“A escada do poder” — relato do dramaturgo Cássio Racy

Saiba mais sobre escrever no contexto teatral.


Existiu uma época na minha vida em que queria fazer uma sátira sobre a situação política da cidade em que estava vivendo. Esta cidade era Guarujá, em São Paulo.

A ideia era fazer uma comédia em que um velho político, ao perder seu prestígio, fosse se radicalizando e um jovem sindicalista, conforme ganhasse notoriedade, ficaria igual ao velho quando estava no poder.

Assim, eles trocariam de posição na escalada de poder, os seus discursos mudariam, mas sua essência corrupta, não.

Virou um drama sobre a relação de três pessoas, com pinceladas de tecnologia, lenda e contos de fada.

Essa mudança demorou anos para acontecer, mas o que antes era uma cena que seria apenas entendida para um público específico (esse é o problema de escrever peças no calor do momento, com personagens reais e regionais) se tornou uma peça que fala de assuntos mais universais.

O plano de fundo continuou sendo política, a ascensão do jovem sindicalista ficou mais acentuada e a posição do velho político mudou de vereador para deputado estadual.

As mudanças mais radicais foram:

  • A inserção de uma nova personagem: Valéria.
  • A mudança de foco para um suposto triângulo amoroso, que acontece entre a Valéria, o Senhor e o Jovem.

Como falar de política sem falar de partidos?

A peça Abnegação 2 - o começo do fim¹ do grupo Tablado de Arruar me deu uma ótima ideia: eles contam uma história sem citar um partido específico.

O clima tenso e as atuações impecáveis ajudam o público a se sentir dentro daquelas tramas sujas. No espetáculo, as entranhas de um partido sem nome ficam expostas, mas eles discutem mesmo as relações entre as pessoas e os caminhos que cada um tomou para estar ali.

Enquanto escrevia O primeiro pecado capital ou A escada, essa mistura estava em minha mente.


A subida e descida do poder é sempre um ato muito significativo — a escada é um símbolo disso.

A minha primeira ideia era ter uma escada gigantesca no palco, com atores pendurados nela o tempo inteiro — percebi que não seria viável.

Como autor teatral, penso a cena e os personagens atuando. Muito provável que o diretor ou diretora vá mudar o que você imaginou depois, mas isso é outro assunto.

A escada ficou no título e nos movimentos simbólicos do texto como a ascensão do Jovem.

O primeiro pecado capital é a vaidade. Li algumas pesquisas psicológicas, mas me apoiei mesmo em um romance e uma lenda:

O médico e o monstro²
A lenda de Narciso³

O que mais queria passar naquele texto era a sensação de uma longa conversa entre o Jovem e o Senhor, fazendo o público se sentir dentro de um gabinete político; perceber um pouco daquelas intermináveis reuniões, que são verdadeiras conversas sobre o sexo dos anjos.

A tal conversa dura anos. Outros fatos acontecem, a vida muda, mas aqueles encontros no gabinete, não.

Por mais que o clima de tensão aumente e o perdão não seja uma palavra possível, aqueles dois políticos não deixam de entrar em uma disputa acirrada que deixa de ser só votos e conchavos: o prêmio passa a ser Valéria.

No final, quem ganha a competição é o cinismo e a vaidade, palavras essas que formam cada degrau dessa peça essencialmente constituída pelo poder que corrompe.


¹Espetáculo Abnegação 2 — o começo do fim, Tablado de Arruar

Bibliografia:
²O médico e o monstro/Robert Louis Stevenson;[Tradução Cabral do Nascimento] — 2.ed. — São Paulo: Martin Claret, 2012.
³ A lenda de Narciso:
http://naroliveira.blogspot.com.br/2009/11/um-resumo-da-lenda-narciso.html


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