[Clube da Escrita] Viajante

Carol Vidal
Aug 29, 2017 · 2 min read

- Destino alcançado, capitã. Chegamos a junho de 2005.

- Obrigada, CA-Vida. Iniciar procedimento para desembarque.

- Sim, capitã. Mas, se me permite uma observação, tem certeza que esse é o melhor momento para a abordagem? Olha como os olhos dela brilham. Finalmente encontrou seu lugar, sua turma. Depois de tanto se sentir deslocada, lá está ela: feliz. Em paz. Será justo estragar esse momento?

- Mas não seria, justamente por esses motivos, o instante ideal? A gente sabe o que vai acontecer. Eu acho que ela merece a chance de saber, para que possa tomar as devidas decisões. Poxa, se você tivesse a chance de alertar alguém de forma a evitar um sofrimento, você a jogaria fora?

- Sabe o que eu acho, capitã? Você é capaz de fazer alterações temporais, porém, não pode ser egoísta a ponto de tirar a autonomia de uma pessoa decidir seu destino e viajar de acordo com sua própria consciência. Afinal, os erros e acertos dela agora é que formarão quem ela será no futuro.

A capitã manteve-se pensativa, tendo em suas mãos uma difícil decisão. Sabiamente, com seu avançado conhecimento de mundo como Central de Armazenamento da Vida, CA-Vida deu-lhe uma sugestão: mudar a rota e levar, em um outro momento temporal, uma mensagem, não de alerta, mas de esperança.

Novembro de 2007 foi o período escolhido. A mesma menina que há apenas dois anos parecia ter encontrado seu lugar no mundo, agora sofria o abandono daquelas que jurava fossem suas amigas.

A beleza de poder viajar no tempo é que a capitã sabe o que acontecerá dentro de pouco tempo. Bons ventos soprarão para a menina que agora chora, como sopraram lá em 2005.

Ela desembarca da nave e deixa, sem ser notada, uma mensagem:

Eu sei a dor que habita seu coração, menina. Acredite, eu conheço essa dor. É triste perceber que seus esforços para estar lá para quem você gosta foram entendidos quase como uma obrigação de estar sempre presente. Mas não se preocupe: use essa experiência para sempre lembrar que tudo bem dizer “não”. E, aconteça o que acontecer, guarde essa informação: numa certa noite de janeiro do próximo ano, mesmo que esteja cansada da viagem, entre no MSN. Sua vida vai mudar ;)

De coração em paz e com a missão cumprida, a capitã volta à nave para seguir viagem.

- Será que ela vai seguir meu conselho?

- Se bem a conheço, ela vai. Mas algo me intriga: você não acha estranho chamar a você mesma na terceira pessoa?

- Há muito tempo que não sou mais aquela menina, CA-Vida.

- Mas não se esqueça que ela é responsável por quem você é hoje. Assim como você é responsável pela minha existência.

*Esse texto foi escrito como o primeiro desafio do Clube da Escrita, cujo tema foi Autorretrato do passado.

Clube da Escrita

Tipo um clube de leitura, só que de escrita. Novos exercícios a cada 15 dias. Saiba mais em: http://bit.ly/ClubeEscrita

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Carol Vidal

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Escritora fã das artes que tocam a alma e resenhista da Revista Subjetiva. Newsletter: tinyletter.com/carolvidal_

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