O que é fundamental para que possamos colaborar?

Desde que comecei a me envolver no mundo da colaboração (leia-se Economia Colaborativa, relações de horizontalidade, etc.) ouço que o mais importante de todo este movimento são as PESSOAS. Tudo está baseado na confiança que (re)estabelecemos entre nós e na maneira que escolhemos para nos relacionar e interagir com as outras pessoas, passando pelo ideal de construção de comunidade(s). Tá… mas, o que é mesmo que estamos fazendo para estabelecer esta tal confiança, tão fundamental para que a colaboração seja efetiva?

No primeiro encontro sobre colaboração que participei, tive a oportunidade de registrar uma mesa redonda sobre participação cidadã em projetos colaborativos. Enquanto representantes de projetos de intervenção nas cidades “lamentavam” a falta de participação e engajamento dos cidadãos; empresas se “queixavam” da falta de envolvimento e assunção de responsabilidade por parte dos seus funcionários. Em comum, cidadãos e funcionários pareciam não acreditar (não confiar) que sua voz finalmente seria escutada, e que a partir daquele momento, haveria horizontalidade nas relações, mesmo embora, isso estivesse sendo “garantido” pelo “poder estrutural” vigente. E aí eu te pergunto: isto seria suficiente para VOCÊ confiar que de repente, tudo havia mudado? Discussões e algumas opiniões depois, escutei uma fala (vinda da platéia) que ressoou profundamente com o que desde então eu já acreditava muito:

“Acredito que todo este entrave passa por uma questão de confiança, uma confiança real de que minha voz será de fato escutada, de que o que eu penso ou opino será valorizado, julgado importante, considerado. Aprendemos desde pequenos que nossas opiniões pessoais não tem muito valor. A hierarquia nos oprime, nos diz sempre o que fazer e como. Escutar o contrário de alguém, de repente, não é suficiente. É preciso desenvolver a auto-confiança dos funcionários e cidadãos em questão e a confiança nas relações. É o único caminho para que eles sintam que de verdade são parte do processo, serem escutados e respeitados.”

Não houve nenhuma consideração dos palestrantes após esta fala. A preocupação com o tempo era claramente a prioridade, mesmo em um espaço onde teoricamente as pessoas e a co-participação eram o mais importante. Eu, ainda bem, tive a oportunidade de conversar mais com o Marcelo, a pessoa cuja fala ressoava em mim. Neste mesmo encontro, fiquei pensando muito sobre as atividades propostas para as PESSOAS. Muitas palestras, mesas-redondas, falas interessantes… Mas, e convites para a conexão? Chegamos sem nos conhecer, e se não fosse da vontade e atitude pessoal de cada um, poderíamos haver saído exatamente da mesma maneira: sozinhos (hum…em um evento de colaboração?!).

Bom, você pode estar pensando que estas coisas são assim mesmo, mas eu sinceramente não concordo. Ao longo da minha recente trajetória na colaboração, tenho escutado e vivenciado experiências que tornam cada vez mais viva a seguinte preocupação: Estamos realmente estabelecendo relações de confiança e nos fundamentando nela para colaborar? Ou estamos apenas usando estratégias que “simulam” confiança na ânsia de tornar real um sistema que almejamos, mas na verdade nos faltam ferramentas (o que talvez esteja esbarrando na nossa pressa ou preguiça) para estabelecer tal confiança?

Então, vem a seguinte reflexão:

Se entendemos que a confiança é fundamental para a colaboração, o que é fundamental para o estabelecimento da confiança?

  • Ter ideias e valores em comum? Trabalhar em um projeto no qual eu e você acreditemos? Um certo grau comum de comprometimento? Serão estas coisas suficientes: foco no projeto, na própria colaboração?
  • Ou o foco deve estar na construção dos relacionamentos entre aqueles que colaboram? No estabelecimento de uma conexão verdadeira, suficiente para sustentar os “percalços” e conflitos inerentes (também) ao processo de colaboração?

Querer colaborar, estar alinhado em um projeto com outra(s) pessoa(s), o impacto deste projeto, o financiamento, o propósito (a que serve), a finalidade… nada disso é garantia de continuidade ou sucesso para um projeto fundamentado na colaboração. Porque estamos de acordo que a colaboração depende de confiança, e a confiança não é construída por nenhum destes processos. O que é então necessário para a construção e evolução da confiança?

Sem dúvidas, dedicar-se a construção dos relacionamentos!

E dentro desta lógica, duas coisas são imprescindíveis:

  • Atuar de acordo com uma lógica ganha-ganha, onde ambas as pessoas envolvidas se beneficiam da relação e dos acordos;
  • Estabelecer uma comunicação clara. Quando a comunicação é ruim, a confiança acaba.

Embora seja possível (e muito bem) testar estes preceitos na prática da colaboração, a teoria dos jogos é também muito útil para nos ajudar a entender porque a construção dos relacionamentos é fundamental para a evolução da confiança. Portanto, deixo aqui um link muito bacana, onde você pode experimentar o que estou falando, através de um jogo muito interessante, além de divertido, desenvolvido pelo Nick Case.

E para concluir, me vem outra reflexão: Se o mais importante no movimento de colaboração são as PESSOAS, não parece óbvio que o fundamental para que possamos colaborar seja a construção dos relacionamentos entre nós?(!)

É por acredito fortemente em tudo isso que há algum tempo, meu foco é estudar, desenvolver processos e facilitar meios (estratégias) em busca de mais conexão! ❤

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