Pagu: o mito, a mulher, o sonho

Musa trágica da revolução e figura central do modernismo, Pagu marcou a história política e cultural brasileira.

Quando criança, curiosa que era e já deixando entrever a verve pesquisadora, eu metia-me entre a pequena biblioteca que meu pai, eterno apaixonado pela literatura, deixava a meu dispor. Contos de fadas ilustrados, velhos almanaques sobre a ida do homem à Lua, filósofos de capa dura, romances de Balzac e Machado de Assis — lia tudo, e, ainda que não compreendesse apropriadamente o que se dizia naquelas páginas amareladas, os livros eram o alimento dos devaneios idílicos de minha infância. E assim era seduzida, dia após dia, pela arte da palavra.

Foi quando, certa feita, caiu em minhas mãos o exemplar de uma revista que folheei sem grande entusiasmo ou expectativa, como fazia com outras tantas que possuía. Chamou-me a atenção, porém, um desenho sugestivamente erótico que, ao passo que provocou-me, de maneira inconsciente, estranheza e comicidade por seu traço imperfeito, intrigou-me por sua assinatura: Pagú, 1924. Ao lado, a fotografia de uma bela moça de lábios, cabelos e olhos profundamente negros.

Teria eu, à época, oito ou nove anos de idade, creio. E, desde então, trazia em mim uma só ambição: escrever, escrever e escrever.

Detive-me, desta vez mais demoradamente, nos negros olhos estampados na fotografia: quem seria esta moça tão bonita — pensava — esta moça de olhar cortante e altivo?

Conheci o mito. Aquela moça de olhos frios, ouvi dizer, amou. Sofreu. Fez versos. Lutou pela libertação dos oprimidos. Foi, nas palavras de Drummond, a “musa trágica da revolução”. Porém o mito, por si só, não bastava, pois mito é construção falha, por vezes desumanizante. Quem seria, então, a mulher?

Ela seria — ah, sim, sim, ela seria a heroína de meus romances futuros. Quantas vezes, já crescida, caminhei através das ruas buscando refazer os passos desta heroína, buscando reconstruir, à força da imaginação, aquela São Paulo, aquele Brasil romântico. Esta heroína, donzela às avessas que, dispensando o Príncipe Encantado, tomou para si a capa e a espada e salvou-se dos fantasmas que a aprisionavam na torre.

Mulher.

Latino-americana.

Esta heroína tornou-se parte de mim.

Contra todos os reveses, todos os pré-conceitos — heroína de primeira grandeza.

E é para aquele longínquo Brasil que retorno agora, em busca da heroína que pautou sua vida na busca pelo belo, pelo justo e pelo novo.

Pagu na década de 20 (Foto: Revista Entre Livros)

Retorno, especificamente, ao dia 9 de junho de 1910, quando nasceu, em São João da Boa Vista, Patrícia Rehder Galvão. Sua família logo emigrou do interior para o Brás, vila operária da capital paulista. Era a República Velha, e São Paulo crescia devido à forte onda de imigrantes advindos da Europa — especialmente, da Itália — que aqui se instalavam para trabalhar nas fábricas e lavouras de café.

A pequena Zazá, anos 1910 (Foto: Reprodução/YouTube)
Pagu (centro) aos 15 anos, em 1925, época em que começa a colaborar com o Brás Jornal (Foto: Reprodução/YouTube)

Embora considerada a principal musa do modernismo brasileiro, Patrícia tinha somente 12 anos quando ocorreu a Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Zazá — como era carinhosamente chamada pela família — desconhecia, até então, a força das vanguardas, porém era já um espírito em luta contra a moralidade vigente.

Ainda nessa época rompeu com o sagrado estatuto da virgindade, que regia as vidas de meninas oriundas do seio pequeno-burguês. O despertar sexual em tenra idade, segundo ela, nada teve de precoce. “Não foi por precocidade mental que entreguei meu corpo aos doze anos incompletos”, escreveu na carta autobiográfica que destinou ao segundo marido, Geraldo Ferraz. “Se existia revolta contra as coisas estabelecidas, eu nem pensava nisso. E, no entanto, sabia que agia contra todas as normas e duplamente, pois não era livre o homem que me possuiu.”

Seu primeiro namorado, Olympio Guilherme, deixou-a para seguir carreira em Hollywood, após vencer o concurso de talentos promovido pela Fox Film no Brasil. “Minha primeira paixão. Minhas primeiras lágrimas. As primeiras humilhações”.

Brincando na praia, em Itanhaém, entre a tia Fanny e a irmã Conceição (de chapéu). Década de 20 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Aos 15 anos, era aluna da Escola Normal e colaboradora do Brás Jornal, assinando textos com o pseudônimo Patsy. O primeiro contato com os modernistas deu-se quando passou a frequentar o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, como aluna de Mário de Andrade. Em 1929, conheceu o poeta Raul Bopp, que apelidou-a de Pagu por imaginar que seu nome fosse, na verdade, Patrícia Goulart. Bopp dedicou a ela o poema “Coco de Pagu”, no qual diz:

“Pagu tem uns olhos moles
Olhos de não sei o quê
Se a gente está perto deles
A alma começa a doer
Eh, Pagu, eh!
Dói porque é bom de fazer doer”
Década de 20 (Foto: Reprodução)

Bopp foi o primeiro a ouvi-la “com complacência na exteriorização de minha revolta contra a maneira de agir e de ser do resto do mundo conhecido”. Adolescente, Pagu era presença delirante entre a vanguarda paulista da década de 1920, e logo tornou-se íntima do casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, seus guias e mentores durante os primeiros anos de sua caminhada intelectual.

Os modernistas no Rio de Janeiro, 1929. Da esquerda para a direita: Pagu, Anita Malfatti, Benjamin Peret, Tarsila do Amral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Álvaro Moreyra, Eugênia Moreyra e Marimoon Gathier (Foto: Reprodução)

Destacada por seus modos irreverentes e estilo inconfundível — fumava em público, dizia palavrões, usava bolsas em formato de urso de pelúcia –, Pagu era descrita pelos jornais como “uma menina de cabelos malucos que ela nunca penteia”. Ou, ainda, “o último produto de São Paulo, o anúncio luminoso da Antropofagia”.

Década de 20 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)
Inspirada por Tarsila e Oswald, Pagu criava poemas ilustrados. Na imagem, croqui de 1924 (Foto: Reprodução)

Na pintura de Tarsila e na poesia de Oswald, a menina buscava a inspiração para seus “croquis”, poemas ilustrados inicialmente publicados na Revista de Antropofagia, coordenada por Bopp e Oswald.

O Movimento Antropofágico, assim batizado graças ao manifesto escrito por Oswald de Andrade, reafirmava os valores apregoados pelo Modernismo, que pretendia a “deglutição” — daí o título “antropofagia”, figurativamente, “o ato de devorar o homem” — a “devoração cultural das técnicas importadas para reelabora-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”. O Modernismo buscou a ressignificação das artes, baseando-se em valores culturais essencialmente nacionalistas. Em suma, a literatura, o cinema, a moda, as artes plásticas, buscavam, todos, uma só linguagem: a brasileira.

Década de 20 (Foto: Reprodução)

A convivência no meio artístico reacendeu na jovem Patrícia o desejo de libertar-se de sua realidade pequeno-burguesa. Para sair de casa, forjou um noivado com o pintor Waldemar Belizário, irmão de criação de Tarsila. Casaram-se no cartório e partiram para a lua-de-mel. A anulação foi rapidamente preparada e, após a cerimônia, Waldemar seguiu para a Europa, e Pagu, para a Bahia, onde tencionava construir sua nova vida, só e independentemente.

Um mês depois, recebeu um telegrama de Oswald exigindo seu regresso com urgência. Ele esperava-a no Rio. Havia deixado Tarsila para viver com ela.

Pagu e Oswald casaram-se em 5 de janeiro de 1930, no Cemitério da Consolação, diante do jazigo da família Andrade. Sobre esta data, Oswald escreveu em seu diário: “Cumpriu-se o milagre. Agora, sim, o mundo pode desabar.”

Da união, nasceu um filho, Rudá.

Oswald deixou Tarsila para se casar com Pagu. Da união, nasceu o filho Rudá de Andrade (Foto: Reprodução/Livro: Pagu — A Luta de Cada Um, Callis, 2005)

Pagu tinha, então, 18 anos, e Oswald, 38. Ao contrário do que se apregoa acerca da mulher Pagu, não era ela, mas sim Oswald, o devasso e imprudente da relação. Em sua carta autobiográfica, ela relata: “Eu estava às vésperas de ter o bebê. Eu me sentia imensamente boa naquela tarde. O dia tinha sido lindo, comprando roupinhas. Chegamos em casa. Cheia de emoção, estive ao lado de Oswald, esperando que ele terminasse um artigo para eu passar à máquina. Justamente quando estava terminando de datilografar, Oswald me falou que tinha marcado um encontro com Lelia. ‘É uma aventura que me interessa. Quero ver se a garota é virgem. Apenas curiosidade sexual’”.

Pagu ao lado do marido Oswald e o filho Rudá no início da década de 1930 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Ainda na carta, Pagu afirma jamais ter-se sentido amada por Oswald, e que este a possuía com o entusiasmo juvenil de quem possui um objeto raro. A jovem esposa precisou adaptar-se ao estilo de vida promíscuo e pouco convencional do marido. Desprezando a ordem social, adotaram o amor livre. “Tínhamos decidido pela liberdade absoluta pautando nossa vida. Era preciso que eu soubesse respeitar essa liberdade. Sentia o meu carinho atacado violentamente, mas havia a imensa gratidão pela brutalidade da franqueza. Ainda hoje o meu agradecimento vai para o homem que nunca me ofendeu com a piedade”.

Com Oswald na década de 30 (Foto: Reprodução)

No mesmo ano, partiu para Buenos Aires no intuito de encontrar-se com Luís Carlos Prestes. Não conseguiu, porém travou contatos com importantes nomes do círculo literário latino-americano. “Aquelas assembleias literárias, como eram enfadonhas. O ambiente idêntico ao que conhecia cercando os intelectuais modernistas do Brasil. As mesmas polemicazinhas chochas, a mesma imposição da Inteligência, as mesmas comédias sexuais, o mesmo prefácio exibicionista para tudo”.

Década de 30 (Foto: Reprodução)

Nem mesmo Jorge Luis Borges escapou às suas críticas: “Borges quis se despir no meu quarto cinco minutos depois de me conhecer. Fazer lutinha comigo. Gente sórdida.”

Década de 20 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Na Argentina conheceu o Marxismo, porém somente mais tarde, ao encontrar-se com Prestes, o Cavaleiro da Esperança, em Montevidéu, foi que abraçou a luta política. “Prestes mostrou-me concretamente a abnegação, a pureza de convicção. Fez-me ciente da verdade revolucionária e acenou-me com a fé nova. A infinita alegria de combater até o aniquilamento pela causa dos trabalhadores, pelo bem geral da humanidade.”

Assim, Pagu engajou-se no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Durante um comício de anarquistas italianos, em Santos, entrou para a história como a primeira mulher presa por razões políticas no Brasil. “Meu nome era propalado aos quatro cantos e repetido com entusiasmo no meio dos proletários, o que era considerado pernicioso pelo Partido por se tratar de uma militante de origem pequeno-burguesa”, escreveu. ”Os jornais incentivavam isso com noticiário escandaloso em torno de minha pessoa. Eu era realmente a primeira comunista presa e, no Brasil, isso era assunto a ser explorado, principalmente não se tratando de uma operária. Os comentários transformaram-se em lendas mentirosas, que exageravam minha atuação.”

Pagu após ser interrogada na Delegacia Central de Santos, em 1931. Ela seria, presa, ainda, outras 22 vezes (Foto: Reprodução/Memorial da Democracia)

Inimiga pública, ela seria presa, ainda, outras 22 vezes, sendo a última em 1935, por sua participação na Intentona Comunista, levante militar idealizado por Luís Carlos Prestes que pretendia a derrubada do governo ditador de Getúlio Vargas. Ao longo de cinco anos, seria mantida sob isolamento e tortura.

Sendo conduzida à prisão em São Paulo, 1936 (Foto: Reprodução/Memorial da Democracia)

Juntamente com Oswald, fundou, em 1931, o jornal O Homem do Povo. Em sua coluna Mulher do Povo, Pagu trazia temas concernentes às questões da mulher contemporânea. Bradava contra as “feministas de elite que atrapalham o movimento revolucionário”, contra o machismo e os preconceitos. Por seu teor crítico, o jornal não vingou, tendo sido derrubado após oito edições, aos gritos de um violento protesto de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Década de 30 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)
Década de 20 (Foto: Reprodução)

Pagu doou-se inteiramente à causa proletária, sacrificando maternidade e carreira. Atendendo às exigências do Partido, que demandava a proletarização de seus membros, vestiu sua melhor fantasia de operária e trabalhou como lanterninha de cinema. Depois, foi para o pesado serviço da metalurgia, onde, devido ao esforço contínuo, sofreu um deslocamento de útero que obrigou-a a afastar-se da militância.

Debilitada, foi amparada por Oswald e, durante o período de reclusão, atirou-se à escrita de seu primeiro e único romance: o pioneiro “Parque Industrial”, considerado o primeiro romance proletário da literatura brasileira. Nele, inspirada por suas vivências de infância no Brás, Pagu, sob o pseudônimo Mara Lobo, denuncia a miséria das classes baixas, e retrata a condição das mulheres operárias e imigrantes, vistas pelos burgueses como meras “analfabetas”, “pedaços de carne fresca”.

Década de 30 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Contudo, Pagu jamais conseguiu provar ao Partidão — como era conhecido o PCB — sua fidelidade e compromisso com a revolução. Profundamente magoada por ser reduzida à figura de objeto sexual, “provocadora, agitadora individual, sensacionalista e inexperiente” pelos comunistas, desligou-se do Partido em 1933, e partiu a viajar o mundo como correspondente dos jornais Diário de Notícias, Correio da Manhã e Diário da Noite.

Década de 30 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

No navio, entrevistou Freud; em Hollywood, conheceu a agitação do universo das celebridades ao lado dos amigos Raul Roulien e Miriam Hopkins; no Japão, perambulou pelas sarjetas; em Xangai, foi a única jornalista latino-americana a assistir a coroação do último imperador da China, Pu-Yi. Pagu tornou-se amiga do imperador, com quem foi vista andando de bicicleta nos arredores do palácio da corte manchu, e, reza a lenda, Pu-Yi entregou a ela as primeiras sementes de soja que deram início ao cultivo da planta no Brasil.

Pagu em Xangai, 1933. Foi a única jornalista latino-americana presente na coroação do último imperador da China, Pu-Yi, de quem tornou-se amiga (Foto: Reprodução/YouTube)

Na Rússia, viu Stalin e presenciou a miséria das crianças sob o regime soviético. Em Paris, conviveu com os surrealistas André Breton e René Crevel, desempenhou trabalhos como tradutora e jornalista, e foi presa por três vezes ao participar de manifestações do Partido Comunista Francês.

Década de 30 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

De volta ao Brasil, separou-se definitivamente de Oswald. Abraçando o socialismo democrático, utópico e libertário como o caminho para se combater as injustiças sociais, disputou, em 1950, a Assembleia Legislativa pelo Partido Socialista Brasileiro. Em seu panfleto “Verdade e Liberdade”, Pagu relata sua trajetória na militância comunista até a dissolução do ideal, na Rússia, onde testemunhou “a infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um grande hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista.” A imagem ilustrativa da campanha traz uma Pagu de 40 anos, envelhecida, altiva, contudo transparecendo, em seu olhar cabisbaixo, a tristeza e a desolação presentes em seus dias derradeiros. “De degrau em degrau desci a escada das degradações”, escreve.

Pagu em 1950. Foto utilizada em seu panfleto “Verdade e Liberdade” (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Após o fracasso das urnas, ingressou no teatro, publicou contos policiais, e entregou-se, apaixonadamente, à militância cultural. Seus últimos anos foram agraciados pela constante presença e cumplicidade de seu segundo marido, o escritor, jornalista e crítico literário Geraldo Ferraz, com quem teve um filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Pagu casou-se pela segunda vez com Geraldo Ferraz, com quem teve um filho, Geraldo Galvão Ferraz. Foto da década de 40 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Ao falar de Pagu, não posso evitar esta sensação amarga-doce, doce-amarga, esta vertigem que se me dá quando à pequenez da vida comum — na qual eu, nós, permanecemos, por razões de força maior, submersos — quando a esta pequenez contrapõe-se a tragédia que assola os grandes espíritos, as grandes almas abnegadas ao bem do mundo.

Por vezes, é difícil crer. E mesmo o grande espírito de Pagu sucumbiu à derrota: em 1949, buscou encerrar sua existência sobre a terra atirando contra a cabeça. Sobre o ocorrido, escreveu uma única vez: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas… Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA… Apesar dos dez anos que abalaram meus nervos e minhas inquietações, transformando-me nesta rocha vincada de golpes e de amarguras, destroçada e machucada, mas irredutível.”

Década de 30 (Foto: Reprodução/Livro: Paixão Pagu, Agir, 2005)

Haveria, ainda, outra tentativa de suicídio em 1962, na França, quando, vitimada pelo câncer de pulmão e após o insucesso de uma intervenção cirúrgica, desejou cessar o sofrimento. “Mas, como sempre, ela não conseguiria o que almejava”, escreveu o marido Geraldo Ferraz, que, novamente, amparou-a. A morte veio-lhe dali a pouco, no dia 12 de dezembro do mesmo ano, em Santos, cidade que adotou como sua. Sufocada pelo colapso, suas últimas palavras denotavam anseio de liberdade: ‘Desabotoa-me esta gola’.

E, no entanto, sonhar é preciso. Isto aprendi com esta heroína, cuja voz diz-me, em momentos de místico torpor e imperturbável melancolia : “Sonhe. Tenha até pesadelos, se preciso for. Mas sonhe.”


Referências:

Galvão, Patrícia. Paixão Pagu: uma autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Geraldo Galvão Ferraz (org.) 1ª edição. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

Zatz, Lia. Pagu. Coleção A Luta de Cada Um. São Paulo: Instituto Callis, 2005

Cardoso, Tom. A carta-depoimento de Pagu. Revista Entre Livros. Ano 1 nº 1. São Paulo: Ediouro, 2005.

O Homem do Povo. Ano 1 nº 1. São Paulo: 27 de março de 1931. Arquivo da Fundação de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais Dinarco Reis. Disponível aqui.

Revista de Antropofagia. São Paulo: 1928–1929. Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível aqui.

Repressão a comício mata operário. Memorial da Democracia. Disponível aqui.

Galvão, Patrícia. Verdade e Liberdade. São Paulo: 1950. Disponível aqui.

Outras fontes:

Pagu — Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo, curta-documentário de Marcello G. Tassara e Rudá de Andrade, produzido pela Universidade Santa Cecília. Disponível aqui.

Pagú, reportagem de Tatyana Jorge. Disponível aqui.

Eternamente Pagu, longa-metragem dirigido por Norma Bengell, 1988. NB Produções.