Interfaces preguiçosas

Interface 3D holográfica do sistema operacional J.A.R.V.I.S. do filme Iron Man

Eu tenho preguiça. Muita preguiça de aprender a usar uma interface nova, um software novo ou um gadget recém-lançado. Sério. Eu quero mesmo é acessar novidades e executar ideias. Para justificar minha preguiça, vou citar Bertelsen e Bodker (2003) falando sobre a teoria da atividade de Vygostky, mediação e interação humano-computador: “tomando a atividade motivada como unidade básica de análise, precisamos estudar o que acontece quando usuários se concentram no seu trabalho ou qualquer outro ato intencional enquanto utilizam o artefato computacional. Com base na estrutura hierárquica da atividade, isso significa que a situação tende a ser rotineira quando o objeto da ação consciente do usuário é o mesmo objeto do trabalho e as operações inconscientes do usuário são dirigidas ao artefato mediador. Nesse caso, o artefato computacional se torna uma ferramenta transparente. Por exemplo, quando uma pessoa utiliza frequentemente um editor de texto como ferramenta ou instrumento, o objeto da sua ação consciente se torna o documento que está sendo elaborado, e não mais a aplicação de editor de texto em si.”

Para uma ferramenta (interface, instrumento, equipamento, notebook, celular) se tornar “transparente”, seu uso deve ser o mínimo possível detectável pelo usuário. Sua curva de aprendizado deve ser mínima. Algo como o “I know kung-fu do Neo” no filme Matrix, onde inserem um programa de computador na mente dele e imediatamente ele sai lutando kung-fu como um mestre (meu sonho de consumo aprender tudo assim).

Neo aprendendo kung fu via download direto no cérebro em Matrix

Uma ferramenta ao ser usada não deve aparecer mais do que o objetivo ao qual ela se propõe a executar. Explicando: mandar uma mensagem a um amigo deveria ser fácil como dizer o nome dele e imediatamente sua mensagem estar em seu ouvido. Ainda temos uma série de impedimentos tecnológicos intermediando esse processo: desde a escolha do celular, instalação do aplicativo (se ninguém bloqueá-lo...), aprender a usá-lo, adicionar contato do amigo, tendo já contratado a operadora que fornece plano de dado ou usar um wi-fi por aí. Até “pingar” o cara e a mensagem voltar, tem um longo caminho. Tudo bem que hoje em dia ele é bem rápido e está bem mais fácil que mandar um telegrama, mas o objetivo final de transparência da ferramenta seria algo como a telepatia.

As interfaces existem porque existem ferramentas intermediando as comunicações entre as unidades de inteligência. Estamos vendo o quanto elas estão evoluindo com o tempo, apesar de todas as questões de atraso tecnológicos por conta da indústria precisar ganhar rios de dinheiro com lançamentos com praticamente zero de inovação a cada ano. Talvez, se não se considerassem predominantemente questões financeiras, poderíamos estar utilizando equipamentos e interfaces muito mais evoluídas. Aprender a formatar uma monografia no Word com as regras da ABNT é bem chato, mas a gente faz porque precisa. E tudo é assim: eu aprendo a usar uma ferramenta porque preciso executar aquela tarefa. Ela ainda é um obstáculo, mesmo que esteja ali para me ajudar. Temos que ir nos adaptando a interfaces atrasadas até que algo melhor apareça.

O “cookie” feito a partir da mente da Greta no episódio White Christmas da série Black Mirror.

Eu quero um J.A.R.V.I.S. Desde que assisti ao Homem de Ferro, eu quero muito uma Inteligência Artificial que não sofra em me servir. Nada como o “cookie” presente no episódio White Christmas da série inglesa Black Mirror, onde é possível criar um clone da consciência de uma pessoa e adestrá-lo para trabalhar como escravo operando um software que gerencie suas residências de luxo em um futuro próximo. A consciência clone reconhece os padrões de desejos e se antecipa. Quando ouvi pela primeira vez um Ok, Google Now, imediatamente já fique animada e pensei que era o J.A.R.V.I.S. chegando. Mas longe disso. Ainda rola um tempo até termos inteligência artificial nesse nível e as não interfaces ou zero interfaces.

Fazendo uma análise super rasa do futuro tecnológico, teremos predominantemente dois campos para trabalhar: na idealização da experiência, determinando possíveis fluxos de interação ou construindo mundos virtuais na realidade virtual e na aumentada. Os pesquisadores de usuários vão escrutinar o cérebro e pontos de contato do usuário com o mundo exterior, ou seja, somente os dois ambientes que existirão em última análise no futuro: dentro e fora da mente (sendo que possivelmente este limite seja muito tênue em alguns momentos). E os perfeccionistas escovadores de pixels criarão novos mundos visuais e sensoriais. Até lá, cabe a nós simplificarmos interfaces, possibilitando microinterações e pequenos mimos virtuais de conforto diário como não ter que configurar um e-mail ou um aplicativo de mensagens. Enquanto não chegamos no futuro, vamos indo em direção a ele trazendo ao mundo interfaces menos confusas visualmente, com curvas de aprendizado menores e que necessitem de menos interações conscientes. Que venha a Computação Invisível.


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