spoiler de “Nº 16 Martin Street” (Fonte: Moving Picture News, 08-July-1916)

Pensando nos problemas que mais tarde abateriam a família Reid, considero irônica e interessante a sinopse deste curta-metragem da Universal: ““Nº 16 Martin Street” combina duas fases significativas da vida moderna; uma é a ciência da criminologia, e a outra o surgimento de um vício terrível, o mal dos narcóticos […] Cleo (Dorothy Davenport) volta para a segunda apresentação, e ao encontrar sua amiga Cleo sozinha, finge que é viciada em cocaína e implora para que Audrey consiga um pouco da droga para ela”.

No final de 1916, a Universal estreou três curtas-metragens de Dorothy, em 30 de novembro, 10 de dezembro e 21 de dezembro.

Wallace Reid e ‘Dorthy Davenport Reid’ em casa (Fonte: Photoplay, August, 1917)

As coisas iam bem para a família Reid. Havia boatos de que Wally era alcoólatra, mas isso não interferiu em sua carreira nem em seu desempenho nas telas.

Wallace Reid Jr nasceu em 18 de junho de 1917. “O orgulhoso pai diz que o jovem e barulhento filho não fará carreira no cinema silencioso”. A irmã adotiva Betty nasceu em 1919.

Foto de Wallace Reid (Fonte: Photoplay, March, 1919)

No recorte acima, lê-se: “Ele interpreta jovens ricos que sempre, sempre conquistam a garota”. Você pode perceber por que ele sempre conquistava a garota.

Dorothy está ocupada com o filho e se afasta do cinema (Fonte: Photoplay, March, 1919))

No recorte acima, lê-se: “Dorothy Davenport está muito ocupada cuidando de seu pequeno filho, Wallace Reid Jr, para dar atenção ao cinema. Ela não fará filmes em breve. Esperamos, entretanto, que ela volte no futuro”.

Em 1919, Wally estava em um trem para Oregon, onde filmaria “The Valley of the Giants”, baseado em uma história de Peter B. Kyne sobre lenhadores. Não encontrei relatos da época, mas as fontes revelam que houve um acidente com o trem e Wally machucou a cabeça. Um médico precisou recosturar seu crânio e escalpo. A Paramount queria que as gravações não fossem adiadas por isso Wally recebeu doses de morfina para amenizar a dor.

Wally fez oito longas-metragens em 1919, sete em 1920 e 1921 e mais oito em 1922. Para cumprir os prazos rígidos do estúdio, os médicos da Paramount continuaram receitando doses cada vez maiores de morfina. Entre os filmes mais populares de Reid há comédias sobre corridas de automóveis, como “Excuse my Dust”, de 1920.

Wallace Reid se internou em uma clínica na tentativa de se livrar do vício. Ele faleceu lá em 18 de janeiro de 1923.

Notícia da morte de Wallace Reid (Fonte: Motion Picture News, 27-January-1923)

Dorothy Davenport ficou com dois filhos pequenos e uma montanha de dívidas. Ela logo encontrou um jeito de resolver seus problemas financeiros. Dorothy era amiga da esposa do produtor, diretor e roteirista Thomas Ince, Elinor. Dorothy e Elinor convenceram Ince a produzir um filme anti-drogas.

Dorothy, creditada como Mrs (Sra) Wallace Reid, protagonizou e co-produziu “Decadência Humana / Human Wreckage”. Ela também co-escrveu e co-dirigiu o filme, mas não recebeu créditos por estas funções. Acredita-se que o filme esteja perdido.

Cena de “Decadência Humana”, 1923 (Imagem: reprodução)
Um debate sobre batizar ou não uma clínica de reabilitação com o nome de Reid (Fonte: Photoplay, June, 1923)

Considero interessante que o público não queria que um hospital de narcóticos fosse batizado com o nome de Wallace Reid, mas estão me lembrei da controvérsia semelhante acerca da clínica Betty Ford. Concordo com o autor do artigo na revista Photoplay: “Se o nome de Wallace Reid puder ajudar de qualquer maneira um hospital para viciados em droga, será um uso nobre. Nada no mundo é melhor que um lugar que cura”. Entretanto, não era isso que Dorothy tinha em mente: “Ela estava apenas fazendo um filme sobre um inimigo da vida”.

Sinopse de “Decadência Humana” (Fonte: Educational Screen, September, 1923)

“O filme de propaganda antidrogas de Mrs Wallace Reid ao menos tem uma intenção sincera” “(Indicado apenas para adultos)”

Dorothy em turnê com “Decadência Humana” (Fonte: Motion Picture Magazine, October, 1923)

No recorte, lê-se: “Quando Mrs Wallace Reid esteve em Nova York para a estreia de “Decadência Humana”, nós ficamos muito interessados em falar com ela. Não há a menor dúvida de que ela tem consciência de suas ações contra o tráfico de drogas. E, pessoalmente, admiramos qualquer pessoa que supere as dificuldades assim como Mrs Reid tem feito”.

“Em um banquete no qual discursou, ela pediu que as pessoas considerassem os afetados pelas drogas de maneira diferente do que vem acontecendo. Ela diz não pensar neles como seres estranhos e curiosos, mas sim como pessoas doentes que certamente podem receber ajuda. (grifo do autor do artigo original). E ela implorou para que paremos de usar palavras pejorativas para nos referir aos viciados”.

“Ela falou sobre ‘Wally’ apenas uma vez, quando explicou que sua ajuda à causa sempre será algo pessoal; por isso ela afirmou que a ignorância acerca das drogas é a maior ameaça, e disse que se soubesse há um ano tudo o que sabe agora, sua história poderia ter sido muito diferente. E, claro, se a morte de Wally e o posterior trabalho de Mrs Reid contra os narcóticos, incluindo o filme “Decadência Humana”, ajudarem a diminuir o vício em drogas, Wally continua fazendo o bem à humanidade, mesmo depois de morto”.

O próximo filme sobre temas sociais feito por Dorothy foi “Perdição / Broken Laws”, de 1924, sobre os efeitos negativos de mimar as crianças. Talvez haja uma cópia deste filme em um arquivo da Bélgica.

A produtora Mrs Wallace Reid Productions em uma propaganda no “Livro do Ano 1925 no Cinema”.
Dorothy e os filhos em um artigo de 1926

Esta foto de Drorothy e dos filhos acompanha o artigo “Memórias de Wallace Reid”. “Eu estou trabalhando, porque preciso me manter ocupada, e tenho que pensar no futuro das crianças. Meu objetivo é produzir filmes. Eu nunca me considerei uma boa atriz, e eu destesto usar maquiagem. Por isso, em “Sublime Redenção”, apesar de ser diretora, eu apareci apenas no prólogo”.

A produção seguinte de Dorothy Davenport foi a primeira em que ela foi creditada como diretora: “Sublime Redenção / The Red Kimona” (às vezes também aparece como “The Red Kimono”), de 1925. Esta história de consciência social era sobre tráfico de pessoas, na época também chamado de escravidão branca. Dorothy usou o nome verdadeiro da mulher que viveu a história contada no filme. A mulher processou Dorothy e ganhou a causa. O filme está disponível em DVD nos EUA.

Os filmes de consciência social de Dorothy a estabeleceram como produtora e editora de filmes ousados, sobre temas complexos.

Ambos os recortes sobre “A Senhora da Terra”, 1926 (Fonte: Motion Picture Magazine, July, 1926)

Não consegui muitas informações sobre o filme que Dorothy produziu em seguida, “A Senhora da Terra / The Earth Woman”, de 1926. O diretor foi Walter Lang. Um crítico o considerou depressivo e verdadeiro, exceto pelo final feito para agradar ao público.

Não encontrei muitas coisas sobre outra produção dela, “A Dama de Cetim / The Satin Woman”, de 1927, também dirigida por Walter Lang. Há apenas a informação de que o filme está preservado em um arquivo.

Sinopse de “O Caminho da Perdição”, 1928 (Fonte: Photoplay, May, 1928)

O filme que Dorothy Davenport dirigiu a seguir foi “O Caminho da Perdição / Road to Ruin”, de 1928, que soa bem sórdido. Aparentemente este filme foi patrocinado por tribunais contra delinquentes juvenis.

“Linda”, de 1929, a história de uma garota que casou cedo demais, é um filme mudo com som sincronizado e efeitos sonoros.

O filme seguinte de Dorothy Davenport, “Explorando os Trouxas / Sucker Money”, de 1933, conta a história de um falso médium e é o primeiro filme falado da diretora. Ela foi creditada como Dorothy Reid e co-dirigiu com Melville Shyer.

‘Dorothy Reid’ faz um filme com chances de ser exibido no exterior (Fonte: Film Daily, 01-March-1933)

Destaque do recorte: “Melodrama interessante que expõe a farsa de um médium. Tem excelentes chances de ser exibido no exterior”.

Dorothy Davenport fez um remake falado de “Road to Ruin” em 1934, e o filme foi rebatizado no Brasil como “Vias da Ruína”. Novamente ela foi creditada como Dorothy Reid e co-dirigiu com Melville Shyer.

Ficha técnica de mais um filme escrito e dirigido por ‘Sra Wallace Reid’ (Fonte: Motion Picture Herald, 24-February-1934)

Destaque do recorte: “Mais uma vez o cinema trata de avisar aos jovens sobre os perigos que existem no caminho das garotas, e aponta para os pais a necessidade de contar às suas filhas sobre a vida como ela é”.

Dorothy Davenport dirigiu seu último filme em 1934.

A carreira dela continuou, e ela produziu e escreveu filmes e programas de TV até o final dos anos 50. Na maioria das vezes ela era creditada como Dorothy Reid. Ela faleceu em 1977. Fico triste em lembrar que não foi divulgado seu obituário nos jornais.

Dorothy Davenport (Imagem: reprodução)

Dorothy atuou em “Man Hunt” (1933) e escreveu “The Racing Strain” (1932). Wallace Reid Jr apareceu enquanto bebê em alguns dos filmes de seu pai. Ele continuou atuando até o começo dos anos 40. Lembro-me de ter lido seu obituário em 1990 quando ele faleceu em um acidente de avião.

Este é um guest post de Joe Thompson, autor do blog Big V Riot Squad.

Para mais recortes (em inglês) sobre a vida e a carreira de Dorothy Davenport, confira nossa série no Medium (disponível no aplicativo para smartphone).

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