As tardes de verão em Floripa eram tardes de soltar pipa. Pedro subia na pedra no alto do morro onde o vento encanava bem. O sol que incide no sul nos dias sem nuvens é ácido, mas àquela idade os garotos não ligam pro calor, pro cansaço ou pra fome. Pedro observava as correntes de ar que entravam e saíam da favela vindas e sendo levadas de volta pro mar como se fossem marés invisíveis. Fechava os olhos e imaginava túneis coloridos; os azuis eram os ventos mais frescos, os vermelhos, os das pipas. Não tinha nem oito anos quando começou a cortar varas de bambus dos restos da floresta local para fazer os próprios brinquedos. Pedro era o melhor. Suas construções de varas finas e papel crepom voavam alto, respondiam bem aos comandos do barbante e eram indestrutíveis. Amigos e desconhecidos começaram a subir na pedra para ver Pedro e suas pipas. A fama de Pedro da Pedra desceu o morro e chegou nos colégios do centro. Moleques que jamais tinham subido a favela pediam para que os pais os levassem para ver o espetáculo dominical, quando o pequeno favelado empinava três pipas ao mesmo tempo, todas com tamanhos diferentes, cada uma voando à sua altura e com suas manobras específicas e calculadas. Pedro da Pedra era o artista do bloco maciço de basalto.

O convívio com a gente do centro começou a trazer dinheiro. Pais encomendavam pipas e transformavam a brincadeira do final de semana em coisa séria, uma competição entre pilotos mirins de objetos voadores coloridos. Pedro passava a semana procurando bambu, recortando papel, melecando os dedos de cola. Cada pipa custava 10 reais se não fosse muito grande. As melhores ganhavam valor de revenda e se tornavam item de colecionador. Naquele verão, Pedro da Pedra faturou mais em pipas do que a mãe como balconista de supermercado.

Soube que tudo acabaria no domingo em que subiu na encosta e não sentiu mais o vento vermelho. Fechava os olhos, forçava a mente até tremer a cabeça na esperança de trazer de volta o túnel que levava seu arsenal para o céu. Nada. Sem vento, nem mesmo as melhores pipas de Floripa poderiam levantar voo. Uma brisa sul predizia o fim do verão e para ele aquilo era como se fosse o fim da própria vida. E agora? O público começou a dispersar até que em abril já estava todo mundo no shopping, fugindo da chuva e do frio. A temporada das pipas chegara ao fim.

O dinheiro fazia falta. Começou a trabalhar pra valer, primeiro como ajudante de balcão no bar que o avô tinha no morro, depois como carregador de compras dos sacoleiros que vinham do Paraguai. Mas nada era como as pipas. Desceu o morro e foi ao mar, ganhar poucos trocados como puxador de rede de arrasto. Na maioria das vezes, os pescadores pagavam em peixe. Voltando pra casa com duas tainhas na sacola, passou pela barraca de cachorro-quente do pai de Simone, guria dois anos mais nova que admirava o guri das pipas. Simone não sabia, mas Pedro era apaixonado por ela. Pediu emprego na lanchonete só pra passar os dias mais perto da menina magrinha que parecia sempre feliz.


Queria estourar um champanhe mas preferiu guardar o dinheiro pra fazer a carteira de motorista. Tinha 18 anos mas não tinha carro. Só que a carteira o cara tem que fazer né?, dizia pra Simone. Moravam juntos em um subenterrado quase no pé do morro. A única janela na casa era a do banheiro. As paredes suavam. Antes de morar com Simone, Pedro tinha morado com Miguel, guri de classe alta que fazia parte da plateia de admiradores dos tempos da pedra. Miguel ainda tinha uma coleção de pipas na casa dos pais, todas compradas de Pedro quando os dois eram adolescentes. Miguel fazia História na faculdade federal e decidiu morar na favela pra se afastar um pouco da vida que ele considerava de mentira. Uma vida boa onde o trabalho é um apêndice. Miguel lembrava de Pedro como quem cultuava um heroi, e um dia resolveu entrar na favela pra saber por onde andava o moleque das pipas. Ficaram amigos e foram morar juntos. Miguel era um ano mais novo que Pedro, mas parecia mais. Se portava como um irmão caçula, via Pedro em cima de uma pedra imaginária na qual jamais poderia subir. Pedro fazia as melhores pipas do mundo, Miguel só podia comprar aquelas pipas, mas não o talento. Seria o ar do morro? Decidiu respirar os ventos azuis e vermelhos todos os dias.

Pedro conhecia a família Horácio desde pequeno e sabia exatamente quem eram: traficantes. Não ligava. Ninguém ligava. No morro, todo mundo está sempre traficando algo. Os Horácio traficavam maconha, crack, pó. O avô de Pedro traficava uísque falso pra vender no bar. Ninguém sabia de onde vinham as salsichas do cachorro-quente do pai de Simone. Miguel traficava uma vida que não era a sua. A economia cinza era parte da rotina de todos naquele amontoado de tijolos descobertos e paredes sem janela. Jair Horácio sabia da habilidade de Pedro com as pipas e chamou o rapaz para conversar. Pedro, que não queria problemas, driblou Jair por alguns dias, mas não pode fugir da conversa. Jair era o irmão mais velhos dos Horácio, era o dono do morro. Cara, tu só tem que sentar na pedra e soltar pipa. Porra, não era a coisa que tu mais gostava de fazer? Era, Jair, mas isso não tem nada a ver. Tu quer que eu pare de soltar pipa quando a polícia entrar na favela. É diferente.

O pagamento semanal era o dobro do que ganhava durante o mês na banca de cachorro-quente. Tentou se convencer de que não valia a pena, mas topou. Afinal, seu trabalho era soltar pipa. Não conhecia pessoa no mundo que ganhasse dinheiro pra soltar pipa. A polícia baixava uma tropa lá em baixo, Pedro recolhia o material. O tráfico e seus códigos.


Queria estourar um champanhe mas achou que Jair não merecia. Jair agora era apenas uma cabeça sem corpo depositada em uma sacola preta das grandes, de lixo. Pedro da Pedra era o dono do morro. Sentado fora do barraco, do alto da favela, olhava para baixo como se olhasse pro céu: os pontos cintilantes das luzes da cidade pareciam estrelas que pulsavam lentamente em seu caos particular. Jair tivera tempo suficiente para reconhecer a derrota e abandonar a cidade. Jair, aquele filho da puta. Pedro não era um cara violento, mas nesse ramo não se brinca. O tempo de conversa tinha acabado, o tempo de ação começava. Nenhuma linguagem é mais universal que um Kalashnikov.

O tráfico de drogas é legalizado pelo Estado. Assim pensa Pedro. Se o Estado proíbe a venda regulada, com controle de qualidade e pagamento de imposto, então assume a existência da venda ilegal — pó sendo diluído até quase deixar de ser pó. Pedro não cheira, então não se importa. Quem cheira pó comprado em morro tem mais é que se fuder mesmo, pensa. E faz força na batalha anti-drogas. Conhece Plínio Madeira — se criou no morro, até comprou uma pipa uma vez. Madeira quer ser deputado? Pedro ajuda. Madeira vai defender cana dura pra traficante de droga. Não é um contrassenso: Pedro da Pedra financia a campanha, passa informações pra Madeira, que instaura uma CPI e consegue arrastar pra cadeia metade dos traficantes de Floripa, todos rivais de Pedro. A boca é nossa.


Pedro da Pedra é o traficante mais temido da ilha. A polícia sabe. Não por um trabalho de inteligência coordenado, mas porque os policiais corruptos que patrulham o morro agora precisam buscar seus salários em outro barraco: o dele. Comem na mão do guri das pipas, do lobista endinheirado dono de deputado, do moleque gente boa de dentes brancos que anda armado só por força da profissão. É um jornalista com uma caneta, um médico com um estetoscópio, um marceneiro com um formão.


Miguel começou a cheirar cocaína sem Pedro saber. Os dois moravam juntos, Pedro ainda não trabalhava como pipeiro do tráfico e Miguel já conhecia todas as bocas dos irmãos Horácio. Mais tarde, quando mandou matar Jair pra assumir o controle do comércio, Pedro se surpreendeu ao ver uma de suas antigas pipas na boca central da favela. Era uma das pipas de Miguel, dada ao traficante de turno em troca de pó. Pedro custou a acreditar, achou que a pipa tivesse sido roubada, mas descobriu que Miguel não tinha mais uma pipa sequer; e nem relógios, TV ou celular. Pedro tentou internar Miguel, que não quis nem saber. Então resolveu contar tudo para a família do asfalto, que não se surpreendeu: tanta coisa já havia sumido da casa dos pais. Miguel tinha virado um merda, daqueles filhinhos de papai que Pedro nunca odiara antes de ser dono do morro e ver que muitos estavam destruindo tudo ao redor por causa do vício.


Pedro matou Miguel na pedra e jogou seu corpo na ribanceira encrespada na encosta do morro. Jamais havia matado alguém. Um tiro seco, na nuca. Conhecia viciados como aquele, sabia que não tinha volta. Não queria que Miguel sofresse ainda mais. Não queria sofrer. A carreira alucinante no submundo do tráfico tinha girado sua cabeça; assumir o topo de um comércio que não deveria ser assim talvez fosse demais para ele. E para quem não seria? O verão daquele ano queria recomeçar. Pedro ficou sentado no basalto olhando para o céu nublado como quem olha para a cidade. Fechou os olhos e apertou as pálpebras até a cabeça começar a tremer. No escuro, era novamente um menino construtor de pipas. De olhos abertos sentia euforia e medo. Pedro tinha se transformado em pedra.


__ baseado em vidas reais

__ esse texto seria impossível sem o brilhante trabalho investigativo da jornalista Gabriela Rovai