Para criar uma verdadeira economia do compartilhamento pense em replicar, não apenas escalar.

Imagem por Trikle Trade via Flickr.

Por Neal Gorenflo

Quando comecei a escrever sobre a economia de compartilhamento em 2009, a eclética variedade de startups que lançavam-se para resolver problemas comunitários em San Francisco, Califórnia, eram uma pequena parcela de uma enorme quantidade de inovações em compartilhamento, que constituíam o que a Shareable viu como uma transformação decisiva no modo como as pessoas criam valor. Isso inclui software livre e todos os movimentos inspirados em fontes abertas, Creative Commons, o ressurgimento de uma economia baseada na solidariedade, o aumento do compartilhamento de carros, bicicletas, o trabalho coletivo, a coesão, o governo aberto, o orçamento participativo, o crowdsourcing, o crowdfunding, Hackerspaces, e muito mais. Estávamos no meio de uma transformação baseada no compartilhamento.

Tão breve, no entanto, o dinheiro começou a ser derramado em um punhado dessas startups, mais notavelmente na Airbnb, Lyft e Uber. Rapidamente a mídia mudou sua atenção para elas, que consequentemente tornaram-se o sinônimo da economia compartilhada. À medida que o dinheiro entrou, o elemento comunitário ficou pelo caminho. A exploração do modelo peer-to-peer, a quebra intencional da regulação, a forte intimidação aos governos locais e táticas competitivas antiéticas tornaram-se a norma. O caráter principal dessas startups, a maneira como reformularam as relações entre pessoas desconhecidas em termos radicalmente construtivos através da confiança, foi sacrificado pelo crescimento. Contraditoriamente, acabaram tornando-se uma extensão particularmente agressiva dos modelos de negócios tradicionais.

Apesar disso, a verdadeira economia compartilhada não desapareceu. Nós, da Shareable, ajudamos a catalisar dois movimentos relacionados para ajudar a criar recursos para uma verdadeira economia de compartilhamento. Em 2011, hospedamos o Share San Francisco, primeiro evento com o objetivo de remodelar as cidades através das plataformas de compartilhamento. A cidade de São Francisco incorporou nosso pensamento no Grupo de Trabalho de Economia Compartilhada, que então inspirou um ex-ativista de justiça social e advogado de direitos humanos, Park Won-soon, atual prefeito de Seul, Coréia do Sul, a lançar o Sharing Cities Seoul em 2012. Um abrangente pacote de programas e regulamentos local, na qual cidadãos, o governo e o mercado trabalham juntos para promover o compartilhamento dos bens comuns.

Sharing City Seoul.

Muitas cidades seguiram o exemplo, incluindo Amsterdã, Londres, Milão, Lisboa, Varsóvia, cinco cidades no Japão e outras seis cidades na Coréia do Sul. No ano passado, o prefeito Park ganhou o Prêmio Gotemburgo de Desenvolvimento Sustentável pelo seu trabalho com sharing cities.

No final de 2014, publicamos uma reportagem de Nathan Schneider, “Owning is the New Sharing”, que informou sobre uma tendência emergente — startups de tecnologia que se organizam como cooperativas. Na mesma época, com a realização de uma conferência sobre cooperatismo de plataforma, ficou provado o estímulo para este novo movimento.

Um dos principais exemplos é a Stocksy United, um crescente marketplace que comercializa fotografias e vídeos onde os fotógrafos e produtores de vídeos controlam e são donos do negócio. Em outras palavras, Stocksy é uma cooperativa do século XXI.

Outro exemplo é o Fairmondo, um site alemão similar ao eBay — que vende produtos éticos (comércio justo) — cuja propriedade e controle pertencem aos vendedores. Eles estão em expansão através do recrutamento de cooperativas em outros países, para a organização de uma federação de cooperativas que, em conjunto, manterão o controle local do mercado de cada país, através de uma única plataforma tecnológica. O Fairmondo ilustra uma estratégia de impacto que os filantropos ignoram, porque muitas vezes eles estão tão obcecados com a produtividade em escala quanto qualquer capitalista de risco do Vale do Silício e não enxergam a virtude e o impacto gerado por meio da replicação.

Fairmondo.de

Neste sentido, os filantropos de hoje devem seguir o exemplo instrutivo de Edward Filene. Ele desempenhou um papel de liderança no desenvolvimento de uma instituição que permitiu que as pessoas comuns construíssem sua própria riqueza, as cooperativas de crédito, um modelo de alto impacto que poderia ser e foi replicado. Os filantropos devem usar seus recursos para ajudar a fazer o mesmo em toda uma série de novas instituições, incluindo programas e regulamentações no compartilhamento de cidades, cooperativas de plataformas e muito mais. Práticas como estas ajudarão as pessoas comuns a construir e acessar riqueza, reduzir o consumo de recursos e reescalar o tecido social. Isto, agora, é o que eu chamaria de economia de compartilhamento real.

Publicado por Shareable, escrito por Neal Gorenflo.

Tradução Livre: Juliana Loyola