Material Design é apenas uma opção, não a única.

Designers ganharam uma nova (não tão nova assim) ferramenta para criar e guiar suas interfaces com uma documentação bem detalhada e extremamente interessante. O Google desenvolveu o Material Design, um framework que promete unificar as interfaces do Android e padronizar as páginas web de seus produtos.


O surgimento do Material Design resultou em grandes discussões, euforia entre outros sentimentos por parte dos designers. Como toda novidade, este framework começou a ganhar espaço e muitas apps foram desenvolvidas no guia do Material.

Pelo discurso de conceito visual clean e moderno, comecei a analisar que sua estética nada mais é do que uma releitura do Flat Design, movimento que resgata o Minimalismo dos anos 60. A sociedade adota ciclicamente padrões estéticos que têm a ver com o momento histórico e o sentimento social vigente em cada época. Esses padrões se contrapõem e anulam, apenas para retornar décadas depois, como no conceito do Eterno Retorno proposto por Nietzche em A Gaia Ciência.

1- Poster do filme “O Poderoso Chefão”, dos anos 70. 2- Moda que voltou dos anos 80 reaparecendo nos 90. 3- Anúncio Porsche de meados dos anos 2000.

Críticas ao discurso à parte, percebo que existe um grande movimento para utilizar o Material Design fazendo com que outros padrões estéticos ou a liberdade criativa seja deixada de lado. Este framework é uma ferramenta para facilitar o desenvolvimento, e isso é um ponto forte. No entanto, essa facilidade provoca uma aplicação exagerada do Material Design, fazendo com que várias Apps tenham interfaces e interações muito semelhantes.

1- Simplenote. 2- Material Manager. 3- QKSMS. 4- Messenger from Google

Como dito anteriormente, acredito no “ciclo de criação”, e analisando uma geração de Apps desenvolvidas com o Material Design (Simplenote, Messenger from Google, QKSMS, Cabinet Beta, Material Manager, etc) percebo que as interfaces não só podem como devem ser variadas, focando ainda na experiência do usuário e usabilidade. Podemos pegar como exemplo o conceito Conversational Design (Design de conversação) utilizado para desenvolver o aplicativo Quartz, um app de notícias. Nele temos um método interessante de interação com o usuário; o tempo todo há uma “conversa” entre o conteúdo e o usuário como no exemplo abaixo:

Imagens da interface do Quartz App.
E se pudéssemos criar produtos que facilitem conversas não apenas entre duas pessoas, mas entre uma pessoa e um serviço?

Nunca vi uma documentação tão detalhada e contendo ideias de tanta qualidade quanto esta feita pelo Google sobre Material Design. Entretanto, perdeu-se muito tempo em determinar nos mínimos detalhes o look-and-feel das interfaces, e falou-se muito pouco sobre como elas devem reagir à interação com o usuário. Sintoma disso é que a sessão de usabilidade do guia ter apenas dois itens: acessibilidade e bi-direcionalidade de leitura. Além disso, algumas soluções de componentes não são necessariamente adequadas para todas as plataformas, como é o caso do Action Button no Hangout para iOS, que fica com a mesma função que o button de contatos na tab bar.

Em suma, não nego que o Material Design é uma excelente ferramenta, principalmente para desenvolvedores. Mas nós, designers, não podemos aplicar o Material Design em tudo, como se fosse uma panaceia universal, e deixar de pensar em interfaces inovadoras, conceitos diferentes ou releituras interessantes. Se agirmos assim, estaremos fadados a produzir apps totalmente iguais ao styleguide do Google e de seus aplicativos.

Queremos isso?