E por alguém na peça me apaixonei

Nunca me senti tão profundamente apaixonado. Fazia muito tempo que o sentimento de arrebatamento, de beleza pura, de divindade, advindo da observação da mais linda aura de uma vida, me atingia com sua total intensidade. Como pode? Como pode Ela passar tão rapidamente pela minha vida e a única coisa que eu tenha dela ser lembranças, um punhado de memórias? Quão injusto eu estou nesse momento achando apenas ter isso de uma desconhecida tão perfeita e divina? O que fiz? O que devo? Que punição ou penitência ainda me resta???

Seu corpo tinha gosto de harmonia. Meus olhos se deleitavam na perfeita harmonia da morada daquela alma. Seu cabelo era curto até o início do pescoço, natural e encaracolado levemente, mostrando sua rebeldia frente aos dedos que o movia - que banal e encantador vício ela tinha com as pontas dos cabelos. Tal estava por cima do mais sublime dos rostos mais lindos de todos os rostos que já vi; olhos calmos, mas com uma opacidade que me parecia esconder coisas maravilhosas; óculos precisamente repousado sobre o mais impecável nariz já visto em minha curta vida; e a boca? Como não esquecer de seu magnífico sorriso? Como não esquecer da sua boca dando as nuances daquilo que sentia por dentro, sorrindo, se espantando e admirando? A pele, ah, a pele… tinha a textura da de um anjo. Perfeitamente magra ela era, sem absolutamente nem mais nem menos. E o melhor: não tinha volume nos seios. Quão divinamente angelical e perficiente é uma mulher sem volume nos seios? Quão excelente é ver a roupa deixar aquele espacinho onde o volume deveria preencher ou se ajustar? A roupa, aliás, era de gente que descobria as coisas da vida com gosto: um vestido da cor marrom claro; um casaquinho branco por cima do vestido, pois o vestido não tinha manga - e, obviamente, sem sutiã ela estava.

Ela foi uma das últimas a entrar. Recentíssimo era o começo da peça de teatro quando ela surgiu no meu horizonte, andando da direita pro centro em busca de um lugar. Sentou-se no chão, com as pernas confortavelmente cruzadas, deixando o peso de uma bolsinha sua cair ppr cima para não deixar qualquer brecha para o visualizar de sua calcinha. Levava consigo um guarda-chuva de porte médio, que pelo menos a coubesse bem numa situação em que o objeto, dentro de sua definição, pudesse cumprir sua finalidade. A peça foi continuando e, sério: juro que tentei prestar atenção nela… mas só conseguia ter olhos nessa mulher. Quanto mais a olhava, mais similar a uma deusa a achava. Seria ela o exemplo perfeito de mulherão da porra? Sim. Sim é com 100% de precisão. A peça às vezes fazia uso da variação de luz e isso a adornava incrivelmente. Assim como na fotografia de Cidadão Kane, a luz e a sombra desenhavam seu rosto como se fosse ela própria uma obra de arte: o amarelo e o vermelho abraçavam seus traços com igual força e perfeição a minha vontade de beijá-lá. Nos seus sorrisos, via que a vida ali realmente se justificava; nas suas expressões de conforto, com aquele sorriso monalinesco na face, entendia o anseio do ser humano para combater sua possível solidão e angústia frente a suas existências: valia a pena apenas pra ter a oportunidade de ver e viver aquilo.

Cedo ela foi. Com extremo pesar eu digo que ela imediatamente se foi após o término da peça. Nem tive tempo de contactá-la: seria sincero com ela, independente da sua reação. Afirmaria que sua beleza me encantava tanto, de maneira estupenda igual a mais foda das experiências estéticas, não conseguindo eu isso descrever por estar batendo nos limites da minha linguagem. Ela era literalmente de outro mundo, mística por natureza. Tentaria conversar qualquer coisa só pra que meu pedir de seu número ou perfil no Facebook não fosse tão estranho, arriscando instalar em sua mente uma imagem minha de maníaco. Mas eu nem conseguiria dar um 'oi' pra Ela: paralisaria, teria vergonha e medo, gaguejaria e sentiria minha altíssima autoestima ir pra baixa da égua!

"Vai lavar a casa da cachorra" - eu gritaria a mim mesmo pelo travão que inevitavelmente teria. Impotente ali estaria. Só me restou vê-la cedo imediatamente sair. Só me restou vê-la caminhar com pressa pela calçada, enquanto o vento, faceiro e dela mais íntimo do que eu queria agora imediatamente ser, transpassava suas roupas, como se mãos invisíveis passassem pela sua celeste cintura. O cabelo levemente pulava ao dar de frente com o vento, igual criança levantando um tantinho de si brincando de pula-corda. Só me restou dar uma última olhada, vendo-a bem longe, indo em direção a parada de ônibus, rápido andando assim como rápido passou em minha vida.