Meu Rei (2015) e por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo

Georgio e Tony: não é um conto de fadas (Imagem: reprodução)

Felizmente, eu nunca vivi um relacionamento abusivo. E, também felizmente, sou capaz de me colocar no lugar de quem já passou por isso através de um exercício de empatia enquanto faço o que mais gosto: vejo filmes. E quando fiz esta experiência com “Meu Rei”, de 2015, o resultado foram mais perguntas que respostas.

SPOILERS NA SINOPSE!

Tony (Emmanuelle Bercot) está em uma clínica para recuperar os ligamentos do joelho, rompidos em um acidente enquanto ela esquiava. Ela tem muitas semanas para refletir, tempo durante o qual toda a história de relacionamento dela com o marido passa na cabeça de Tony — e assim nos é apresentada no filme, através de flashbacks.

Tony (Imagem: reprodução)

Marie-Antoinette ou ‘Tony’ foi quem deu o primeiro passo e se aproximou de Georgio (Vincent Cassell) em uma balada. Ela já o havia visto em outra boate, e resolveu puxar assunto. Será que isso significa que quem dá o primeiro passo é eternamente responsável pelo andamento da relação? Pelo menos é isso que parece ficar entendido entre Tony e Georgio.

Georgio se mostra um cara extremamente irreverente. Ele faz Tony rir o tempo todo, faz coisas inusitadas como levá-la a um casamento no primeiro encontro deles, e é o primeiro a dizer “eu te amo” — ao que ela protesta que ainda é cedo demais para ele dizer isso. Mas já há um sinal de alerta: Georgio se refere à Agnès, uma ex-namorada dele que estava conversando com Tony, como uma garota que “tem problemas”.

Irreverente até demais (Imagem: reprodução)

Georgio está passando roupa quando diz que quer um filho de Tony, de modo romântico e fofo. Ela desdenha, ele diz que nunca havia sentido a vontade de ser pai antes. Ela duvida de que ele esteja falando sério, e ele quase a queima com o ferro de passar, e depois a agarra e aperta seu pescoço, terminando com tom de brincadeira. Era tudo brincadeira mesmo? Toda brincadeira não tem um fundo de verdade? E esse estranho momento controlando o sistema reprodutor alheio?

Tudo só começa a piorar mesmo quando eles se casam. Agnès tenta cometer suicídio quando descobre que Tony está grávida e aí tem início a via-crúcis. Por causa de uma condenação judicial de Georgio, quase todos os móveis do apartamento do casal são levados para penhora. Depois, ele insiste em escolher o nome do filho, contra a vontade da mãe. Georgio também age como se Tony o impedisse de sair com os amigos e se divertir.

Ele revela que usa drogas. Ela acha que precisam tentar superar isso, mesmo que ele a faça sofrer. Ele diz que quem ama sofre. Usa sarcasmo como arma, não aceita o divórcio. Mostra-se violento, e ameaça Tony, dizendo que pode provar que ela é instável para tirar a guarda do filho. Anos depois, quando Tony arruma um namorado, Georgio não aceita que o novo homem da vida de sua mulher chegue perto do filho deles. Porque a posse se estende até depois do fim do relacionamento, não?

O que leva alguém a insistir no erro

O irmão de Tony, Solal (Louis Garrel), parece ser o único a desconfiar de alguma coisa. Ele diz que Georgio é “um cara meio medieval”. Mais tarde, ele reforça que sempre disse que Georgio não serve para Tony. Mesmo assim, com amigos e familiares alertando e criticando, Tony insiste no erro e volta sempre para Georgio. Mas por quê?

Há um ciclo de violência nos relacionamentos abusivos. Após o ápice, que pode incluir violência física ou terror psicológico, há o momento em que se acredita que tudo vai mudar, e o homem violento promete que aquela foi a última vez — e a mulher, esperançosa, acredita (lembrando que qualquer relacionamento pode ser abusivo, inclusive relações familiares e de trabalho, mas o relacionamento heterossexual em que o homem é abusivo é o mais comum). Em “Meu Rei”, Georgio promete que vai deixar de ver Agnès, a ex-namorada problemática, que está sugando todo seu tempo e energia. Esta é a única promessa que ele faz, e Tony acredita. Antes, Georgio já havia se autointitulado jocosamente de “o rei dos canalhas”. E, na brincadeira, ele disse uma verdade.

É interessante notar que “Meu Rei” foi escrito e dirigido por uma mulher, a também atriz Maïwenn. Por que uma mulher faria de um marido abusivo um personagem tão carismático? Talvez porque os canalhas sejam em geral carismáticos. Ou porque carisma é diferente de caráter. Porque não é raro que, ao descobrir que um homem era abusivo, seus amigos e conhecidos digam “não é possível, ele é um cara tão legal”.

Elle, de 2016, chegou a ser acusado de ser um filme feito por um diretor do gênero masculino fetichizando o estupro. Sem dúvida Elle seria um filme diferente se fosse feito para uma mulher — da mesma maneira que “Meu Rei” seria diferente se fosse feito por um homem. Alguns críticos homens não gostaram do filme — talvez por não terem esse hábito de olhar para e criticar o relacionamento abusivo de cada dia. Mas Maïwenn teve este hábito — ou melhor, esta sacada.

Maïwenn (Imagem: reprodução)

Ela já trabalhava no roteiro havia dez anos, inicialmente como uma simples história de amor. Por volta de 2013, dois anos após estrear seu mais famoso filme, “Polissia”, ela decidiu incluir a lesão no joelho — única parte do corpo que tem relação íntima com o passado, como a diretora afirma — e colocar Tony para analisar sua própria história como quem a vê de fora. A diretora e roteirista também misturou um pouco de sua experiência ali — tanto que um de seus dois ex-maridos, cujo identidade não foi revelada, chorou e pediu desculpas a ela após ver o filme.

A recuperação de Tony na clínica também é sua recuperação de autoestima após anos de um relacionamento abusivo. Infelizmente, nem todos têm a possibilidade de se reconstruir assim. Para romper o ciclo do relacionamento abusivo, é preciso perceber que se está em um, e que isso é fruto de uma luta pelo poder e também fruto do machismo patriarcal — não é nada de possessão demoníaca, como a novela “O Outro Lado do Paraíso” vergonhosamente mostrou. No Brasil, a novela tem função educativa, mas escolhe deseducar. Que mais filmes como “Meu Rei” surjam para verdadeiramente educar sobre o relacionamento abusivo, e que surjam mais mulheres empoderadas como Tony após o rompimento do ciclo.