Letícia Magalhães
Jul 27 · 4 min read

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS

(Imagem: reprodução)

Muitas vezes eu me questionei sobre a necessidade de uma segunda temporada para Big Little Lies. Depois dos sete episódios terminados, ainda não sei se a temporada foi realmente necessária. Uma coisa, entretanto, é inegável: está temporada trouxe mais perguntas do que respostas.

A segunda temporada é, sobretudo, sobre trauma. Celeste (Nicole Kidman) se sente culpada pela morte de Perry e também por ter sido violentada tantas vezes – Perry deixou um legado de horror para ela.

Quando finalmente parte da verdade vem à tona, a mãe de Perry, Mary Louise (Meryl Streep) não acredita que Perry tenha sido capaz de bater em Celeste – ela pergunta por que Celeste não foi à polícia, como se essa decisão fosse fácil de tomar – ou de estuprar Jane (Shailene Woodley) – ela começa a culpar a moça, perguntando se ela tinha certeza disso e se tinha muitos parceiros sexuais.

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A terapeuta de Celeste aponta por que muitas mulheres não conseguem sair de uma relação abusiva: assim como um soldado que sofre de transtorno de estresse pós-traumático, elas também não conseguem funcionar em um ambiente não violento. É o acostumar-se com a violência que causa mais dano que a violência em si.

Por falar em trauma, Jane começa a sair com um colega de trabalho – segundo dois diálogos, ele tem Síndrome de Asperger. Por ter sido vítima de um estupro, Jane terá problemas com sua intimidade

Mary Louise busca conhecer o neto Ziggy e participar da vida dele, causando desconforto e um dilema ético: a família do estuprador tem direitos sobre a criança nascida de um estupro? Além disso, vendo Celeste lutando para se recuperar, Mary Louise decide entrar na justiça para ficar com a guarda dos gêmeos. E esse será o principal conflito da temporada.

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Perry ainda é uma das principais personagens. Ele não era um monstro – era um homem comum, charmoso, bom pai, adorado por sua mãe. Isso significa que estamos cercados de monstros? Não: é dada uma razão para Perry ter sido como era. A razão? A própria mãe dele. Sim, meus leitores: a culpada por um homem ser violento com uma mulher é outra mulher.

Bonnie (Zöe Kravitz) recebe a visita da mãe, e descobrimos que a relação das duas nunca foi boa, tendo sido inclusive fonte de muitos traumas para Bonnie. Numa série com poucas personagens negras, colocar uma mulher negra – sendo o pai de Bonnie branco – como uma mãe abusiva é bastante negativo. Não estamos falando que negros são incapazes de fazer mal a alguém, mas sim que a escolha foi infeliz, em especial porque o que acontecia no livro era o oposto: era o pai de Bonnie que era abusivo. Por que houve esta mudança e o que ela significa? Seria uma tentativa de fazer todas as tramas girarem em torno de relações entre mulheres?

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Enquanto isso, o marido de Madeline (Reese Witherspoon) descobre que ela o traiu e Renata (Laura Dern), de longe a personagem mais interessante, fica apenas às voltas com a falência do marido, a perda do próprio patrimônio e muita histeria.

Por trás de todas as mentiras que incomodavam as Cinco de Monterrey – e não estamos falando da mentira mais óbvia – estava a mentira que contaram para a diretora Andrea Arnold, que tinha obtido carta branca para moldar a temporada como bem entendesse, mas que na pós-produção perdeu essa liberdade e viu o diretor da primeira temporada, Jean-Marc Vallée, editar seu material para que a série tivesse um visual mais homogêneo. O resultado é mais aleatório que Sharp Objects, outra série de Vallée.

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Com as personagens do elogiado livro de Liane Moriarty, Big Little Lies prosseguiu com dois roteiristas homens: o também produtor David E. Kelley e o praticamente desconhecido Matthew Thinker. Não seria interessante, em uma série que gira em torno de cinco mulheres, ter ao menos uma roteirista na sala de redação?

A segunda temporada de Big Little Lies é bem menos interessante e impactante que a primeira. O melhor dela não foi o que acontecia nas telas, mas sim as Big Little Questions que surgiram nas nossas mentes enquanto assistíamos ao comum apagamento da visão de uma mulher escritora e de uma diretora.

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Letícia Magalhães

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Lê. 26. Aspie. Brasil. Cinema.

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