Um amor igual a rabanete

Por Cissa Borges, do La Mesa | Gastro Lar.

Essa história começou na horta do Clube.

Na roça, chamam o rabanete de “mata fome” porque, depois de semeado, ele nasce e cresce em apenas 30 dias. Rapidinho, ele já vai pra mesa encher a barriga.

Quem é associado do Clube desde o começo, deve se lembrar de uma boa temporada inteira recebendo este item na cesta. Isso foi em 2014. Eram as primeiras colheitas do projeto, no Sítio Serra dos Órgãos, que fica no Vale do Jacó, entre Itaipava e Teresópolis.

Conheci a proposta do Clube através da minha amiga Luísa Breda e logo me apresentei para os fundadores: Eduardo e Victor. Na época, eu estava voltando da Rússia com um prêmio na área de branding e um convite para palestrar em Cannes. Mas… Eu estava completamente insatisfeita.

Meu avô João, que era agricultor, tinha acabado de falecer e sua ausência me levou de volta às minhas raízes rurais em Minas. Isso levantou em mim uma série de interrogações sobre o meu projeto de vida.

Eu me sentia naquela história do pescador, sabe? O pescador para de pescar para trabalhar, trabalhar, trabalhar e sonha em um dia poder voltar a pescar. Por que raios eu não poderia pescar agora?

Minha paixão sempre foi escrever, cozinhar e encher a mesa de amigos.

Foi então que eu larguei tudo e retomei a escrita de poesia (já publiquei dois livros do gênero), coloquei de pé a websérie Soul Kitchens Project (SKP) — que registra esses encontros comuns em torno da comida — e comecei a pesquisar sobre os novos movimentos de gastronomia.

Num determinado momento, os meninos do Clube comentaram comigo sobre a história do chef argentino Javy Larroquet, que estava no mesmo sítio onde eles cultivaram as primeiras colheitas.

Javy estava imerso no cultivo orgânico e na pesquisa sobre plantas alimentícias não convencionais (as PANC’s). Ele também oferecia, no espaço, cursos de alimentação consciente que eram muito influenciados pela sua experiência fora do convencional — resultado dos 10 anos que passou cozinhando pelo mundo.

Um dos primeiros desafios da cesta, com Javy Larroquet e a cesta do Clube.

Combinei de entrevistá-lo para o SKP e subi com o Clube Orgânico para o sítio (levando na mochila cinco garrafas de vinho). Eles iriam gravar com receitas usando rabanete para inspirar seus associados — primórdios do Desafio da Cesta e do CONVIDA.

E foi assim que começou a nossa história. Depois que o Clube me colocou na mesma horta que o Javy, o sentimento foi feito rabanete mesmo: cresceu rápido.

Em menos de um mês, o Clube subia a serra não apenas para buscar orgânicos, mas também para me levar até ele, e descia para entregar orgânicos para vocês, e o Javy para mim. As primeiras cestas foram testemunhas.

Poucos meses depois, estávamos morando juntos — na Serra — e, colocando a mão na terra, inspirados pela ideia de plantar nossa comida, sem veneno. Abrimos as portas da casa para experiências gastronômicas sem pressa, numa pegada slow food. Para ir rolando uma graninha também, fizemos muitas feiras como a Junta Local.

Chamamos o Seu Darcy, agricultor nascido e criado no Vale do Jacó, para ser nosso tutor nesta aventura de hortelões e começamos a organizar pop ups chamados de Open Sítio:


Levamos a ideia do Clube para a vida, que contou um pouco sobre nossa primeira casa, aqui. Aprendemos a plantar cenoura, mostarda, tomate, cúrcuma, batata, temperos, milho, funcho, um punhado de coisa, sempre respeitando os ciclos. Ouvir o Seu Darcy sobre cada cultivo era poesia pura.

Descobrimos, mais tarde, que a horta que fizemos alimentaria umas 15 famílias e o trabalhão tirou nosso tempo para a cozinha e para a escrita. Recalculamos a rota no final de 2015, ao mesmo tempo em que soubemos que nossa gravidez não tinha evoluído. Lidamos muito bem com a notícia porque já éramos entendidos de natureza. Às vezes, a planta não vinga.

Foi o momento em que decidimos procurar uma morada com mais infraestrutura interna para receber pessoas no modelo puertas cerradas, ou também, como chamado lá fora, antirrestaurante. E, nesse caso, deixamos o abastecimento da cozinha por conta dos produtores da região.

La Mesa Gastro Lar

Numa casa branca com janelões azuis, rodeada por montanhas e boa música tocando na vitrola, está o nosso La Mesa Gastro Lar. Desde novembro, abrimos as portas a qualquer dia e hora, desde com reserva antecipada, para quem gosta de comer bem e longe da correria.

E olha: tem pintado muita gente interessante por aqui.

No Gastro Lar a cozinha é aberta: Javy prepara tudo na frente dos comensais e, às vezes, leva as panelas para a fogueira do jardim, elaborando um cardápio todo na brasa.

Os menus são pensados a partir da sua bagagem de cozinheiro viajante, respeitando o que está dando nas hortas locais e orgânicas.

Eu dou pitaco em tudo e gosto de ventilar no processo criativo dele outras referências — inclusive de literatura.

Javy e Cissa no Gastro Lar

É nesse lar que iremos receber Caetano, nosso primeiro filho, que chega este mês entre temperos e histórias. Estamos muito felizes. Existe aquela expressão sobre conquistar o outro pelo estômago, né?

Nossa história de amor orbita em torno da comida — e o Clube é o padrinho desse romance orgânico e bonito demais.

por Cissa Borges

Gostou? Então clique no botão logo abaixo. Fazendo isso, você ajuda o Clube Orgânico a ser encontrado por mais pessoas.

Não tem conta no Medium? Que tal fazer login? Leva só um segundo. Após fazer isso, você pode seguir o Clube e receber nossas atualizações orgânicas.

Seja um associado: clubeorganico.com | Facebook — Instagram

Quer saber de tudo do Clube antes de todo mundo? Clique aqui e cadastre-se!

Like what you read? Give clubeorganico.com a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.