As crianças mortas da América Latina
E por que não estamos nem aí pra elas.

Em 2015 a foto de Aylan Kurdi morto na praia Bodrum, Turquia rodou o mundo. O menino sírio de três anos, que se acredita ter nascido na cidade de Kobani, fugia da guerra com sua família assim como milhares de cidadãos de seu país quando se afogou juntamente com sua mãe e irmão em um naufrágio no mar Mediterrâneo.
Não há necessidade de me estender sobre a história de Kurdi e sua família, tampoco sobre a situação arrasadora que vive a Síria desde o início da guerra civil no país. A comoção gerada por dita foto foi mundial e acho difícil que alguém que possua uma conta ativa em qualquer grande rede social não a tenha visto pelo menos uma vez.
Então por que ser mais uma a escrever sobre isso?
Peço emprestada a história de Aylan e de outras tantas crianças Sírias, Afegãs, Iraquianas e outros países no Oriente Médio e na África assolados por guerras e fome para falar de uma realidade muito mais próxima de mim.
Essa semana duas notícias de morte de crianças me abalaram.
A primeira sobre casos de morte por desnutrição no departamento colombiano de El Chocó e segunda sobre o assassinato do menino Marcos Miguel no estado de Oaxaca, México.
Imagino que ambas histórias sejam muito pouco ou nada conhecidas no Brasil e por isso contextualizo:

Chocó é o departamento mais pobre da Colômbia. Atualmente mais de 79% de sua população não possui as necessidades básicas de vida atendidas. A localidade é fortemente afetada pela guerra civil que já perdura por décadas no país e a guerrilha já causou o deslocamento forçado de milhares de pessoas além de escassez de alimentos, empregos e recursos em geral.
Apesar de suas tragédias, Chocó é uma das regiões mais ricas em termos de recursos naturais do mundo, possui água em abundancia e uma natureza vibrante que abriga espécies não encontradas em nenhum outro lugar. Também é berço de uma cultura única: a esmagadora maioria da população chocoana é de raízes afro-caribenhas e a região se difere em muito de outras partes do país. Em termos pessoais, se cabe a dica, vem da capital, Quibdó uma das minhas bandas colombianas favoritas. Chocquibtown.
Em 2007 foram reportados mais de 50 casos de mortes de crianças por desnutrição em Chocó. Vou repetir : cinquenta crianças morreram de fome. Cinquenta. Crianças.
Essa tragédia infelizmente não serviu de lição às autoridades Colombianas. Enquanto o país passa por um importante processo de negociação de paz com o anúncio de um possível investimento do governo americano de milhões de dólares e o presidente Juan Emanuel Santos dando entrevistas e conferências em Washington, outros 4 casos de mortes de crianças por desnutrição em Chocó foram anunciados. Fevereiro de 2016. Mais quatro crianças morrem de fome.
É bom lembrar que a Colombia é um dos países que mais cresce na América Latina e que obteve um salto econômico e social admirável nas últimas decadas apesar dos graves problemas enfrentados pelo país devido à décadas de guerra civil com as Forças Armadas Revolucionárias da Colombia (FARC) e ao narcotráfico. A capital, Bogotá, onde vivo há quase um ano, é a segunda maior cidade do continente e conta com toda a infraestrutura que qualquer grande metrópole sul americana como São Paulo, Santiago e Buenos Aires têm. Sem embargo, a Colômbia não é capaz ainda de alimentar suas crianças, apesar da impressionante riqueza de recursos com a qual conta o país.

Oaxaca, México. Novamente uma área complicada. O México atualmente é um dos países mais violentos do mundo e Oaxaca um dos estados mais atingido pela epidemia de violênca desmedida causada por guerras entre gangues de narcotraficantes mexicanos. Se antes a Colombia tinha Pablo Escobar, hoje o México tem El Chapo Guzmán. De lá pra cá pouca coisa mudou inclusive quem financia esses figurões do crime continua sendo Estados Unidos e Europa, maiores consumidores de drogas do planeta.
A “guerra” entre aspas no México assim como a guerra sem aspas na Colombia fazem de crianças suas vítimas todos os dias e essa semana foi a vez de Marcos. O menino de 7 meses foi assassinado a tiros junto com seus pais por membros de uma gangue rival à que empregava o casal. O corpo do bebê foi encontrado exatamente na mesma posição do de Aylan Kurdi com o rosto emborcado não nas areias turcas, mas nos braços do cadáver de seu pai.
Nem na Colombia, nem no México (nem em lugar nenhum) essas crianças mortas causaram metade da comoção que causou Aylan. Os assuntos não alcançaram sequer os 10 tópicos mais mencionados no Twitter nacionalmente.
Não se trata de diminuir a gravidade do que se passa na Síria ou comparar o valor das vidas de Aylan, Marcos ou das crianças de Chocó. Todas valem o mesmo e merecem todas as lágrimas e indignação, mas a pergunta é : Por que nós latinoamericanos não nos comovemos com nossas próprias tragédias?
No Rio de Janeiro, só no ano passado posso recordar de pelo menos 5 assassinatos de crianças em favelas. Essas sim as que são noticiadas, sem contar as tantas diárias das quais nem tomamos conhecimento (ou fingimos que não tomamos). Cinco rapazes foram executados a tiros na zona norte carioca por simplesmente serem negros e estarem juntos em carro, não faz nem seis meses. Parece que ninguém lembra disso.
Estaríamos acostumados a ver nossas crianças e jovens morrendo? Será que o tal “complexo de vira-lata” faz a vida aqui valer menos que na Europa até mesmo para nós? Essas crianças “mereciam” a morte mais do que Aylan?
Não acredito que seja esse o caso.
A questão para a qual deveríamos atentar é: até que ponto a morte de crianças pobres, sejam elas sírias, colombianas , mexicanas ou brasileiras, realmente nos comove? Será que de fato nos preocupamos com essas tragédias recorrentes ou apenas reproduzimos o que nos é apresentado nas redes sociais? Alguém chorou as crianças nigerianas queimadas pelo Boko Haram essa samana?. Não consegui encontrar onde trocar minha foto pela bandeira da Nigéria.
“Todo mundo compartilhou a foto de Aylan, eu compartilho também”. Mas se ninguém jogar na minha cara, então eu finjo que o problema não existe e a vida segue. Chocó é aqui do lado e o Oaxaca um pouco mais acima. Mas certamente qualquer brasileiro tem a desgraça da morte muito mais próxima em qualquer cidade do país e nem por isso muda o avatar do Facebook ou #jesuis nada a não ser que esteja na moda.