Autorretrato
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Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, a Terra era uma pedra e só.
Na verdade, a Terra também era verde, era vida, era guerra, era possibilidade, era enorme, infinita. Mas ninguém sabia.
Nasci não em uma família, mas em um bando. Passei a infância aprendendo a amadurecer, como também seria em qualquer bando, qualquer tribo, família, época... Passei aprendendo a comer, caçar e durar. Na vida adulta, meus sei lá quantos anos, me fiz por completo e me tornei matador.
O rosto marcado, corado e enrugado exigia respeito. Os pelos ásperos que me cobriam da cabeça aos pés exprimiam seriedade e cobravam medo. Unhas e dentes afiados, músculos tensos e enrijecidos. Respiração quente e bafo cortante. Não havia homem ou animal que pudesse me enfrentar. Era bicho, era selvagem, predador.
Abafava a música dos pássaros e do vento. Meu rugido era maior, potente, de fazer terra tremer. Se cobiçava, lutava e tinha.
Virei líder do bando. Os olhos negros e foscos transmitiam vigor e alma rasa. Um sorriso petulante me abria a boca em horas de carnificina. A expressão completa paralisava quem olhasse. Temido, era rei.
Comia, bebia, fodia, matava para me provar e novamente comer. Vivia em ciclo, rodava atrás do rabo, até que morri.
O gosto da morte escorre amargo pela boca. Mas a dor não era nada de novo. Também não tivera brilho nos olhos para apagar. Não fiz falta, nem para mim.
Foi a fêmea que tomei para dormir comigo, em uma gruta baixa e úmida. Foi me cobrindo de pedras e defendendo da noite. E foi de pedras que ela construiu meu túmulo e me fez partir, talvez pagando por algum pecado que nem sentia. Talvez por vários. Mas sem culpa, sem consciência ou compreensão.
Sumi, subi. Taciturno, aprendi e vi o mundo mudar de longe, até que pudesse voltar como mulher, como tigre, soldado, golfinho, padre, judeu, empresário, comunista e artista. Vim e fui, sempre como animal, sempre como alma e carne.
Pelas idas e vindas, o mundo, que era só pedra e vida, deixou de ser, assim como eu.

