O que NÃO fazer para tomar decisões melhores

Um economista foi a uma feira automobilística e ficou bem impressionado com o que viu.

Ao voltar para casa, ele decidiu investir dezenas de milhões de dólares na Ford Motor Company. Parecia uma excelente decisão.

Quando questionado sobre o motivo para investir, ele respondeu: "Rapaz, eles sabem mesmo como construir um carro!" Wait, what?

Podemos concordar que essa explicação não é lógica. Ou que o economista sofreu uma lavagem cerebral durante a feira.

Em momento algum ele ponderou sobre as questões que deveriam ter passado pela sua mente acostumada a números.

As ações estão com preço bom? A empresa tem perspectiva de crescimento? Ela tem fundamento? Coisas óbvias que uma pessoa que vive imersa no mercado financeiro deveria se perguntar. Se ponderou, elas não foram o fator decisivo. Ele confiou na própria intuição e no que viu.

E estava bem satisfeito com a decisão, mesmo tendo sido vítima da heurística intuitiva: quando confrontados(as) com uma questão difícil, respondemos a uma mais fácil no lugar. A resposta positiva para a pergunta mais simples é também aceita como válida para a mais complexa.

“Devo investir?” se transforma em “Eu gosto dos carros da Ford?”. Oh yes!

Eu e você conseguimos analisar objetivamente a situação e ver que a razão que ele apresentou nunca será o suficiente. Para investir com confiança, até mesmo Warren Buffet, o mago de Wall Street, precisaria de outras informações sobre a empresa além de ver uma exposição.

Mas… e se eu dissesse que você provavelmente agiria da mesma forma que o economista?

O paradoxo de Salomão

Duas mulheres e uma criança foram levadas à presença do rei Salomão. Ambas afirmavam que eram a mãe da criança, como saber qual clamava a verdade? O rei Salomão, com toda a sua sabedoria, pensou em uma forma de descobrir qual era a mãe verdadeira. Você conhece a história.

Esse não foi o único momento em que a sabedoria de Salomão foi requisitada. Pessoas de todos os locais viajavam em busca do seus conselhos, prontos para ouvir e seguir as palavras do sábio rei.

Mas, ironicamente, a vida de Salomão era uma cachoeira de más decisões. Incluindo uma que levou ao declínio do seu império.

Igor Grossmann, psicólogo e pesquisador da University of Waterloo, usa essa história para ilustrar o que ele chamou de Paradoxo de Salomão:

As pessoas raciocinam melhor sobre os problemas sociais dos outros do que sobre os próprios problemas, contudo não está claro o porquê, ou o que pode ser feito para estimular o raciocínio em termos pessoais.

Mas como Salomão é não uma boa explicação científica, Grossmann recrutou vários casais que estavam em um relacionamento de longo prazo para confirmar sua teoria.

Ele pediu a algumas pessoas para visualizar em todos os detalhes a seguinte situação: seu(sua) parceiro(a) lhe traiu.

A outras, ele pediu para que visualizassem que seu(sua) amigo(a) foi traído(a).

Então, ele fez uma bateria de perguntas que precisavam de pensamento pragmático sobre o relacionamento. Incluindo algumas como:

Você precisa de mais informações sobre a situação? 
Quantos futuros você pode imaginar dada a situação?
Você consegue entender a perspectiva da outra pessoa?

Grossmann queria confirmar se o Paradoxo de Salomão era um hábito. E foi exatamente a essa conclusão que ele chegou.

Existe uma assimetria no processo de raciocinar sabiamente — somos estúpidos quando nossas decisões são pessoais e sábios quando aconselhamos alguém.

Quando confrontado(a) com um problema, você raciocinará melhor e oferecerá conselhos mais lógicos se ele não existir na sua esfera pessoal.

A explicação é simples: o envolvimento do ego no processo de solucionar um problema ou tomar uma decisão cria limitações que impedem de pensar de forma coerente.

Você precisa reconhecer os próprios limites, não se deixar levar pelos estímulos emocionais, reconhecer a extensão da própria ignorância, identificar as expectativas envolvidas e visualizar todo o processo como um fluxo. Com o ego envolvido, nenhuma das tarefas anteriores é fácil.

Então, como raciocinar sabiamente em relação aos próprios problemas e decisões?

Removendo a assimetria do raciocínio sábio: aconselhe um amigo

Rebecca Rush é um outlier dentro do pequeno grupo de outliers. E também conhecida como Queen of Pain.

Rush pratica vários esportes incluindo um chamado orienteering — ela é jogada no meio do nada, normalmente no meio da noite, e precisa utilizar habilidades de navegação para chegar em um determinado ponto do mapa.

Em uma noite, Rebecca se encontrou tremendo de frio, utilizando todas as roupas que tinha levado na mochila, sem dormir há mais de 24 horas, o que prejudicou seu senso de orientação, sem conseguir comer porque vomitava absolutamente tudo que consumia e… completamente sozinha.

O lado emocional estava completamente sem controle, ela estava à beira do pânico. Mas Rush aprendeu a superar esses momentos ao criar um espaço entre os seus pensamentos e seus sentimentos. Nas palavras milenares de Epictetus:

Quando um servo de um homem quebra uma taça de vidro, estamos prontos para dizer: “Tais coisas podem acontecer.”
 Saiba então que quando sua própria taça de vidro é quebrada, você deve se comportar do mesmo modo que quando a do seu vizinho foi quebrada.

O que ela fez: fingiu que estava dando um conselho a um amigo sobre como sair vivo daquela situação.

Ela utilizou o auto-distanciamento para lidar com a assimetria do raciocínio.

Grossmann já mostrou que seu pensador pragmático interno só consegue pensar direito quando não está envolvido no problema. Em outra pesquisa, ele chegou à conclusão que, para resolver o problema, você precisa fazer exatamente o que Rebecca Rush faz em situações de desespero: finja que você está falando com alguém.

Quando um problema surge, existe uma necessidade de auto-preservação não apenas física, mas emocional. Tomamos a melhor decisão para evitar a dor, mas não necessariamente a melhor para maximizar os resultados.

Pense em Sansa Stark correndo com Theon Greyjoy pelas florestas de Winterfell. Ela não queria entrar na água gelada por causa do frio, apesar de ser a única opção para despistar os cachorros que os perseguiam. Ela preferia evitar a dor, mesmo que isso implicasse em ser capturada (e não precisamos entrar em detalhes sobre o que o Ramsay faria com ela).

Da próxima vez que você se deparar com um problema ou uma situação complicada, elimine o eu da equação. Separe seus pensamentos das suas emoções.

Imagine que a situação ou a decisão não estão acontecendo com você, mas com a sua amiga.

Ao invés de se perguntar "por que eu estou agindo assim?" se pergunte "por que ele/ela está agindo assim?", "o que ela/ele pode fazer para superar isso?", "como ele/ela pode melhorar a situação?".

Você será visitado(a) pela sabedoria do rei Salomão e vai se poupar de umas dores de cabeça.

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