As Consequências do Feminismo (1906)

Contexto é tudo.

Quando visto sozinho, o curta-metragem “As Consequências do Feminismo”, de 1906, pode ser interpretado como propaganda antifeminista. Mas, visto dentro de um contexto, percebemos que ele na realidade não o é, porque foi feito por uma pioneira do cinema: a diretora, produtora e roteirista francesa Alice Guy-Blaché.

Você já deve ter ouvido falar sobre muitos pioneiros do cinema, mas conhece pouco ou nada sobre Alice. Agora é hora de destruir o mito de que Georges Méliès ou mesmo D.W. Griffith foram os criadores do cinema de ficção. A real criadora — no feminino! — do cinema de ficção foi Alice Guy-Blaché. Em 1896, menos de um ano após os irmãos Lumière chocarem o mundo com “A Chegada do Trem na Estação”, Alice já estava dirigindo minúsculas porém envolventes narrativas cinematográficas.

Levaria mais algum tempo até que outras pessoas percebessem que o novo meio, das imagens em movimento, podiam fazer mais do que documentar a realidade. Alice foi a primeira pessoa a descobrir — e a provar — que o cinema podia ser usado para contar histórias de ficção.

Alice Guy-Blaché (Foto: reprodução)

Em 1906, Alice já era veterana, com dez anos de trabalho no cinema como bagagem. Ela ainda era Alice Guy — o sobrenome Blaché seria adicionado no ano seguinte, quando ela se casaria com o também diretor Herbert Blaché. Alice ainda não havia se estabelecido na América — ela faria isso em 1909 quando abriu seu próprio estúdio ao lado do marido — mas ela já sabia muito bem como contar uma boa história.

“As Consequências do Feminismo” é uma sátira. Considerando a carreira de Alice, sua trajetória, e os filmes que ela ainda viria a fazer — como o infelizmente perdido “No ano 2000” — este curta-metragem de seis minutos só pode ser uma sátira. O que vemos no filme não são as consequências do feminismo (que acredita que homens e mulheres são iguais), mas sim do femismo (que acredita que mulheres são superiores aos homens). Nesse contexto, a igualdade nunca é alcançada, e a desigualdade é apenas invertida: na sátira de Alice, as mulheres são as predadoras sexuais, as criaturas violentas e autoritárias — enquanto os homens são dóceis e precisam cuidar dos filhos e das tarefas domésticas.

Homens fazem tarefas domésticas, como costura, neste mundo distópico (Foto: reprodução)

Todos os mal-entendidos e crenças falsas sobre o feminismo e as feministas podem ser vistos aqui — sim, os mitos sobre o feminismo são os mesmos de 110 anos atrás. E os medos de seus opositores também.

Estes mitos são o exemplo perfeito do que acontece quando o opressor tem muitos dos oprimidos do seu lado. É triste e doloroso ver mulheres e meninas repetindo mentiras que lhes foram ensinadas sobre o feminismo. É triste ver uma jovem segurando um cartaz que diz algo como “Eu não preciso de feminismo porque sou católica / evangélica”. É triste que ela veja o feminismo no mesmo patamar de uma seita como a Cientologia. É triste porque ela também ensinará estas mentiras às suas filhas e perpetuará a ignorância. E isso nos faz pensar: devemos fazer um esforço para ensinar especificamente para estas meninas a verdades, esclarecer o que elas interpretam mal, ou seria isso uma perda de tempo?

O homem resiste aos avanços da mulher, mas ela não aceita um “não” como resposta (Foto: reprodução)

Feministas não querem que homens e mulheres troquem de lugar na sociedade — porque o papel atribuído a cada gênero é por si só tóxico, pouco saudável e rígido. Não há peso tão abstrato e tão esmagador quanto o peso das expectativas. Se já é suficientemente difícil atender às expectativas da sua família, mensure o que é atender às expectativas da sociedade toda, que quer que você faça isso ou aja assim tão somente porque é um indivíduo de determinado gênero.

Feministas querem que homens e mulheres tenham os mesmos direitos. Como o direito de fazer cinema, que Alice defendia com paixão:

“Não há nada conectado com a realização de um filme que uma mulher não possa fazer, com a mesma facilidade que um homem o faz, e não há razão pela qual ela não possa dominar completamente cada detalhe técnico da arte”.

Aqui no Cine Suffragette estamos preocupadas também com acessibilidade. Por isso, começamos hoje a publicar vídeos como este, de filmes em domínio público, com audiodescrição. Porque o cinema é para todos!

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