Tungstênio — Marcello Quintanilha

Quando assisti Babel [Babel — 2006 — Alejandro González Iñárritu] pela primeira vez, lembro que fiquei dias digerindo a inter-relação dos personagens. Aquilo era realmente inteligente. As ligações entre os personagens e como cada núcleo tinha que se resolver independentemente para que o fim da história central se concluísse, pra mim, fora deslumbrante.

Lendo Tungstênio, de Marcello Quintanilha, essa referência ficou na minha cabeça, não que haja relação entre as histórias ou que haja de alguma maneira uma influência sobre o resultado desse romance gráfico. Talvez a forma de desenvolver o personagem de maneira não-linear tenha relação com o filme do diretor mexicano e isso tenha me levado a associar uma coisa com a outra. Mas é fato que eu fiquei digerindo essa obra durante um tempo, da mesma maneira como fiquei ao ver o filme.

Marcello Quintanilha, quadrinista carioca radicado em Barcelona, produziu uma icônica história em quadrinhos. Isso porque reuniu recursos como: o formato de narrativa que não segue a convencional linha do tempo; a linguagem imersiva; riqueza de detalhes em cada quadro e, como não poderia deixar de ser, uma história muito bem tramada.

Tungstênio começa com um velho sargento sentado à sombra de um árvore conversando com Caju, que parece conhecer o sargento de papos que não passam de amenidades e outros assuntos que não levam a nada. Richard, um policial local, toma sua cervejinha com os amigos em um quiosque na praia e Keira, sua esposa, volta de ônibus para sua casa. O sargento e Caju presenciam dois homens pescando com bombas no mar de Salvador, o que é ilegal, o sargento, então, intima a ajuda de Caju para denunciar os dois sacripantas. É bom eu parar por aqui, pois qualquer coisa que eu acrescentar a partir daqui pode lhes dar ideia da história e atrapalhar na sua percepção. Mas posso dizer que a história pode parecer apenas mais um dia de sol em São Salvador, com a vida seguindo seu rumo para cada um desses personagens.Só parece. Posso dizer, também, que a violência está presente. Permeando o pensamento dos personagens, suas atitudes e suas histórias de vida.

Ilustração de Marcello Quitanilha — Tungstênio — 2014

Em um primeiro momento é complicado ler Tungstênio, pelo simples fato da narrativa ser bastante desconexa, mas assim que você toma costume logo entende que a história até poderia ser contada de outra maneira, mas é certo que à moda de Quintanilha é muito mais interessante. As rupturas abruptas cadenciam o ritmo, provocando um suspense digno de thriller de ação hollywoodiano.

Outro aspecto a ser enaltecido é a imersão. É muito divertido perceber que logo no começo você já está lendo com sotaque baiano de forma natural. Sem a pieguice no exagero de clichês que tornariam a obra caricata e sem crédito. Ainda nesse tema, as repetições da fala, comuns no mundo real, são transportadas para o texto e isso dá mais veracidade à cena. Confesso que imaginei Caju sendo interpretado por Lázaro Ramos em uma possível adaptação para o cinema.

A única ponta que fica solta no fim da história é a sua relação com o nome, Tungstênio. Mas uma pesquisa pelo Google me fez perceber a relação. Tungstênio é o elemento químico mais denso que existe na natureza. Para mim, fica claro que uma história que começa despretensiosa e termina como termina não teria outra definição, a não ser densa.

Não é por acaso que Quintanilha está fazendo sucesso pelo mundo. Paul Gravett é um dos maiores estudiosos e entusiastas das bandas desenhadas e o reconhece como “um autor de graphic novels de primeira classe”, em sua entrevista para o site Vitralizado. O autor recebeu o prêmio HQMix como o melhor roteirista de 2014 pela obra em questão. Recentemente, Tungstênio foi indicado como finalista de melhor história em quadrinho policial no Festival Angoulême, umas das mais prestigiadas premiações do gênero.

PS.: Hoje, 30 de janeiro, comemora-se o Dia do Quadrinho Nacional. Esse dia foi escolhido porque em 30 de janeiro de 1869 foi publicado As Aventuras de Nhô Quim: Impressões de Uma Viagem à Corte. Considerada um dos primeiros romances gráficos do mundo e escrito pelo autor Ítalo-brasileiro Ângelo Agostini. Por esse motivo, hoje a resenha não poderia deixar de ser um quadrinho brasileiro. Viva o quadrinho nacional!

FICHA TÉCNICA

TUNGSTÊNIO
 Roteiro: Marcello Quintanilha
 Arte: Marcello Quintanilha
 Publicação: 2014
 Editora: Veneta
 Categoria: Novela Gráfica
 Gênero: Policial
 Páginas: 192
 Formato: 17 x 24cm
 Capa: Dura
 Cor: Preto e branco
 Preço Médio: R$ 54,90

ATUALIZADO (30/01/2016)

Marcello Quintanilha acaba de receber o prêmio Angoulême de melhor obra policial por Tungstênio. Parabéns ao Marcello e ao quadrinho brasileiro!


Originally published at tartarugacosmica.com.br on January 30, 2016.