Sinceramente, viu — #ClubeDaEscrita 1

Levou muito tempo até que ele terminasse. Você pode pensar em minutos, porque geralmente é esse o tempo que os mais comuns precisam. Esses que a gente encontra na calçada, por exemplo, passam 5 ou 10 minutos e já estão bebendo vinho. Mas ele, não. Ele era diferente. Levou muito tempo, era metódico.

Primeiro, o lugar deveria ser perfeito. A posição, então, era crucial. Foi ele, por exemplo, que me ensinou que a inclinação da cabeça pode fazer toda a diferença, e isso ele ajeitou usando as próprias mãos. As minhas eu deixei ao longo do corpo, mas ele preferiu que eu as pusesse em meu colo.

Pediu para que eu mantivesse o contato visual durante todo o tempo, mas ele tinha permissão para passear os olhos por todo o meu corpo, em detalhes. Achei injusto, é claro, mas para dizer a verdade eu não fazia muita questão de olhá-lo. Eu queria mesmo era olhar pela janela, as flores são bonitas naquela parte da cidade.

Mas tudo o que eu fiz foi ficar parada. Praticamente imóvel, conforme ele me pediu. E com um leve sorriso nos lábios, que eu tentei manter o mesmo, mas que foi mudando conforme os meus músculos estremeciam.

Existe um limite de tempo que você consegue aguentar certas coisas, e ele levou horas para terminar. Eu não sou o tipo de mulher que consegue ficar parada por horas, sabe. Mas finalmente:

"Ho finito!"

Tentei me levantar. Mas o pescoço endurecido, as mãos já num estágio avançado de formigamento. Permaneci no meu lugar por mais algum tempo, enquanto ele levantava e caminhava até a janela. E eu sentindo aquela dor… Essa teria sido a última vez, prometi para mim. Encostado à janela, olhando para a tela, ele disse algo em voz baixa e eu não ouvi.

"O que disse?"
"Ío vô tchamá-la de Mona Lisa! La Gioconda!"
"Mas o meu nome é Fabrícia".

Sinceramente, viu… Não dá pra confiar nesses artistas.

*Texto produzido para o primeiro desafio do #ClubeDaEscrita. Saiba mais aqui: http://bit.ly/ClubeEscrita