Atuando na co-construção do mundo que queremos

Embora muitas vezes pareçamos “cansados de saber”, enquanto grupo parece que insistimos em não acreditar que vivemos um momento crítico para a humanidade e para o planeta. Ou ao menos, reagimos e atuamos como se o que estivesse ocorrendo ao nosso redor fosse alheio a nós, e não nos sentimos corresponsáveis por sua transformação.

Em 2012, um estudo bastante claro e impactante foi publicado na revista Nature* (um dos mais relevantes canais de informação científica) mostrando como nós, como humanidade, estamos impactando negativamente o planeta. Um cenário que nos conduziria para um futuro, nada distante, de real escassez de recursos, climas cada vez mais extremos, conflitos e muita violência. Segundo Barnosky, um dos coordenadores do estudo, temos apenas uns VINTE ANOS para reorientar as coisas e mudar esta direção, se quisermos caminhar opostamente na construção de um mundo sustentável.

Felizmente, este despertar e principalmente atuar já estão acontecendo em diferentes partes do planeta. Cada vez mais pessoas estão assumindo sua responsabilidade pela cocriação de um novo mundo, e diferentes ideias e iniciativas apontam como soluções criativas e inspiradores neste sentido. O consumo, as finanças, a produção, a educação e também a governança estão sendo reformuladas e reestruturadas sob um novo paradigma.

Estamos migrando do paradigma da escassez em direção a um paradigma de abundância. Segundo o paradigma da escassez, os recursos são limitados e portanto, temendo que faltem, os acumulamos; consequentemente os retiramos de circulação no sistema, o que de fato resulta na escassez. No paradigma da abundância, todos os recursos estão disponíveis no sistema, e eu só preciso ter acesso à eles quando necessário. É uma transição da competição para a colaboração, da desconfiança para a confiança. São os fundamentos básicos da chamada Nova Economia.

Neste Universo, termos como: Trabalho com Propósito, Economia Colaborativa, Sustentabilidade, Inovação, Criatividade, Aprendizagem Livre, Alimentação Orgânica vêm se tornando cada vez mais familiares e fazem sentido para um número cada vez maior de pessoas. Por outro lado, embora muitos sintam-se incomodados, uns tantos não sabem o que fazer ou por onde começar a fazer parte deste movimento.

Foi com o intuito de inspirar mais pessoas a promover a construção de um novo mundo, que um grupo de jovens franceses produziu o documentário Demain (Amanhã), a partir da provocação suscitada pelo estudo publicado na Nature*. Através de uma viagem por diferentes lugares do mundo, eles registraram e contam algumas histórias inspiradoras e criativas de como podemos mudar nossa relação e assim promover mudança em diferentes temas, como agricultura, produção de energia, eliminação de resíduos, economia, finanças, construção de cidades inteligentes, democracia e educação.

“Consumir menos recursos, ser mais inteligente e autônomo” estão no centro da solução a longo prazo, além de colaborar é claro. A sustentabilidade nos indica que devemos ser capazes de produzir nosso próprio alimento, nossa própria energia e produzir localmente a maior parte das coisas que precisamos, incluindo nossas moedas. Pode parecer paradoxal, mas nossa sobrevivência global exige o fortalecimento das economias locais e das comunidades.

Não é uma questão de ser ativista ou ambientalista, como ressalta uma das idealizadoras do documentário. É uma questão de SER HUMANO e ter EMPATIA, sobretudo pelas próximas gerações. Embora este seja um grande desafio para nós, como sociedade fundamentada no imediatismo, precisamos refletir e decidir a postura que queremos assumir. Sem dúvida, o exercício de nos colocarmos no lugar das gerações futuras e pensarmos como elas tem um grande potencial de nos despertar para a ação e nos fazer implicar em iniciativas e projetos que promovam mudança.

Há mais ou menos um ano, eu decidi finalmente alinhar minha carreira aos meus valores e aquilo que quero pro mundo. Decidi empreender a vida que quero viver, mudei meus hábitos de consumo, abandonei a educação formal (depois de fazer um pós-doutorado…) e estou estudando muito mais sobre as coisas que realmente quero aprender. Conheci a colaboração no sentido que trago no texto e posso vivenciá-la experimentalmente nas mais diversas parcerias e projetos.

Conheci (e sigo conhecendo) muitas pessoas e histórias inspiradoras, conversei com elas e escutei verdadeiramente o que tinham a dizer. Aprendi muito com estas conversas e sou imensamente grata por haver sido também escutada. Algumas delas me sugeriram buscar o coaching e a comunicação não violenta como temas que tinham “tudo a ver comigo” e com os quais eu “certamente iria me identificar”…. Elas foram coerentes à sua sensibilidade, enquanto eu à minha transparência, já que me tornei aprendiz ativa e dedicada (o que inclui teoria e prática) de ambas metodologias.

Assim assumi minha “vocação” para as relações humanas e para escutar e apoiar outras pessoas em meio a toda complexidade que o mundo atual nos exige. Reorientei a minha habilidade para escrever projetos e textos científicos em uma paixão por escrever sobre tudo o que me inspira, incluindo pessoas, histórias e claro, ideias. Decidi e estou amando participar ativamente desta transição, co-construindo o mundo que quero pro futuro. E você, que decisão vai tomar antes que seja tarde?

*Approaching a state shift in Earth’s biosphere. Barnosky et al. Nature. 2012 Jun 6;486(7401):52–8.