Como criar o seu caminho ao abrir caminho para os outros

Ou porque o ego compromete seu desenvolvimento

Em Roma, era comum políticos e pessoas ricas se tornarem patronos de artistas.

Além de serem pagos para exercer aquilo que faziam de melhor, os artistas também tinham que realizar outras tarefas para seus mestres como entregar recados ou guiar os veículos dos patronos. Eles ocupavam o cargo de anteambulo.

Anteambulo significa "aquele que abre o caminho". Pode-se dizer que eles facilitavam a vida daqueles que os contratavam.

Marcial era um escritor e anteambulo para Aneu Mela, rico comerciante e irmão do filósofo Lúcio Sêneca. E como a maioria de nós, Marcial odiava o que fazia.

O viés da atribuição de valor

Marcial acreditava que era qualificado demais para as atividades que os patronos exigiam. Achava que a classe alta de Roma não tinha respeito pelo gênio que ele era e não estava sendo aproveitado como deveria — não estava vivendo o que achava que deveria viver. Como consequência, se afogou em ressentimento e amargura.

Você já se negou a fazer algo porque achava que aquilo estava abaixo do seu valor?

Um pedido de um colega ou familiar, uma atividade na faculdade, uma entrevista para um estágio que parecia a pior coisa do mundo, um projeto tão ridículo que não fazia sentido você desperdiçar tempo com ele.

Certas coisas não devem ser feitas porque são um atentado contra nosso bem-estar ou nossos valores, mas muitas outras nós evitamos porque achamos que estamos acima daquela situação.

Quando ego fala mais alto, você merece um tapa na cara para deixar de ser idiota e sair desse pódio em que você se colocou.

Você não é tão importante nem tão esperto(a) quanto acha que é.

A maior parte do que você aprendeu na faculdade não vai lhe servir no mundo real, logo, você sabe pouca coisa útil.

Quando você nega algo porque acha que está acima, você está apenas se supervalorizando e perdendo oportunidades de aprendizado.

Obedecer a alguém não é indigno — é o caminho mais rápido para aprender.

Benjamin Franklin e Leonardo Da Vinci se tornaram conhecidos ao longo dos séculos porque sabiam que ter um mestre é o caminho mais rápido para ser um mestre.

Muito provavelmente a maioria de nós não tem a menor ideia do que está fazendo. Uma forma de reverter a situação é: ajude aqueles que sabem o que fazem e aprenda ao longo do percurso.

Removendo o ego da equação

Ao começar a trabalhar em alguma empresa como estagiários(as) ou em posições júnior, nem sempre vamos fazer o que deveríamos estar fazendo. Uma das razões é o fato de pouca coisa que aprendemos na faculdade ser útil no mundo real — a prática é muito diferente da teoria.

Eu tinha que resolver problemas pequenos que os desenvolvedores não queriam resolver. Eu tinha que fazer as atividades menores porque todo o resto da equipe se achava superior demais para isso. Eu me virei nos 30 para aprender as coisas porque ninguém queria perder tempo ensinando a estagiária nova. Damn it, eu fazia o café para toda a empresa! Como resultado, eu aprendi muito mais do que esperava.

Quando saí da empresa, ninguém mais era capaz de oferecer suporte ao sistema porque eu era a única pessoa que realmente sabia como ele funcionava. Mesmo depois de ter deixado o estágio, eu recebia emails dos funcionários perguntando como algo funcionava. E o pessoal entrou em desespero porque não tinha mais alguém que fizesse o café no período da tarde — eu me tornei indispensável sem perceber.

Faça aquilo que lhe pedem, mesmo achando que é inferior a você. Você vai:

  • Descobrir que as coisas não são tão ruins quanto parecem.
  • Descobrir o que você sabe e o que achava que sabia.
  • Aprender novas habilidades.
  • Facilitar a vida das pessoas e, consequentemente, a sua.
  • Tem a opção de tirar uma folga de 15 minutos pra fazer o café do pessoal, senão a empresa não funciona.

Marcial tinha a possibilidade de percorrer Roma livremente e conviver com uma cultura que lhe era estranha, o que lhe fornecia material constante para sua escrita. Mas ele preferiu ser consumido pela amargura ao invés de enxergar as oportunidades que seus patronos lhe ofereciam e aproveitá-las.

Quando você põe o ego na sua frente, você bloqueia seu aprendizado. É o que a maioria das pessoas faz. Mas ao tirar o ego da equação, você abre sua mente para aprendizados que os outros são incapazes de perceber.

Fazendo algo por alguém — e não por si mesmo(a)

Obviamente, não estou dizendo para você ser um(a) puxa-saco, trouxa-faz-tudo ou o(a) idiota servil. O que você precisa fazer é aprender a enxergar as oportunidades de fazer algo por alguém, além de você mesmo(a).

Quando foi a última vez que você fez algo por alguém sem esperar um retorno?

Ser um anteambulo é abrir o caminho para alguém que sabe o que precisa ser feito, é facilitar a jornada para que eles foquem no que sabem fazer. No fim das contas, você não leva o crédito, mas recebe uma recompensa maior.

Benjamin Franklin foi aprendiz em uma gráfica e teve várias de suas cartas rejeitadas para publicação. Então, ele começou a escrevê-las usando um pseudônimo e as deixava na porta da gráfica. Elas foram publicadas na primeira página.

O dono da gráfica era seu irmão — e ele não tinha a menor ideia que Ben Franklin era a pessoa por trás da viúva Mrs. Silence Dogood. Nenhum crédito foi dado a Benjamin Franklin, o lucro gerado pelas vendas favorecia apenas o seu irmão.

Quando o irmão de Ben finalmente descobriu quem Dogood era, ele espancou Benjamin motivado por raiva e inveja. Apesar do resultado inesperado, Benjamin aprendeu como funcionava o mundo da publicação e treinou sua escrita, seu estilo e sua sagacidade.

Todo gênio teve algum início humilde. Até mesmo Leonardo Da Vinci começou pequeno — roubando folhas de papel do escritório do seu pai para poder desenhar — e depois foi ser aprendiz de Andrea Del Verrocchio.

Franklin e Da Vinci eram as pessoas menos importantes da sala, até que mudaram a situação.

Fale pouco, faça muito. Encontre o quadro para que os outros possam pintar nele.

Identifique os pontos de ineficiência e proponha uma solução à sua chefe.

Encontre pessoas que possam ser conexões valiosas e apresente-as a alguém que pode se beneficiar.

Encontre novas linhas de pensamento e sugira a alguém que as explore.

Encontre oportunidades e entregue-as para que alguém possa aproveitá-las.

Faça o que ninguém mais quer fazer.

Faça algo por alguém, os resultados em longo prazo valem mais do que uma recompensa no momento.

Deixe os outros levarem o crédito porque esse não é o seu objetivo — seu objetivo é aprender tudo aquilo que você puder e mais um pouco.

Ajude alguém a criar a estrada de tijolos amarelos. No final, você vai saber exatamente o que tem em cada direção, como é o caminho e como construir sua própria estrada.

Conclusão

Ao abrir o caminho através de uma floresta, ele se torna acessível para todos. Inicialmente, pode ser difícil cortar os galhos e plantas, mas uma vez terminado o caminho, você sabe até onde ele vai. Você pode fazer uso dele sucessivas vezes e sabe o que precisa fazer para criar um caminho similar em outro momento.

Pessoas perdem oportunidades e não veem aquilo que deveriam ver porque o ego — "eu sou melhor do que isso" — as deixa cegas. Você precisa deixar seu ego de lado e ser o anteambulo, aquele(a) que abre o caminho.

Aquele(a) que abre o caminho é quem controla a sua direção — você está à frente de todo o resto.


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