Bette e Joan: a rivalidade criada pelo machismo

Susan Sarandon e Jessica Lange em “Feud: Bette and Joan” (Imagem: reprodução)

Esta análise é baseada na série Feud, de Ryan Murphy, que pode não ser completamente fidedigna — mas é a mais recente e mais complexa luz lançada sobre a rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford.

Quase tudo que temos hoje sobre uma das rivalidades mais marcantes do século 20 são perguntas sem respostas. Qual foi, de fato, o estopim para a nimosidade entre Bette Davis e Joan Crawford? Elas começaram a se estranhar durante as filmagens de “O que teria acontecido a Baby Jane” ou muito antes disso?

Já que nós não podemos fazer estas perguntas para elas mesmas, e as descendentes diretas das estrelas (como Christina e B.D.) são fontes nem um pouco confiáveis, podemos nos basear apenas em pesquisas. Uma pesquisa séria deu origem ao livro “Bette and Joan: the divine feud”, de Shaun Considine, e à primeira temporada da série de TV Feud.

(Imagem: reprodução)

De acordo com o episódio 2 de “Feud: Bette and Joan”, a tal rivalidade começou nos anos 40, quando as duas estrelas eram contratadas da Warner Brothers — antes disso Joan trabalhava na MGM e Bette na Warner. Jack Warner contratou Joan não por causa de seu talento, mas para impedir que Bette fosse muito exigente com relação aos papéis. É inclusive dito no episódio: agora o estúdio tinah duas vadias competindo por papéis.

Desde os anos 30, Bette lutou pelo direito dee escolher bons papéis. Ela não aceitava os roteiros fracos que o estúdio lhe mandava — o que acarretou diversas suspensões — e ela não aceitava ser tratada como uma propriedade do estúdio. Agora, com Joan, ela não poderia reclamar tanto ou perderia trabalho — e assim uma rivalidade surgiu.

Alfred Molina e Stanley Tucci como Robert Aldrich e Jack Warner (Imagem: reprodução)

Não é uma tática nova colocar duas mulheres uma contra a outra de modo a retirar o poder de ambas e transferi-lo para o homem envolvido na questão. Jack Warner fez isto novamente durante as filmagens de “O que teria acontecido a Baby Jane?”, ao convencer o diretor Robert Aldrich a contar à colunista de fofocas Hedda Hopper detalhes falsos sobre a rivalidade de Bette e Joan. Desta maneira, além de haver mais buzz sobre o filme, as performances das atrizes também seriam melhores. Jack estava ignorando o fato de que as mulheres podem interpretar a ira — não é um sentimento que precisa ser alimentado para aparecer na performance.

Obviamente, a rivalidade também foi alimentada pela vil colunista Hedda Hopper que, não tendo talento para ser mais do que atriz de filmes B, decidiu fazer carreira destruindo as vidas de quem tinha talento.

Judy Davis como Hedda Hopper, ao lado de Jessica Lange (Imagem: reprodução)

E para tornar o machismo escancarado, temos o momento em que B.D., a filha de Bette, ataca a mãe chamando-a de ridícula e invejosa, dizendo-lhe que ela não gostava de ver B.D. recebendo as atenções masculinas que antes eram para ela e que Bette não aceitava o fato de ter deixado de ser atraente. Às vezes o machismo está tão enraizado na sociedade que mãe e filha se tornam rivais — e há diversos exemplos disso na ficção — ainda que hipoteticamente, como ocorre aqui.

No episódio 3, Bette e Joan trocam figurinhas sobre suas experiências tanto como mães quanto como filhas. Bette pergunta como Joan disciplina as filhas gêmeas, e da “rival” recebe conselhos. Mais tarde, em um restaurante, elas relembram suas infâncias. Bette diz sentir saudade da mãe, que morreu em 1961, e diz que a mãe provavelmente foi sua única amiga. Joan responde: “você tem sorte”.

No episódio 5, depois de não ser indicada ao Oscar, Joan é convencida pela venenosa Hedda a fazer campanha para as outras atrizes, tirando o prêmio quase certo das mãos de Bette. Hedda e Joan inclusive falam mal de Katharine Hepburn — a brilhante atriz reclusa que nunca foi a uma cerimônia do Oscar e insistia em usar calças quando todas as outras mulheres usavam saias.

Bette e Joan nos bastidores da cerimônia do Oscar (Imagem: reprodução)

Então Joan liga para uma das indicadas, Geraldine Page, e a convence a desistir de ir à cerimônia e deixar Joan receber o prêmio por ela, caso ela ganhe. Mais tarde, na cerimônia, Joan diz para Patty Duke, que havia acabado de ganhar o prêmio: “Meu Deus, ganhadora do Oscar aos 17. A partir de agora é só derrocada”. Nós vemos então uma Joan venenosa, uma mulher que aprendeu desde cedo que todas as mulheres são inimigas que devem ser diminuídas para que você consiga seu lugar ao sol. É revoltante, sim, mas é muito mais triste.

Uma discussão diferente — e oportuna — sobre machismo

No episódio 4 vemos outra personagem sofrendo com uma atitude machista. Desta vez, a vítima é Pauline Jameson, secretária de Aldrich que escreve um roteiro para ela mesma dirigir. Ela apresenta o roteiro para Joan, que zomba do sonho de ser uma mulher diretora, dizendo, cheia de preconceitos:

“O que você acha que impediu a nova onda de mulheres diretoras? [referindo-se às diretoras do cinema mudo] Dinheiro. O dinheiro veio. Filmes mudos eram baratos, sem riscos, um produtor poderia não se importar com a ideia de uma atriz ou editora tentar a sorte atrás das câmeras. Mas quando a era dos estúdios começou, eles colocaram as mulheres para fazer trabalho de mulher”.

Bem, se Joan lesse o Cine Suffragette, ela saberia que não é bem assim…

Joan zomba da ideia de Pauline (Imagem: reprodução)

Mais tarde no mesmo episódio, Pauline recebe o mesmo tratamento de Aldrich — mesmo ele tendo dado a entender que apoiava a ideia — e ele diz, irado: “Ninguém vai deixar uma mulher dirigir um filme”.

É interessante notar que o episódio 4 foi dirigido por uma mulher, Liza Johnson, e há uma única personagem que apoia Pauline totalmente: Mamacita, a fiel empregada de Joan. Mamacita diz que, em 1970, mais da metade da população americana será de mulheres, então os estúdios precisarão que pelo menos metade dos filmes sejam dirigidos por mulheres. Se ela estivesse viva hoje, estaria bem chateada…

Alison Wright e Jackie Hoffmann como Pauline e Mamacita (Imagem: reprodução)

No episódio 8 Pauline diz a um documentarista que ela estava prestes a abandonar Hollywood quando encontrou trabalho atrás das câmeras em documentários. Pauline, ao contrário de Bette e Joan, teve um final feliz — provando que lutar pelos seus sonhos é sempre melhor que lutar com outras mulheres.

P.S.: Embora tenha existido uma atriz chamada Pauline Jameson, nascida na Inglaterra em 1920, a personagem interpretada por Alison Wright nada tem a ver com ela, já que a Pauline real jamais trabalhou com Robert Aldrich nem fez documentários.