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Diversidade: por que é tão importante para as crianças?

Dentro da esfera do CISV e na sociedade como um todo, debates e pautas acerca de respeito e inclusão estão ganhando cada vez mais espaço. Mas, afinal, qual a importância de se ter diversidade nos ambientes em que crianças convivem? O que pretendo fazer nesse texto é só falar um pouco sobre como eu vejo e o que eu penso a respeito disso, com base em experiências pessoais e conhecimentos de vida, não para provar algum ponto, mas sim para, quem sabe, iniciar uma discussão sobre o assunto.

Para começar, vou tratar de diversidade, nesse contexto, não como uma “cota”, um número. Não falo da maior quantidade possível de características humanas diferentes que conseguimos encontrar em um grupo de pessoas. Vou tratar de diversidade como a convivência de vários seres humanos que têm realidades distintas, em um convívio harmônico, saudável e em que as diferenças são respeitadas, e não julgadas.

Também vou dividir essa discussão em duas partes aqui, para facilitar o entendimento — embora eu acredite que ambas estão relacionadas e que ocorrem de forma simultânea. A primeira é sobre como a diversidade é essencial para o autoconhecimento e autoaceitação das próprias crianças, e a segunda sobre como ela é importante para a formação de seres mais inclusivos, respeitosos com os demais e com menos preconceitos.

Pensando em como a diversidade é positiva em um âmbito mais intrapessoal, acho que uma palavra que descreve e resume bem o que tenho a dizer sobre isso é “representatividade”. Esse termo é muito usado com a ideia de pessoas diversas em situações de poder, que exercem influência e representam os interesses de determinado grupo, em meio a uma população. Acho que a situação não é muito diferente quando estamos falando da criação de seres humanos. Nesse recorte, essas pessoas influentes são aquelas que as crianças têm como inspiração, sejam elas familiares, líderes, professores, colegas…

Esses indivíduos são as primeiras personagens protagonistas das histórias inventadas pelas crianças, são os primeiros heróis desenhados por elas. Agora, pense comigo, quando alguém passa por sua criação em um ambiente repleto de diversidade, os heróis das histórias também serão todos variados entre si. Assim, essa criança já cresce com a mentalidade de que ela também pode ser diferente, também pode ser como essas personagens protagonistas que tanto ama.

Além de que isso facilita muito o processo de entendimento do seu lugar no mundo. Um sujeito se ver representado em alguém que admira faz com que ele saiba que não está sozinho e que merece e consegue ser tão especial quanto aquela pessoa que tem como inspiração. Então, viverá em um ambiente confortável, onde tem consciência de que pode ser fiel a si, e onde suas experiências e vivências são validadas e levadas em consideração.

Então, essas crianças, ao conviverem com adultos que as representam, também podem desenvolver uma noção maior de perspectiva de futuro. Ao verem esses indivíduos em posições de importância em suas vidas, conseguem ter uma ideia de como podem ser quando crescerem, e o tamanho do impacto que são capazes de ter no mundo. Podem se imaginar no lugar dessa pessoa e enxergar uma gama maior de possibilidades de futuros brilhantes para elas mesmas.

Falando um pouco de mim, especificamente, consigo ver claramente alguns exemplos sobre como ter um contato — mesmo que mínimo — com pessoas diversas, vindas de realidades diferentes daquelas que eu conhecia, foi essencial para a minha formação como indivíduo. Foi na escola, por exemplo, que aprendi como as pessoas são diferentes entre si, e como isso é o que torna a convivência em sociedade algo incrível. Foi no CISV que me entendi pertencente a comunidades da qual faço parte, e foi com as pessoas que conheci aqui, dentro dessa organização, que eu comecei a amar e ter orgulho de quem eu sou.

Isso tudo eu aprendi não só com ensinamentos “formais” que tive nas minhas aulas da escola ou nas atividades de um acampamento, mas também simplesmente da convivência em ambientes em que a diversidade é existente e valorizada, do contato que tive com pessoas das mais distintas realidades.

E, então, entrando na segunda parte, conseguimos perceber também que esse convívio com a diversidade desde cedo cria seres humanos com a mente mais aberta, desde sua infância. Não digo isso só pela ideia de que, assim, ganhamos conhecimento de existências e vivências diferentes das nossas — o que não deixa de ser real e muito importante -, mas também por um entendimento mais profundo e natural sobre como não existe uma dualidade entre “eu” e “o diferente”, porque esse “diferente” não é algo distante de nós, não é uma coisa que deve ser respeitada, mas de longe. Ele é uma constante das nossas vidas: não melhor ou pior que nada, só diferente. E está e vai sempre continuar presente em todos os âmbitos da convivência em sociedade.

Por isso, se uma criança vive em ambientes com diversidade, ela tem mais facilidade em entender que todos os seres humanos são únicos e que não há nada de errado nisso. “Diversidade é a única coisa que todos temos em comum.” Esse é o tipo de ideia que, na teoria, já é muito compreendida socialmente — sendo que até se tornou frases de efeito e bordões -, mas que, na prática, ainda deixa a desejar.

Isso acontece, ao meu ver, porque, como existem muitos preconceitos e estereótipos enraizados na sociedade, desconstruí-los todos não é uma tarefa muito fácil. Então, eu acredito que o ideal seria incluir, desde cedo, crianças em ambientes com diversidade e representatividade — escolas, famílias, acampamentos do CISV…-, para que elas já crescessem sem esses preconceitos e não tivessem que passar depois pelo longo e difícil processo de desconstrução.

O que quero dizer aqui é que, como a sociedade já está cansada de saber, e como dizia a própria Doris Allen, são as crianças que vão compor e mudar o futuro, e, assim, queremos que elas sejam cada vez mais inclusivas e respeitosas, para que possam criar e viver em um mundo melhor. Também queremos que elas tenham um processo bom e tranquilo de entendimento de sua existência e seu poder na sociedade e que possam se ver representadas nas pessoas que as cercam. Por isso, eu acredito que o contato de crianças com a diversidade não é algo que tenha uma classificação etária. Muito pelo contrário, quanto mais cedo ele ocorrer, melhor.

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