Anáfora e Anacoluto — #ClubeDaEscrita 2

Anáfora era solteira, mas não por opção. Desde os 15 anos, sua metáfora era perder a zeugma, mas ela nunca conseguira.

Era escritora. Juntava polissíndetos e perífrases o dia todo, e assim formava prosopopeias. “Por isso não tenho tempo para solecismos”, ela justificava, mas todos sabiam que era puro pretexto.
Anáfora era cheirosa, mas era fronha. Todos gostavam de ler suas prosopopeias, mas quando ela falava, os mais sensíveis chegavam a ter ataques de silepse.
Um dia chegou à cidade um cara meio surdo. Anacoluto. Fora expulso de Cadarço sob a alegação de ter se negado a fazer a catacrese, mas a verdade é que ninguém gostava deve porque era cacófato.
Anacoluto era médico e rico; abriu uma clínica.
Anáfora foi fazer exame de assonância magnética.

— T-tire os obje-jetos m-metálicos e p-pontiagudos, p-p-p-por favor.
— Brondinho, já direi.

Foi amor à primeira vista. Anacoluto fez metonímia, Anáfora perdeu a zeugma.
Os dois se casaram, e hoje vivem em perfeita sinestesia.

*Texto produzido para o segundo desafio do #ClubeDaEscrita. Saiba mais aqui: http://bit.ly/ClubeEscrita