Leila Diniz, o símbolo de todas as mulheres do mundo

Ela era despudorada. Bonita, talentosa, alegre e bem-humorada. Simples. Acessível. Sua história tornou-se símbolo do comportamento de uma geração: ao passo em que provocou revolta entre os falsos-moralistas da sociedade brasileira dos anos 60, irritou as feministas tradicionais, que a consideravam tão somente “um produto a serviço dos homens.” Mas para ela, nada disso era importante. Se lhe pedissem para erguer bandeira, mandava que “enfiassem a bandeira no (*).” Seu único compromisso era consigo mesma — sem lamentos, sem hipocrisias. Musa do cinema nacional e pioneira da liberdade sexual feminina no Brasil, ela não seguia moda: criava moda. Em suas próprias palavras, “sobre minha vida, meu modo de viver, não faço o menor segredo. Sou uma mulher livre.”

(Foto: Antônio Guerreiro)

Leila Roque Diniz nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 25 de março de 1945. Era a caçula dos três filhos de Newton Diniz, bancário e militante do Partido Comunista Brasileiro, e Ernestina Roque, professora de educação física. Os pais separaram-se quando Leila tinha sete meses de vida, e a menina cresceu sob os cuidados da madrasta, Isaura da Costa Neves, professora do curso primário. Aos dez anos de idade, descobriu que Isaura não era sua mãe verdadeira. “A minha mãe de nascimento, a chamada puta que me pariu, mora em Santa Teresa”, disse Leila ao programa Nosso Tempo, da TV Manchete. “Eu fui criada por outra, minha madrasta, muito bacana também, eu gosto muito dela.”

(Foto: Reprodução)

Já durante a adolescência, Leila demonstrava traços de sua personalidade irreverente. Aos 14 anos, deixou a casa dos pais pela primeira vez. “Leila saiu de casa a primeira vez depois de uma briga com a minha mãe”, contou a irmã Regina, filha do segundo casamento de Newton Diniz. “Não havia um lugar onde ela achasse que era a casa dela: a da minha tia não era, da mãe dela não e dos amigos também não. Por isso acho que ela fez as pazes com mamãe e voltou. Acho que ela estava procurando um porto seguro. Então não ficava parada num lugar só”. De 1961 a 1964, Leila, em constante busca por si mesma, frequentou o psicanalista Wilson Chehabi. Segundo a irmã Eli: “A adolescência foi um corte muito grande na vida de Leila. Ela viveu conflitos intensos. Foi uma revolução interior… Era de uma independência que beirava o desenraizamento.”

(Foto: Reprodução)

Aos quinze anos, Leila iniciou no mercado de trabalho como professora do maternal e jardim de infância. Ao mesmo tempo, para contribuir no parco orçamento doméstico, passou a trabalhar em uma agência de modelos, estrelando anúncios e campanhas publicitárias. Aos poucos, as salas de aulas deram lugar aos bares cariocas, onde teve contato com personalidades do universo artístico. Logo, conheceu o roteirista, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, que introduziu-a ao teatro e ao cinema, e com quem foi casada durante alguns anos. “Conheci o Domingos porque namorava um rapaz de teatro, o Luis Eduardo. Ele trabalhava numa peça do Domingos, Somos todos do Jardim de Infância. Eu estava voltando o namorinho com o Luis Eduardo mas conheci o Domingos e dei aquela decisão. Durante a peça eu já estava na do Domingos, não é? Daí a gente se juntou e teve aquela zorra toda”, contou a atriz em sua histórica entrevista ao jornal O Pasquim, em 1969.

(Foto: Reprodução)

Leila estreou como atriz na peça infantil “Em Busca do Tesouro”, com direção de Domingos. Em 1964, contracenou com Cacilda Becker na peça “O Preço de Um Homem”, de Steve Passeur. Leila não gostava da arte de representar nos palcos: “Acho que teatro é um saco. Mas não posso dizer isso porque nunca fiz um troço porreta em teatro. Só fiz papelzinho, papel pequeno. Eu comecei em teatro. Eu comecei com a Cacilda. Ela veio ao Rio fazer O Preço de um Homem, o Vaneau fez teste e eu fiz. Foi em 64”, disse a O Pasquim. “Bem, eu entrei com a Cacilda. Quando entrei, eu não manjava muito da coisa. Entrei porque não tinha ninguém mais. Era muito fácil fazer teste: não tinha ninguém mais concorrendo e eu passei. Entrei lá muito alegre, chorava pra (*) em cada ensaio: ‘Não sei fazer isso, é (*)’, etc. Entrava em cena, morrendo de pavor, mas acho teatro chato: aquela coisa de fazer toda noite a mesma coisa. O que acho bacana em cinema e televisão é isso: eu me divirto muito, trabalhando.”

Reginaldo Faria e Leila Diniz em “Ilusões Perdidas”, 1965 (Foto: Divulgação/Globo)

A esta altura, Leila já havia incursionado pelo cinema, interpretando papéis pouco significativos nos filmes “O Mundo Alegre de Helô” (Carlos Alberto de Souza Barros, 1966) e “Jogo Perigoso” (Arturo Ripsein e Luis Alcoriza, 1966). A consagração como atriz mais popular do Brasil viria pouco depois, ao estrelar, como par romântico de Paulo José, a comédia “Todas as Mulheres do Mundo”, de seu ex-marido, Domingos de Oliveira, grande sucesso de público e crítica que rendeu a Leila o prêmio Air France de Melhor Atriz do Ano em 1967. Leila contou como foi filmar ao lado de Domingos após a separação: “Todas as Mulheres foi muito duro. A gente estava separado só há um ano, ainda estava naquela fase de se xingar: filho da (*), seu cornudo, foi você que foi culpado, não foi, foi você, aquela zorra.”

Paulo José e Leila Diniz em “Todas as Mulheres do Mundo” (dir. Domingos Oliviera, 1966) — (Foto: Reprodução)

Há quem diga que “Todas as Mulheres…” teria sido um disfarçado pedido de reconciliação de Domingos a sua ex-mulher. “Domingos era muito namorador, já havia sido casado com a Leila Diniz e escreveu o roteiro do filme quando estavam separados”, disse o ator Paulo José. “O filme, digamos, foi uma tentativa de reconquista, ou pelo menos um meio de esgotar as possibilidades, de cantar o seu amor por ela e transformar a separação em poesia. Não sei por que ele me escolheu para ser o alter-ego dele. Talvez porque eu fosse mais bonitinho.” Leila não acreditava nisso: “Não foi não. Não acredito. Foi uma coisa que o Domingos precisava botar pra fora. Realmente ele gostava de mim ainda, estava me querendo ainda — mas eu sabia que era melhor a gente ficar separado porque se a gente ficasse separado, a gente estava salvando um amor. Isso pode ser bonito demais mas é verdade. Tanto é que salvou: a gente ainda se ama, mas se estivesse junto, estava dando porrada um no outro, estava se odiando.” Já para Domingos, a experiência foi mais intensa: “O filme é explicitamente sobre minha relação com Leila. E nesse dia eu a vi nua pela primeira vez desde a separação… Toda a equipe ficou extenuada física e espiritualmente com a sequência, pois todos notaram que eu e Leila ficamos muito abalados. A cada plano que eu filmava, eu ia chorar lá dentro … Há muito de autobiográfico em Todas as Mulheres do Mundo”. Paulo José destacou que “Todas as Mulheres do Mundo firmou para sempre a imagem de Leila Diniz como o mito da mulher dos anos 60.”

Leila Diniz em “Todas as Mulheres do Mundo” (dir. Domingos Oliviera, 1966) — (Foto: Reprodução)

No ano seguinte, Domingos tentou repetir o sucesso de “Todas as Mulheres…” em outra comédia: “Edu, Coração de Ouro”, que, como o filme anterior, contava com Paulo José e Leila nos papéis principais. Em sua biografia “Paulo José: Memórias Substantivas”, da Coleção Aplauso, o ator descreve o convívio com Leila: “A convivência com a Leila foi fantástica. Ela era linda, não segundo os padrões de beleza da Barbie, da mulher sarada, siliconizada, produzida em série. Tinha peitos grandes, canela fina para os quadris largos, era dentucinha, deliciosamente imperfeita. Quando sorria, franzia a testa de um jeito especial, felino. Ou então soltava aquela gargalhada sonora, aberta, contagiante.”

Paulo José e Leila Diniz em “Edu, Coração de Ouro” (dir. Domingos Oliviera, 1967) — (Foto: Livro — “Paulo José: Memórias Substantivas/Reprodução)

Outro marcante momento de Leila Diniz no cinema foi em “A Madona de Cedro”, filme policial dirigido por Carlos Coimbra em 1969, estrelando Leonardo Villar, Anselmo Duarte, Sérgio Cardoso, Cleyde Yáconis, Jofre Soares e Ziembinski. “(…) tendo sempre a pensar na ‘Madona’ com ternura, porque o filme era interpretado por Leila Diniz e a Leila era fora de série”, declarou Anselmo Duarte. “Boa atriz, ótima colega, grande pessoa. O único problema da Leila é que era desbocada e não conseguia dizer duas frases sem colocar dez palavrões no meio. A gente fazia um filme religioso e a Leila chocava em Congonhas com seu comportamento libertário. Um dia apareceu no set o Toquinho, que era amante dela. E logo apareceu outro amante. Leila era assim, uma libertária. E não dava para criticá-la nem para ter raiva dela porque fazia tudo sem malícia. Havia nela uma pureza, uma sinceridade muito grandes. Foi uma grande mulher.”

Leila Diniz em “A Madona de Cedro” (dir. Carlos Coimbra, 1969) — (Foto: Reprodução)

De 1965 a 1970, Leila Diniz atuou em 13 novelas e 15 filmes. Quando a conheceu, em 1966, durante as filmagens da novela “O Sheik de Agadir”, a atriz Marieta Severo nutriu a seguinte impressão acerca daquela que viria a tornar-se sua melhor amiga: “Ela era muito centrada (equilibrada). Nunca a vi mal-humorada, mas tinha grandes tristezas (quando não passava muito tempo sozinha, escrevendo). Leila escrevia todo dia e assinava com um desenho (um círculo com um ponto no meio). Isto simbolizava sua busca pela essência de si mesma”, disse a revista Cláudia, em junho de 1982.

Leila Diniz e Marieta Severo em “O Sheik de Agadir”, 1965 (Foto: Divulgação/TV Globo)

Em novembro de 1969, Leila, de rosto lavado, roupão e toalha na cabeça, recebeu a equipe de entrevistadores do jornal O Pasquim para um bate-papo franco e descontraído. Em tempos de repressão, a entrevista de Leila Diniz causou frisson na conservadora sociedade brasileira, pois, pela primeira vez, uma mulher, despojada de falsos-moralismos, falava abertamente sobre sexo, trabalho e carreira. Os muitos palavrões que dizia foram substituídos por asteriscos.

“Você pode amar muito uma pessoa e ir pra cama com outra. Isso já aconteceu comigo.”

(Leila Diniz em “O Pasquim” — Novembro, 1969)
Capa da histórica edição de novembro de 1969 do jornal O Pasquim, onde Leila Diniz concedeu declarações inéditas e polêmicas (Imagem: Reprodução)

As declarações geraram repercussões históricas: a edição de novembro de 1969 do jornal O Pasquim atingiu o recorde de vendas de 117 mil exemplares ao redor país. A publicação motivou a criação da Lei da Censura Prévia, apelidada de Decreto Leila Diniz. Perseguida, Leila teve seu contrato com a TV Globo não renovado. Retornou a televisão a convite de Flavio Cavalcanti, como jurada de seu programa de calouros. Cavalcanti abrigou Leila em sua casa para protegê-la da polícia. À época, o ex-chefe do Serviço de Censura, Edgard Façanha, veio a público alegando que “do ponto de vista policial Leila Diniz representava uma ameaça em potencial aos princípios de moralidade pública”. Para Anselmo Duarte, “Leila tornou-se vítima da imagem que criou para si mesma.”

Desafiando a moral e os bons costumes: Betty Faria e Leila Diniz se beijam na praia, em 1969 (Foto: Antonio Guerreiro)

No fim de 1970, Leila iniciou o namoro com o cineasta moçambicano Ruy Guerra, e decidiu que era chegada a hora de ser mãe. Engravidou poucos meses após o início do relacionamento. “Ele [Ruy Guerra] é um grande homem”, disse a atriz em entrevista ao Jornal do Brasil. “Muito bacana, estou bacana, está tudo bacana. Ele chegou na hora bacana, no meio de tanta bacanice só poderia dar tudo certo. Nós temos diálogo, sempre teremos. E ele está muito feliz com nossa filha. Planejamos e quisemos o filho, os dois.”

Leila Diniz escolhendo as roupas de sua filha, em foto publicada na revista Intervalo, em 1971 (Foto: Acervo de Orias Elias)

Em tempos em que a gravidez era considerada tabu, Leila novamente desafiou a moral e os bons costumes e, só de biquíni, exibiu livremente o barrigão de seis meses na praia de Ipanema, sendo eleita a Grávida do Ano pelo programa do Chacrinha. As imagens de Leila expondo ao sol a barriga que abrigava a filha Janaína tornaram-se referência na histografia da moda praia, e pertencem ao acervo de registros históricos que retratam a liberdade feminina através das gerações.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Após o nascimento de Janaína, Leila iniciou sua breve passagem pelo teatro de revista, no espetáculo “Tem Banana na Banda”, onde, nos bastidores, escandalizou ao amamentar em público.

Leila Diniz amamenta a filha Janaína nos bastidores do espetáculo de revista “Tem Banana na Banda” (Foto: Revista Amiga, 1971)

Em junho de 1972, Leila, pela primeira vez, deixou a filha de sete meses sob os cuidados de Ruy Guerra, e, em companhia do cineasta e amigo Luiz Carlos Lacerda, viajou a Austrália para participar do Festival de Cinema, onde receberia o prêmio de Melhor Atriz por “Mãos Vazias” (Luiz Carlos Lacerda, 1971). O intenso drama “Mãos Vazias” é notório por sua crítica aos valores da sociedade tradicional, e por ser o último filme estrelado por nossa musa. Leila recebeu o prêmio, e já preparando-se para retornar a sua terra natal, enviou a filha um cartão-postal que dizia: “Minha querida Janaina, hoje eu e meus amigos passeamos num lindo parque cheio de cangurus, coalas e outros bichinhos. Fiquei com uma vontade de ter você aqui comigo. Acho que daqui a dois anos nós vamos poder viajar juntas, conhecer os lugares mais lindos da Terra. Estou voltando logo, logo. Muitas saudades de você e do nosso querido Brasil. Beijo para você e para o seu paizão. Da mãe cangurua, Leila”.

Leila Diniz e a filha Janaína Diniz Guerra, em 1972 (Foto: Reprodução)

No dia seguinte, 14 de junho, o avião da Japan Airlines em que Leila embarcara com destino ao Brasil, explodiu quando sobrevoava Nova Déli, Índia. O cunhado e advogado Marcelo Cerqueira constatou a presença do corpo de Leila entre os 78 passageiros e 11 tripulantes vitimados pela tragédia: “Infelizmente era Leila. E, de repente, andando, eu vejo no chão do deserto, a 20 quilômetros, um papel. Abaixo e pego: era o diário dela. Você veja que coisa! Diário que eu trouxe, nunca abri, e dei para o pai dela. Recordo-me que uma semana depois, quando fui visitar o pai, eu o vi lendo o diário, chorando e falando coisas. No diário, que existe, ela falava muito em Janaina.” Leila tinha 27 anos. Ainda hoje, Janaína conserva a sete chaves os diários escritos por sua mãe.

(Foto: Reprodução)

Assim escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Leila para sempre Diniz, feliz na lembrança gravada: moça que sem discurso nem requerimento soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão”. Plena de sua liberdade como ser feminino, Leila Diniz é o símbolo de todas as mulheres do mundo.

Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, amar, achar a verdade nas coisas que faz. Detesto o desespero e a fossa. Não morreria por nada nesse mundo porque gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria porque eu gosto mesmo é viver de amores”.

(Foto: Antonio Guerreiro)

Referências:

  • CARVALHO, Tania. Paulo José: Memórias Substantivas. Coleção Aplauso. Imprensa Oficial — São Paulo, 2004;
  • CARLOS MERTEN, Luiz. Anselmo Duarte: O Homem da Palma de Ouro. Coleção Aplauso — Imprensa Oficial — São Paulo, 2004;
  • O Pasquim, nº 22 — Rio de Janeiro, Novembro, 1969;
  • Portal Brasileiro de Cinema.

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