Gilda de Abreu e o primeiro grande sucesso do cinema brasileiro

O nome de Gilda antes do título de O Ébrio (Reprodução)

Quando procuramos pelo nome de Gilda de Abreu no site da Cinemateca Brasileira, não encontramos nenhum resultado. Zero. E isso é vergonhoso. Ela pode ter dirigido apenas três longa-metragens, mas ela foi muito mais que a pioneira do cinema que merece ser celebrada no mês da mulher: Gilda foi atriz, cantora, roteirista, escritora e compositora. Ela também foi esposa do famoso cantor Vicente Celestino. Juntos, eles eram como Jeanette MacDonald e Nelson Eddy — e, ao contrário da dupla americana, eles viveram felizes para sempre.

Nenhum dos filmes de Gilda está disponível em DVD e, obviamente, nem na Netflix. Apenas seu filme mais famoso é exibido, ainda que raramente, na sessão de meia-noite de sábado na TV Brasil. Sobre sua vida e carreira, encontrei apenas uma dissertação de mestrado escrita em 2006. Gilda está quase escquecida — e não deveria.

Gilda de Abreu (que às vezes é creditada como “Gilda Abreu”) nasceu em Paris em 1904. Seu pai era diplomata e sua mãe, cantora. Aos quatro anos de idade, ela veio para o Brasil. Sua mãe a ensinou a cantar, e nos anos 20 Gilda protagonizou diversas óperas. Seu primeiro disco foi lançado em 1930 e em 1933 ela se casou com Vicente Celestino.

O primeiro filme de Gilda foi “Bonequinha de Seda”, de 1936. Ela fez a protagonista depois que Carmen Miranda recusou o papel porque as filmagens interfeririam com outros compromissos. E a mudança foi justa — afinal, Gilda compôs a valsa que inspirou o filme! Este filme foi uma superprodução que filmou multidões como nunca antes fora feito no cinema brasileiro. O filme foi restaurado recentemente, mas ainda não saiu em DVD.

Cena de Bonequinha de Seda, 1936 (Reprodução)

Gilda foi a terceira mulher a dirigir um filme no Brasil. A primeira a dirigir, produzir e estrelar um filme foi Cleo de Verberena, que fez o filme mudo “O Mistério do Dominó Preto” em 1931. Carmen Santos foi a outra cineasta precursora, entretanto seu complexo e problemático filme estreou somente depois de Gilda ter dirigido seu primeiro filme.

“O Ébrio” foi a estreia de Gilda como diretora. Foi uma adaptação de uma peça escrita por Vicente Celestino, que também compôs as músicas e ficou com o papel principal. “O Ébrio” é uma história de um homem que vai da riqueza à pobreza à riqueza e à pobreza novamente. E é surpreendentemente noir.

Gilberto (Celestino) está sem sorte. Sua família perdeu toda a fortuna. Seus amigos e parentes se recusaram a ajudá-lo. Ela encontra ajuda apenas na igreja. E é na música que Gilberto encontra mais uma vez esperança: ele participa de um programa de calouros na rádio, fica famoso e consegue pagar a faculdade. Ele então se torna médico.

Gilda de Abreu em 1936 (Reprodução)

Os toques noir vêm de todo lado: há a presença de um narrador, alguns flashbacks, uma femme fatale — e também um homme fatale. Você já viu uma trama noir começar no hospital? Bem, aqui isto ocorre.

Há uma sequência curiosa em que a consciência de Gilberto se manifesta no reflexo de um espelho, e foi este detalhe que mais me agradou na direção de Gilda. Há também alguns momentos cômicos — talvez um pouco inapropriados, mas mesmo assim bastante divertidos.

Destruído, traído, sem esperança, Gilberto se torna um ébrio. Sua representação do alcoolismo é cômica em alguns momentos, mas no geral sombria. Às vezes é até melhor que a de Ray Milland em “Farrapo Humano” (1945). E então Gilberto canta a canção principal:

“O Ébrio” se transformou em um fenômeno de bilheteria. Em algumas cidades, foi um sucesso maior que “E o Vento Levou…” (1939)! 500 cópias do filme foram feitas para distribuição, e é surpreendente que o negativo não tenha sido muito danificado no processo.

Cerca de 8 milhões de pessoas assistiram ao filme (o suficiente para colocá-lo entre os cinco maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro) — em uma época em que a população total do Brasil era de cerca de 50 milhões, 1 em cada 6 pessoas tinha visto “O Ébrio” nos cinemas. E não era o filme planejado por Gilda. “O Ébrio” foi extremamente dilacerado na edição para se tornar menor e mais triste. Em 1998 o filme foi restaurado, e hoje tem 125 minutos de duração. A versão de 1946 tinha 87 minutos.

O filme seguinte dela foi “Um Pinguinho de Gente”, de 1949. Desta vez, Vicente não fazia parte do elenco, mas em um papel coadjuvante havia um homem que se tornaria uma estrela: Anselmo Duarte, futuro galã e diretor de “O Pagador de Promessas” (1962), ganhador da Palma de Ouro em Cannes.

Anselmo Duarte no final dos anos 40 (Reprodução)

Mas Anselmo era um mau ator na época. Se não fosse por Gilda talvez ele nunca teria se tornado um grande ídolo. Ele recorda o episódio em um livro: “Sabia que era um ator de merda, mas tinha boa estampa, o que me permitia seguir em frente… Gilda pediu que eu repassasse o diálogo antes da filmagem. Eu disse as frases de uma maneira meio mecânica e ela me deu um tabefe na cara. O tapa foi forte, mas pior que isso foi a vergonha…. Uma bofetada da diretora Gilda Abreu me transformou em ator.”

O terceiro e último filme de Gilda como diretora foi “Coração Materno”, d 1951. Ela e Vicente estrelam o filme, que mais uma vez surgiu de uma peça escrita por Celestino.

Em “Coração Materno”, a história é toda contada em flashback. É o século XIX. Vicente interpreta Carlos, que foi abandonado em uma igreja quando bebê e criado pelo padre. Gilda interpreta Violeta, uma moça rica que desperta paixão tanto de Carlos quanto de um rico conde. O filme tem mal-entendidos novelescos, reviravoltas, alívio cômico, muitos momentos musicais, pano de fundo religioso e muito drama.

Gilda de Abreu e Vicente Celestino em Coração Materno (Reprodução)

Gilda mostra maturidade na direção de “Coração Materno” porque é um filme cheio de desafios: ela dirige, atua e canta em um filme que se passa nos anos 1800, e deve haver muita atenção ao detalhe e à ambientação — algo que não era tão necessário em “O Ébrio”. Há cortes inventivos, e até uma cena fundamental com efeitos especiais impressionantes.

Infelizmente, Gilda parou de dirigir filmes após “Coração Materno”. Comédias musicais — as chanchadas — começaram a dominar o cenário cinematográfico no Brasil. A partir de então, Gilda se concentrou em escrever. Ela escreveu o roteiro de um filme sobre o músico Francisco Alves em 1955, escreveu radionovelas e transformou suas peças em livros. Ela escreveu outros livros, como “Mestiça”, publicado em 1944.

Vicente Celestino morreu em 1968, aos 74 anos. Ele e Gilda não tiveram filhos. Em 1977 ela dirigiu um documentário de curta-metragem sobre o marido, e em 1979 ela faleceu. Seu livro “Minha Vida com Vicente Celestino” foi publicado apenas em 2003. Eu gosto de pensar que a profecia que o personagem de Vicente diz em “Coração Materno” se tornou realidade. Nela, ele diz: “Somos e seremos um do outro até mesmo depois da morte”.

Nunca houve uma mulher como Gilda de Abreu.

Gilda de Abreu (Reprodução)

Nota: declaração de Anselmo Duarte sobre Gilda de Abreu retirada do livro “O Homem da Palma do Ouro”, publicado pela Imprensa Oficial em 2004.