O primeiro filme ficcional foi dirigido por uma mulher

A francesa Alice Guy Blaché fez história ainda no século XIX.

Alice Guy Blaché

Quem é um pouco familiarizado com a história do cinema já ouviu falar em nomes como irmãos Lumière, Georges Méliès, Edwin S. Porter e D. W. Griffith. Livros de história do cinema, listas de filmes essenciais, críticos e grandes diretores reverenciam seus feitos, nomes e obras há décadas. Mas há um nome o qual não é encontrado facilmente nesses lugares nem citado pela maioria dessas pessoas; alguém que sequer tem sua importância reconhecida. Estou falando de Alice Guy Blaché (1873- 1968), a primeira pessoa a dirigir um filme ficcional.

Começamos pelo começo. No fim do século XIX, a francesa Alice Guy trabalhava como secretária no escritório de fotografia de Gaumont, quando ela e seu chefe foram convidados pelos irmãos Lumière a assistir à apresentação surpresa do primeiro projetor de filme. La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (1895) foi o primeiro filme exibido ao público, um registro que mostrava os trabalhadores saindo da fábrica Lumière. Alice Guy logo vê no filme uma possibilidade de incluir elementos narrativos tais quais encontrados nos livros que lia, indo contra as ideias de muitos que viam o filme como uma ferramenta antropológica para estudos científicos ou para aumentar a venda de equipamentos. Ela então pede ao seu chefe para fazer seu próprio filme, e ele concorda, muito por ver esse pedido como uma distração de menina e não perceber o potencial do filme.

Dessa forma, Alice Guy se torna a primeira pessoa a dirigir um filme ficcional, La Fée aux Choux (1896), adaptado de uma fábula francesa sobre os bebês nascerem dos repolhos. Historiadores acreditam que o ilusionista Méliès — reverenciado pela história do cinema — iniciou seus primeiros experimentos ficcionais um ou dois meses mais tarde.

A Fada dos Repolhos, 1896

Em 1907, Alice Guy e seu recém marido, Herbert Blaché, vão para os Estados Unidos para apresentar aos americanos o Cronofone (aparato que sincronizava o som com a imagem) representando a empresa de Gaumont. Três anos depois, em Fort Lee, Nova Jérsei, a cineasta cria seu próprio estúdio de cinema, a Solax Company, e se torna a primeira mulher, ou uma das primeiras, a dirigir um estúdio, sendo ele o maior estúdio americano antes de Hollywood, produzindo e dirigindo um filme por semana nos seis primeiros meses, e mais tarde tem diversos filmes exibidos pela Metro Pictures Corporation (a MGM dos dias atuais). Em 1912 é a única mulher a receber mais de U$25 mil ao ano. No início da década de 20, muitas companhias da costa leste começam a migrar para Hollywood, e com o declínio das produções da Solax Company, associadas ao fim do casamento entre Alice e Herbert, o estúdio encerra suas atividades e ela retorna para a França com seus filhos, não voltando a produzir mais filmes.

Alice Guy Blaché era bem recebida pela crítica e por mais de uma década foi a única mulher diretora; além disso escreveu e produziu diversos filmes. Estima-se que tenha realizado entre 600 e 1000 curtas e longas-metragens durante seus 24 anos de carreira. Não se sabe o número exato de filmes pois além de se perderem e se deteriorarem, alguns não foram associados a ela; nesse período não era comum botar créditos nos filmes e muitos que estavam vinculados ao seu estúdio mais tarde foram creditados ao ex-marido ou ao seu assistente de direção.

Na sua filmografia vale destacar La vie du Christ (1906), uma grande produção realizada ainda na França que conta do nascimento à morte de Cristo, utilizando 25 sets e centenas de figurantes em um filme de 33 minutos, um grande marco para a época. Les résultats du féminism (1906) onde brinca com a troca de papéis em que os homens fazem as tarefas domésticas e as mulheres vão para o bar beber. A Fool and His Money (1912), o primeiro filme só com atores negros do qual se tem conhecimento, em tempos em que pessoas brancas os representavam através de blackface. The Ocean Waif(1916), cuja protagonista é uma moça pobre que foge de casa após sofrer abusos do padrasto.

Alice Guy Blaché foi apagada da história. Seu nome não é lembrado, embora seus feitos sejam inquestionavelmente relevantes para a história do cinema. A passos lentos esse erro histórico vai sendo corrigido. Em 1955 a cineasta foi condecorada com a Ordem Nacional da Legião de Honra, a maior honraria francesa. Em 1975, Nicole-Lise Bernheim produz o curta-documentário Qui est Alice Guy?. O livro de memórias da cineasta é lançado na França em 1976 e traduzido para o inglês dez anos depois. Em 1995 a canadense Marquise Lepage realiza o documentário Le jardin oublié: La vie et l’oeuvre d’Alice Guy-Blaché contando a história da cineasta. Em 2002 a escritora Alison McMahan, publica o premiado livro Alice Guy Blaché, Lost Visionary of the Cinema e em 2009, junto com outros escritores, publica Alice Guy Blaché: Cinema Pioneer.

A comissão de cinema de Fort Lee, cidade onde seu estúdio estava radicado, fez grandes feitos para honrar a cineasta. Em 2008 criou o Alice Award em sua memória; em 2011 solicitou e foi acatada que Alice fosse incluída postumamente como membro no Directors Guild of America, o sindicato dos diretores de Hollywood; no ano seguinte arrecadou fundos e trocou a lápide de seu túmulo incluindo o logo da Solax Company, a descrevendo como primeira mulher cineasta e presidente de estúdio de cinema.

Para conhecer mais de sua obra, no YouTube há muitos filmes disponíveis. O documentário de 1995 também é fácil de ser encontrado e bastante interessante para conhecer mais esta cineasta tão importante.