O dia em que conheci meu pai

*baseado num depoimento real

Quando eu o conheci eu tinha 11 anos. Ele tinha 21. Eu estava com umas amigas no parque, depois da aula, e ele veio e me deu uma flor. Ai a gente trocou ideia um tempão: eu com ele e um amigo dele com uma das minhas amigas. Nesse dia a gente só se beijou.

Se eu gostava dele? Bom, pra ficar 6 anos com uma pessoa a gente tem que gostar um mínimo, né? Haha. Eu era uma adolescente entediada, sozinha e ele foi a primeira pessoa que veio me dar uma ideia. Ai a gente ficou junto. Nessa época meu pai já tinha sido expulso de casa por alcoolismo e minha mãe… bom, melhor nem falar.

Eu morava com a minha vó. Ele morava com a mãe dele; hoje, dez anos depois ainda mora. Enquanto eu estava com ele rolavam muito dessas festinhas, tipo “Kids”, sabe? Eu nunca vi esse filme, mas sei que era tipo “Kids”. Ele e os amigos dele sempre enchendo a cara, passando mal e, tipo, cheirando wassabi de tão loucos. Tem vários vídeos disso no YouTube. Eu e umas outras minas também ficávamos loucas, sempre de bebida destilada. Cada hora era na casa de um, mas principalmente na casa da mãe dele; ela até começou a gostar de mim porque eu levava ele sempre pra casa, quando ele ficava bêbado.

Como eu falei, eu era uma adolescente entediada. Muitas vezes essas festas eram um saco, não só porque todo mundo ficava muito louco, mas também tinha a música: eles tocavam muito rock antigo, mas o que mais me incomodava era o David Bowie.

Eu pensava, meu, quem é esse velho bicha com essas roupas cafonas, tocando essas músicas… nossa, eu achava muito música de gente velha, nada a ver com o que eu gostava de ouvir nessa época, tipo Paramore, My Chemical Romance…
 
*

Um dia eu estava numa dessas festas e achando tudo um saco. Eu devia ter uns 13 anos. Não aguentava mais aquele clima, aquelas velhas brincadeiras sem graça, aquele povo. Então eu sai de perto da galera e sentei sozinha na frente da televisão. Estava passando o DVD do show dele, o de 1974. Tava com legendas, então eu consegui entender tudo, senão entenderia uma parte só. Foi ai que aconteceu.

Ele falava de mim. De um sentimento de solidão, de confusão. Os fãs pegando na mão dele, aquele bando de adolescente vendo ele no show! E ele dizendo O Amor Não Está Sozinho — “On no love! You’re Not Alone”! Nooossa, aquilo bateu na minha cabeça que nem um martelo!
 David Bowie foi meu pai. Minha mãe, meu irmão… meu marido. Ele sempre falava de gente que tava entediada, sozinha, enchendo a cara. Aquele sentimento que eu tinha, de estar morrendo, mas querendo aprender alguma coisa, quem eu era, sei lá.

Depois daquele dia eu fui atrás e descobri que ele influenciou o mundo inteiro! A música dele nunca me abandonou. O ser humano é assim, sempre tenta conhecer alguém, mas as pessoas sempre vão falhar; já as músicas, elas não falham.

No aniversário de 60 anos dele ele soltou o “The Next Day” — muita gente criticou, mas ele tava diferente! Ele absorvia as cosias ao redor dele, que nem eu! Já fui emo, otaku, gótica… Depois veio o “Blackstar”. E tem um clipe, o “Lazarus”… é diferente… é como se a vida tivesse se esvaindo… na hora eu já saquei. Eu já sabia que ele tinha câncer e ele tava lá, com as moedas nos olhos, pra pagar o barqueiro.

Eu falei pra minha amiga! Ela achava a minha interpretação muito bonita, mas achou exagero quando eu falei que ele sabia que ia morrer. O dia em que ele morreu foi horrível, eu até liguei pro meu ex daquela época. Ele foi estranho, falou que as pessoas morrem mesmo e tal. Eu chorei o dia todo… Falar que eu conhecia ele não dá, né; infelizmente eu nunca tive a oportunidade de ir num show dele… mas eu conhecia ele através da música. Nossa, meus amigos mandaram um monte de mensagens nesse dia — “eu sinto muito!”

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Acho que apesar de tudo que ele tinha o Bowie se sentia sozinho. Por isso ele cantava o Starman, um cara que caiu do espaço! E não tá preparado pra vida aqui na Terra, né. A gente não tá preparado pra vida aqui na Terra. É que nem a volta de Jesus: quem é que tá preparado pra porra da volta de Jesus?

David Bowie foi meu pai.

Ainda hoje eu às vezes chego em casa, coloco esse show — tenho ele gravado na minha TV — e fico revendo, revendo, revendo.
 Deus quis que eu achasse aquela festa uma bosta, sentasse na frente daquela TV no momento exato. Deus quis que eu tivesse um pai.

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