A queda dos Falsos Deuses

Você sabe andar? Há quanto tempo anda fazendo isto? O que você consideraria como um alguém que anda bem? E por que danado estou perguntando se você sabe andar?

“Poxa, Nasc, é óbvio que eu sei andar! Vá enrolar outro!”

Calma ai, calma aí. Recentemente andei refletindo algumas questões sobre crenças tão sólidas que sequer chegamos a pensar que elas são plausíveis de dúvida. Por exemplo, acreditamos que sabemos andar e que andamos do jeito certo de se andar. No máximo, procuramos a melhor posição para se andar sem causar problemas, posicionando corretamente nosso corpo.

E quanto ao teu emprego? Tua vida, relacionamento com pessoas, com dinheiro e, principalmente, consigo mesmo?

Costumo dizer que estamos tão viciados em viver nossa própria vida que acabamos sem conseguir sentir os cheiros que exalamos por aí. Cheiros estes podem ser similares ao odor do hálito de parceiros amorosos. Por convivência, por costume, por constância, deixamos até de sentir o mal hálito das pessoas que estão próximas de nós mesmos.

Imagina então de você!

Todos os dias você vive vivendo a mesma vida e, talvez, não se dê conta que não consegue mais analisar com tanta firmeza e segurança o que você mesmo faz. Por quê? Cheiro!!!

Lá no ArcheAge, onde há uma intensa e extensa mitologia com seus próprios deuses, casos de família, busca por poder, roubo de poder, morte de um mártir e toda a epopeia que há em se criar uma mitologia. Não entrarei em detalhes, apenas em especial no questionamento das verdades ditas e tidas como absolutas e inquebráveis dentro de nosso dia a dia.

Imagina como seria matar um deus.
Imagina como seria, como um deus, morrer.

A Jornada do Herói

Quem melhor que você para ser o próprio salvador, mártir e deus de sua história? Que lindo seria ter certeza que a causa que você luta — sua vida, história, valores e missão — são, realmente, a verdade última da realidade.

Em um dado momento, o Herói — você — enquanto ergue sua espada e num rápido e preciso girar, corta, poda e mata todos os males que te enfrentam diariamente em sua vida, de repente descobre que os males não somente vem para o bem mas que, pelo contrário, que você anda atacando todo o bem que vem para você enquanto os males crescem fortes e te atacam mais e mais visceralmente.

Imagina aquele grupo de amigos que, de repente, é tão importante para você. Imagina que, de alguma forma, você defende um e cada um deles que no grupo esteja. São seus amigos, melhores até. Se já aconteceu contigo algo parecido, de melhores tornarem normais e normais tornarem, de repente, nada, entenda que talvez um falso deus tenha sido destituído neste momento em que você lembra.

“E o que mulinga é um falso deus?”
Exemplo prático:

No ArcheAge, eu comecei jogando com alguns amigos. Meu perfil profissional sempre foi o de Competidor, em especial contra mim mesmo. No ambiente de trabalho, isto é excelente — na maioria das vezes — mas no ambiente de diversão, de um jogo, isso se torna nocivo em pouquíssimo tempo.

Tínhamos definido um horário diário para nos encontrarmos, fazer missões e ficarmos fortes juntos enquanto nos divertíamos. O problema foi quando, de repente, fui repreendido por um dos amigos, depois por todos por valorizar mais o crescimento dentro do jogo do que a união do grupo. O que houve foi que eu sempre dava um jeito de otimizar meu progresso e estar à frente deles. A consequência, no entanto, era que dessa forma eles não conseguiam me acompanhar e acabávamos jogando sós. Eu só e meus amigos juntos.

Nesse caso, matei um deus: o deus da Competição.

Tá gostando do texto? Se inscreve aí em cima para entender como todo esse conteúdo pode se transformar em Missões de desenvolvimento pessoal!
  • O quão importante é, para mim, ser “melhor” que meus amigos?
  • Qual o custo de “ser melhor” que meus amigos?
  • O que eu ganho estando na frente deles?

E várias outras questões foram se formando para fechar minha dúvida a respeito deste tópico. Conforme a questão ia se moldando, percebia eu que não somente competia com eles, mas comigo mesmo. Media taxas de desempenho e exigia números cada vez maiores.

  • Eu consigo me superar nesta área (jogo) com qual custo nas outras da vida?
  • Se eu sou tão bom em um jogo, será que consigo externar isso no mundo afora?
  • O que posso fazer para, em meu desejo de competição, estar com meus amigos enquanto nos divertimos juntos?

Sinais da Morte dos Falsos Deuses

Deusa Nui, do ArcheAge. Uma mártir.

Na cultura humana, parecem haver alguns passos padrões quanto a questões relacionadas à mudança de religião de populações. Há uma ruptura brusca — ou gradual — devido a algum novo fato e, logo em seguida, uma nova absorção das características da velha tradição unida com as características da nova tradição. O resultado é uma mesclagem entre os dois.

Mas há uma dor no processo. Imagina que você viveu sua vida inteira para atingir as crenças que tem atualmente e, de repente, algo parece virar uma chave em apenas 3 segundos e booom, de repente você agora é um super ser poderoso que perdeu o que acreditava, seu chão se despedaçou na sua frente e você começa a cair num abismo sem fim.

Enquanto cai no abismo, no poço de ilusões,

é magnífico saber que a queda te deixa ainda mais próximo do nível superior. Conforme você vai caindo no abismo, acaba se agarrando em uma e várias novas crenças que vão se formando enquanto seus dedos arranham as paredes, sangrando, e suas unhas são, lenta e dolorosamente, destruídas e arrancadas junto com o que restava de quem você era naquele momento que primeiro caiu no poço em que neste momento você se encontra.

Enquanto a dor se instala e você, no poço de ilusões continua caindo e arranhando o tecido da pele de teu corpo, o chão se aproxima…
…e você descobre que não estava caindo…

é como se houvesse um fluxo de ar fortíssimo te empurrando para fora do poço que você estava, de baixo para cima! Você, após tanto lutar, sangrar, chorar e resistir para continuar onde estava e planejar novas rotas de cavar cada vez mais fundo e com mais produtividade, você descobre que estava sendo empurrado para fora do poço. Descobre, num piscar de olhos, que tua verdade é apenas uma grande mentira.

Fora do poço, por força de expulsão, lá você se encontra em completo atordoamento enquanto observa o nascer do sol.

Não faz muito sentido.
Não é para fazer.

Apenas sinta, observe e ouça sua intuição. O que há em você que antes não havia? Que deuses hoje morreram que antes vivos estavam? A que lugar deram os mortos deuses aos vivos recém criados? Qual o futuro dos rascunhados deuses novos?

Quando você mata seus falsos deuses,

você não sabe explicar, você apenas sabe que você estava no caminho certo e que, sabe-se lá como, um novo certo caminho surgiu no caminho que você seguia e, de repente, a estrada de ladrilhos amarelos torna-se áspera e cheia de pedras que não te trarão valor algum em lançar para longe de tua visão.

Sabe, no ArcheAge primeiro você aprende a andar e, quando acredita fielmente que realmente sabe andar, você aprende a correr e, por fim, a competir. Em pouco tempo, você começa a atacar e destruir diversas criaturas monstruosas que te interrompem de atingir teu objetivo. Em alguns momentos, você descobre que estava atacando as criaturas erradas, que estava caçando tua prisão ao invés da libertação e, num rápido e preciso girar de sua espada, corta, poda e mata seus velhos deuses.

Sem destino,
é hora de reconstruir-se.
Construir novos falsos deuses.
Novos deuses eternos. Crenças fixas.
O caminho dentro do caminho.