Stella Dallas, Mãe Redentora (1937): julgamento e maternidade compulsória

Stella Dallas (Barbara Stanwyck) e a filha Laurel (Anne Shirley) (Foto: reprodução)

Alguns filmes, mesmo com mais de 70 ou 80 anos, permanecem imunes ao tempo e às mudanças. Outros, entretanto, nos fazem chorar de raiva. Confesso que fiquei com o estômago embrulhado durante a maior parte da exibição de “Stella Dallas, Mãe Redentora”, e não apenas porque o filme é emocionante. É também uma película desconfortável e machista em vários aspectos.

Stella Martin (Barbara Stanwyck) é uma moça de classe operária que vê uma oportunidade perfeita para conquistar seu pretendente rico Stephen Dallas (John Boles) quando ele termina um relacionamento. Stella consegue o que quer, se casa com Stephen e eles têm uma filha. A primeira impressão que temos, entretanto, é que o casamento e a maternidade são objetivos impostos pela sociedade, mas que não deveriam ter sido aplicados a Stella.

Stella quer se divertir! Ela deixa a filha recém-nascida em casa e vai a um grande baile, onde conhece Ed Munn (Alan Hale). Ele se torna uma companhia constante para Stella, mas Stephen não vê com bons olhos o fato de sua esposa querer conciliar diversão com velhos amigos com os cuidados com a filha. Stephen abandona Stella e a pequena Laurel.

Lauren, Stephen e Stella (Foto: reprodução)

Stella cuida de Laurel com muito primor, costura as roupas da filha e vive de maneira modesta, enquanto Stephen volta a se relacionar com sua antiga namorada, agora uma mulher viúva. Stella ainda sai vez ou outra com Ed, e passa a ser alvo de más línguas. De repente Laurel não tem mais amigas porque a mãe dela se tornou persona non grata.

Laurel vai passar as férias com o pai, e na tão comum chantagem econômica e emocional dos casais divorciados, a jovem é levada para aproveitar a vida em sociedade na mansão da nova namorada de Stephen. Pouco depois ele pede o divórcio a Stella, porque não há problema para um homem divorciado se casar novamente. Já para a mulher, a história é outra. O próprio relacionamento (extraconjugal! Bígamo!) de Stephen é visto como natural e até necessário para que ele continue com sede de viver. E note que sua nova velha conquista é viúva: se fosse ela divorciada ou ainda comprometida, estaria sendo apedrejada em praça pública.

Primeiro: todas as mulheres têm o direito de se divertir (sem trocadilhos). Não é quando elas se tornam mães que elas deixam de ser pessoas com suas próprias necessidades e vontades. Elas não perdem sua individualidade. E nem todas nasceram para serem mães, embora Stella faça grandes sacrifícios por Laurel e ame de verdade sua filha. Segundo: nenhuma criança deveria sofrer por causa do comportamento nada louvável dos pais. Transformar Laurel em pária apenas porque Stella não é uma mulher ultrarrefinada é algo ridículo, mas que infelizmente ainda se repete.

Barbara Stanwyck sofrendo em Stella Dallas (Foto: reprodução)

Mas há o sacrifício no centro de todo o filme. Laurel se mostra deslumbrada com o estilo de vida dos ricos e poderosos, como era de se esperar, e nos dá um pouco de raiva. Algumas cenas adiante, porém, ela se redime ao mostrar como ama a mãe e como odeia ver Stella sendo ridicularizada. Mas o sacrifício nobre será feito por Stella apenas. Ela é o exemplo máximo da mãe que mente e sofre para o bem da filha.

Talvez Stella fosse mais feliz se fosse childfree. Ou se tivesse escolhido permanecer solteira. Ela é um exemplo típico de mulher que não nasceu para ser mãe, mas o é por pressão social ou pelas circunstâncias. Sempre que a maternidade é compulsória, todos sofrem: a própria mulher, a criança que em geral não é criada com amor e atenção, e a sociedade como um todo, que agora tem mais dois membros com saúde mental abalada.

Não é mais possível perpetuar a ideia de que todas as mães devem abdicar de suas próprias vidas para serem coadjuvantes na vida das filhas. Obviamente, o filme não existiria sem o sacrifício de Stella. Todos admiram Stella Dallas. Mas quem quer ser como ela na vida real?