Minha história de memórias não contadas

Mariana Azevêdo
Clube da Escrita Afetuosa
2 min readMar 29, 2022
Photo by Ryunosuke Kikuno on Unsplash

Era a casa de Dona Hilda.

Sempre que passava pela porta de venezianas eu era inundada por aquele museu de histórias de amor da família.

Nas fotografias em preto e branco e nas atuais coloridas.

Nas paredes pintadas de verde bacurau.

Na antiga máquina de costura sobre a mesa de ferro fundido.

Na carta manuscrita trocada entre o casal, emoldurada e exposta na parede.

Na cadeira de balanço de palhinha em que ela sempre repousava.

Não, ela não era a minha avó.

Isso é tudo o que eu não vivi.

Minha história é de memórias não contadas, esquecidas por precoces partidas.

Os meus avós se foram muito antes de eu nascer.

Três por morte morrida.

O último por morte rompida. Laços desfeitos. O luto mais dolorido.

Por muito tempo me entristeci com a minha biografia, principalmente quando comparava à da família de Dona Hilda, a avó do meu esposo. Até que compreendi que a história da minha família vem sendo tecida por gerações muito antes dos meus avós, e mesmo com os rompimentos bruscos que aconteceram entre a geração deles e a dos meus pais, o amor não se rompeu. Nunca se findará.

Me apego a cada fragmento de lembrança da minha mãe quando comenta sobre a força com que a minha avó a segurava pelo punho ao caminhar na rua (gesto que ela repete com meu filho) ou aos relatos da forte presença do meu avô paterno, homem intenso nas desavenças mas também no amor (assim como meu pai).

Valorizo cada um dos raros objetos que um dia foram tocados por meus ancestrais: o prato de porcelana pintado à mão, as delicadas taças de cristal gravadas com flores, a pequena bomboniere azul com bordas em meia-lua.

Acaricio esses relicários e sinto os fragmentos de todos que já se foram mas que ali permanecem. Assim me reconheço como parte deles e os sinto próximo a mim.

Sinto a força das minhas raízes

Independente de onde estejam

Aqui estão.

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Mariana Azevêdo
Clube da Escrita Afetuosa

A chegada do meu filho mudou tudo. Junto com ele, me gestei, me pari. Percebi que, pelas palavras, o mágico me toca. Me compreendo. Me preencho. Transbordo.