Black Panthers (1968) — Direção Agnés Varda

O afro-empreendedorismo e as novas perspectivas para o mercado.

Por Laís Mathias*

O empreendedorismo afro abrange outros conceitos que caracterizam essa prática e desempenha um papel decisivo no cenário nacional. De 2001 a 2011 segundo o PNAD, a quantidade de empreendedores negros cresceu 29%, e esse crescimento potencializa a iniciativa de pensar um mercado com mais variedade de produtos e marcas que contemplem a cultura negra.

A definição da palavra empreendedorismo está ligada a capacidade de identificar oportunidades, solucionar problemas, agregar valores e contribuir para a sociedade de maneira inovadora. No âmbito empresarial, normalmente têm o objetivo de criar novas empresas ou produtos e trazer mudanças em setores específicos ou remodelá-los por inteiro.

O afro-empreendedorismo, além de carregar esse aspecto do empreendedorismo, também contém em sua essência uma ideologia e como proposta um engajamento que alcança o público, e que reafirma sua raiz. Outro fator interessante, é que ele serve como canal para gerar discussões sobre assuntos de extrema relevância como a inserção social, o racismo e o empoderamento.

E como toda ação possui uma consequência, o empreendedorismo acaba sendo decisivo no desenvolvimento social e econômico do país. Diante disso, já existem cursos de nível superior que focam nessa área, acreditando que o empreendedorismo é essencial nas sociedades.

Estudiosos da história afro no Brasil destacam que apesar da nomenclatura ser algo atual, o empreendedorismo já era algo presente na vida dos negros no país, desde a época da escravidão.

Nessa época, os próprios senhores de engenho forçavam as escravas a fazer produtos típicos de sua cultura, como vatapá, acarajé, caruru, entre outros, com o objetivo de comercializá-los. No período da abolição, muitos negros livres que eram marginalizados pela sociedade, acabaram se tornando empreendedores também como uma ferramenta de lutar pela inserção social.

O reconhecimento e fortalecimento do afro-empreendedorismo

O mercado afro-brasileiro é um segmento de público-alvo que tem certas expectativas em relação aos produtos que irão consumir. A forte influência que os afrodescendentes possuem na cultura brasileira possibilita em termos mercadológicos que exista algo diferenciado e inovador.

No entanto, é indispensável frisar que essas concepções de fortalecimento da cultura negra, a busca da independência criativa, entre outros fatores, não negligencia a luta pela relevância do negro no mercado de trabalho e em cargos de liderança em grandes empresas. O empreendedorismo afro deve ser visto nesse contexto, como mais uma ferramenta de buscar uma efetiva democracia racial.

De forma estratégica, o empreendedorismo tem estimulado a inclusão e a ascensão social. Hoje, a maioria dos empreendedores brasileiros são negros. De acordo com um estudo de 2015, baseado na PNAD (pesquisa nacional por amostra de domicílios), 50% dos proprietários de negócios são pretos ou pardos. Outra questão que contribui para esse cenário é a participação crescente da mulher no mercado de trabalho, já que elas representam quase 40% dos trabalhadores de carteira assinada em micro e pequenas empresas, mudando historicamente o posicionamento das mulheres no mercado. Logo, o empreendedorismo, no contexto de micro e pequenas empresas tem sido uma alternativa democrática, pois tem aberto espaço para grupos discriminados, como mulheres e negros, e atraído muitas pessoas.

Desenvolvendo e aplicando o empreendedorismo afro

Nesse contexto, existem várias iniciativas inovadoras que demonstram o desenvolvimento dessa vertente de empreendedorismo.

Um ótimo exemplo é o projeto Brasil Afroempreendedor, que é uma iniciativa do Sebrae em conjunto com o Instituto Adolpho Bauer (IBA), o Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros de São Paulo (Ceabra/SP) e a Associação Nacional dos Coletivos de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (Anceabra), desenvolvido em nove estados com mais de 1.500 participantes. Esse projeto visa capacitar donos de pequenos negócios, e também auxiliar na formação de micro e pequenos empresários afrodescendentes. E os projetos selecionados além de receberem o acompanhamento de gestão e capacitação, também tem acesso a financiamentos.

Além disso, junto com parceiros, o projeto tem a pretensão de estimular a construção da Política Nacional para o Fortalecimento do Afroempreendedorismo (PNFA), para que esse tipo de iniciativa se expanda e alcance todo o país.

Dentro dessa área com diversas possibilidades e de inovação tecnológica, o aplicativo desenvolvido por três estudantes da FGV (Kizzy Terra, Hallison Paz, Vitor Del Rey) intitulado: Kilombu, também se destaca. A proposta do aplicativo é facilitar a comercialização de serviços e produtos da comunidade negra e a partir disso capacitar esse público. O aplicativo é completamente financiado pelos estudantes e todas as suas operações são gratuitas.

Outro exemplo interessante é a iniciativa Afro negócios que funciona como uma rede que tem como objetivo o crescimento e visibilidade dos afrodescendentes brasileiros na área profissional, empreendedora e empresarial. Essa rede funciona através de parcerias, eventos, serviços e produtos apresentados pela própria empresa, além da divulgação nos canais do empreendimento. Por fim, uma iniciativa muito interessante é a Incubadora Afro Brasileira, primeira incubadora do País com foco no fortalecimento de negócios com bases étnicas

Pela diversidade dos projetos, é possível constatar de forma factual como o empreendedorismo afro tem ultrapassado barreiras, acrescentando novas perspectivas a um mercado de trabalho com raízes retrógradas e discriminatórias.

É visível que ainda há muito a ser feito e consolidado, mas esse conceito já tem estabelecido transformações em diversos segmentos, e ajudado a conscientizar pessoas quanto as suas identidades étnicas, empoderando-as e estimulando a criação de seus próprios negócios.

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*Laís é estudante de Jornalismo da FACHA e assistente de Comunicação e mídias sociais da Clave de Fá Pesquisas e Projetos


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