Querer

Os olhos dela são duas bolotas pretas, absurdamente expressivas graças ao movimento calculado das pálpebras em minha direção.

Essa história é parte da coletânea AmoreZ: todo o tipo de amor contado em todo o tipo de história. Para realizar esse projeto, eu tive ajuda de muitas pessoas apaixonadas. Uma delas é o Fábio, um amigo que representa melhor que ninguém a alegria das boas amizades. Você também vai se contagiar escutando sua versão dessa história! Escute a narração de “Querer” e leia a história abaixo.


As orelhas pontudas estão estendidas, alertas, em expectativa. Infelizmente, mesmo com aquele orelhão, ela não consegue ouvir minha voz dizendo “não”. Prefere acreditar no sentimento de dó que estampa a minha cara, algo que ela pode ler com seus olhos “pidões”. Não é estranho que um cachorro possa decifrar meus pensamentos melhor que muita gente que me conhece? E ela, em sua adorável inteligência canina, percebe a minha fraqueza e resolve jogar sujo. Abaixa a cabeçorra e as orelhas em direção ao solo, sem tirar os olhos dos meus, e fecha a boca de lobo, tornando sua expressão automaticamente tristonha.

- Não pode! Pão faz mal pra cachorro.

Ela não concorda, e solta um grunhido baixinho de desilusão enquanto arrisca uma patada na minha perna. Eu fico de coração partido, até porque imagino a última refeição que ela fez (de manhãzinha, ração dura e com um cheiro pouco atraente), e me identifico com sua gana de pão quentinho, salgado, crocante. Mas me lembro da última vez que ela foi parar no veterinário por um problema na pele. Foi aí que as restrições alimentares começaram.


Escute a continuação na voz do Fábio!

Ela podia parecer fortona, com aquele tamanho todo, mas era um pastor alemão pequeno para a raça e tinha um sistema imunológico de um bebê. Me sinto culpado por não dar o pão, me sinto culpado por ter dado antes e ter feito ela sofrer.

- Mas olha em que situação você me coloca!

Não há outro remédio: enfio o punhado de uma voz na boca enquanto assisto a cachorra se remexer no chão, escandalizada. Ela late uma vez e sai saltitando, magoada. Cinco minutos depois escuta minha movimentação na cozinha e reaparece, solene e misericordiosa, disposta a me perdoar em troca de um pedaço de queijo.


Amor é paz de espírito. É Serenidade! Escute uma história sobre isso aqui.

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