O que é e como funciona essa tal de corresponsabilização financeira

Resumão: você se torna corresponsável pelo que compra na medida do que é justo e possível para você.

Eu ainda estava na faculdade quando uma cronista que eu admirava muito escreveu sobre sua indignação ao lhe perguntarem seu salário. “Isso não se pergunta”, foi o mais próximo de argumento que ela ofereceu. Na época, fiquei sem entender os motivos para além de “é o básico da etiqueta” e deixei por isso mesmo.

Neste texto, quero apresentar o que é e como funciona o sistema de corresponsabilização financeira, em que as pessoas fazem uma escolha informada em relação a quanto pagar pelos serviços que estão comprando. Para fazer isso, começo refletindo sobre nossa relação com a grana.

Dinheiro é diferente de valor

Lembro que alguns processos seletivos para emprego dos quais participei guardavam a informação do salário como uma espécie de prêmio para aqueles que passassem das primeiras fases da disputa. A serviço de que está o mistério com relação aos ganhos mensais de cada pessoa? O que está sendo protegido quando essa informação é escondida?

O entendimento padrão parece ser o de que o dinheiro que pago por um serviço ou produto está diretamente relacionado àquilo que ele vale em termos de experiência. Se pago mais caro, é melhor. Se pago mais barato, é pior.

Desde que passei a empreender, descobri que preço é uma escolha arbitrária. Já cobrei R$ 80 ou R$ 300 pelo mesmo serviço e pessoas pagaram. Uma vez superados os custos, a única variável para indicar a escolha do preço foi o quanto eu gostaria de receber pelo que estava oferecendo.

No Círculo do Ninho de Escritores, atualmente cobro R$ 80 por mês. Decidi este preço quando pagava R$ 800 de aluguel de espaço mensal. Atualmente migramos para um espaço que nos cobra R$ 210 pelas mesmas 12 horas por mês, mas mantive o preço. Como aluguel é meu único custo fixo, o restante passou a ser remuneração pra mim. Quanto eu ganho pelo serviço que ofereço, neste caso, depende basicamente de quantas pessoas acessam o Círculo e para quantas eu ofereço gratuidade.

Tenho em média cinco pagantes por mês. O Círculo é um grupo pequeno. Outros cursos de escritores cobram em média R$ 500 mensais e têm turmas maiores, mas também arcam com outros custos, como aluguel de prédios e funcionários.

Não dá pra saber o que realmente significa o dinheiro que está sendo investido em um ou outro serviço porque não há transparência sobre o que acontece com ele.

Se um restaurante me cobra R$ 40 e outro a cinquenta metros me cobra R$ 11 pelo mesmo prato, como saber do que este dinheiro está cuidando? O prato que eu consumir no restaurante de R$ 40 será necessariamente melhor, mais saboroso e servido com mais atenção do que aquele de R$ 11? Minha experiência pessoal sugere que não.

Como empreendedor, tenho o poder de definir o preço do meu serviço. Algumas pessoas poderão pagar por ele, outras não, e a vida segue. Afinal, preço é uma estratégia para atrair determinados clientes. Mas e se, em vez de definir unilateralmente quanto deve ser pago um por serviço, essa decisão viesse de um diálogo informado?

Entra a corresponsabilização financeira

Vou utilizar o exemplo da Oficina de Carinho (que acontecerá em São Paulo neste domingo, 18 de novembro) para falar sobre corresponsabilização financeira.

Os custos de produção da Oficina, por enquanto, são dois: o aluguel do espaço (R$ 352 por quatro horas) e o tempo das quatro pessoas responsáveis pela facilitação.

Em uma Oficina tradicional, poderíamos fazer um cálculo simples considerando o número de pessoas esperadas (estamos contando com pelo menos 10 e um máximo de 30), somar o aluguel do espaço com quanto gostaríamos de receber (digamos de R$ 50 por hora, um número decidido às cegas e que já é o dobro do que eu ganhava como professor mestre na faculdade em que lecionei em Goiânia; isso totaliza 16 horas de trabalho, R$ 800). Precisaríamos também decidir se o tempo dedicado ao planejamento (já foram pelo menos 10 horas em reuniões) e à divulgação (não sei nem como mensurar isso) será considerado no preço final. Digamos que não, para facilitar o cálculo. Como nosso custo previsto foi de R$ 1152 e o número mínimo de participantes de decidimos são 10, cobraríamos pelo menos R$ 115,20 por pessoa. Se vierem mais de 10 pessoas, estamos no lucro. Ou, caso queiramos tornar a Oficina mais acessível, podemos aumentar o nosso “risco” e subir para 15 o número mínimo de participantes que cobrirão o custo. Neste caso, a Oficina custaria R$ 76,80 por pessoa.

Veja quantos cálculos e suposições estão envolvidos em um serviço simples como a Oficina de Carinho. Essa conta fica mais complexa quando falamos de um café, por exemplo.

Curto Café, no Rio de Janeiro.

A equipe da Oficina de Carinho decidiu usar a corresponsabilização financeira como forma de colocar em discussão a nossa relação com o dinheiro e a maneira como cuidamos dos sistemas com os quais interagimos. Em vez de definir uma quantidade de dinheiro que cada um deseja receber, optamos por deixar essa escolha na mão dos participantes dentro do que considerarem justo e possível.

Todos os participantes da Oficina de Carinho serão informados sobre o custo básico (que já foi pago pela equipe): R$ 352. Esse número não inclui qualquer remuneração para os facilitadores.

Basta, portanto, dividir esse preço pelo número de participantes, certo? Errado. O princípio por trás da corresponsabilização financeira é trabalhar com o que é justo e possível para cada um. Dez pessoas em uma Oficina terão diferentes poderes de pagamento a depender do momento de vida em que estão, dos privilégios que gozaram em suas trajetórias etc. Para uma pessoa, pode ser muito confortável contribuir com R$ 200, enquanto outra talvez não seja capaz de oferecer mais do que R$ 20. Ou sequer R$ 20.

Assumir a lógica da corresponsabilização financeira é dizer: todos nós optamos por viver essa experiência e somos corresponsáveis por ela. Nós, que facilitamos, estamos colocando energia, conhecimento e dinheiro prévio para que a Oficina ocorra. Os participantes, por sua vez, também trazem energia, conhecimento e dinheiro.

Ah, então é só dividir R$ 352 pelo número de participantes! Se forem 10 pessoas, fica R$ 35 pra cada um e está tudo certo? Talvez. Todo mundo tem o mesmo poder aquisitivo e está confortável em pagar o mesmo preço pela experiência que será vivida? Seguindo esse princípio, se tenho apenas R$ 10, é melhor eu nem ir, certo? De novo, errado.

O sistema de corresponsabilização financeira permite acolher e incluir aquelas pessoas que não podem pagar tanto quanto outras. É possível participar da Oficina de Carinho sem contribuir financeiramente, o que está longe de significar que ela é de graça. Se você pretende participar e não tem dinheiro para contribuir, como poderia se envolver e o que poderia oferecer para que a Oficina aconteça de forma saudável para todos?

Se você é bem remunerado na vida e pode investir mais para que propostas incríveis como a Oficina de Carinho possam continuar existindo e prosperando, a corresponsabilização financeira abre essa porta.

Se uma pessoa tem dinheiro que poderia investir na Oficina, mas opta por não o fazer — agindo de forma esperta — , o que realmente está acontecendo? Uma pessoa estará se beneficiando às custas de outras. É nesse sistema que queremos viver?

Ah, então é melhor se prevenir e determinar logo um preço! Será? Será mesmo que preciso decidir quem poderá ou não participar da Oficina a partir do acesso econômico só para evitar a chance de alguém “se aproveitar” do sistema de corresponsabilização financeira? Chame-me de idealista, mas prefiro abrir um diálogo transparente e lidar com as possíveis consequências.

Eu gostaria muito de receber pelo serviço que estou oferecendo na Oficina de Carinho. Ela tem me custado um bom investimento de energia, de pesquisa, de preparação, de articulação etc. Tenho certeza que as três facilitadoras que me acompanharão, também.

Um jeito de facilitar que isso aconteça é ajudar a ter mais pessoas participando da Oficina. Desta forma, mais gente será corresponsável por garantir a saúde financeira do projeto e das pessoas envolvidas. Desta forma, também mais gente poderá participar oferecendo contribuições menores — e estará tudo bem, porque dentro do justo e possível.

Quando me torno corresponsável por algo, mudo minha relação de “quero ser servido” para “estou construindo junto uma experiência”.

Se você tem dinheiro para contribuir, venha.

Se você não tem dinheiro para contribuir, venha também.

Em ambos os casos, você será corresponsável pelo sucesso da Oficina de Carinho: com o dinheiro, a energia, a divulgação, com tudo o que oferecer para que ela seja bem-sucedida. E desde já estará praticando uma forma de cuidado e carinho que vai muito além de elogios e abraços.