Amores impossíveis

e outras perturbações quânticas

Editora Dublinense
Jul 12, 2016 · 3 min read

Por Lucas Silveira

_A maneira mais simples de se existir é estando morto.

Somente nesse estado de inércia é que poderemos finalmente nos doar aos caprichos do mundo que nos cerca. E o mundo não parece bem-intencionado. Todos sabemos o que ele faz com quem deixou de respirar. Em uma questão de dias, cada centímetro da sua pele, cada músculo, cada gota de sangue, tudo que fomos e levamos conosco durante toda a nossa vida, será comida
para os vermes necrófagos que já se encontram dentro de nós.

Portanto, o que fazemos diariamente em nossas vidas consiste em afugentar os vermes, adiando o dia de seu banquete cabal. Por isso acordamos, comemos, fazemos as coisas que julgamos necessárias, tudo isso por inúmeras razões que não a mais sincera de todas elas: não queremos que seres microscópicos deem cabo de tudo que somos. A fim de evitar o inevitável, a gente se empresta um pouco para aqueles que escolhemos amar, de forma que estes pedaços da nossa alma etérea escapem da foice da Dona Morte. O legado imaterial sobrevive ao fim, seja em forma de arte, histórias, laços ou ideias. O nosso único patrimônio que é potencialmente eterno é feito de nada.

Mas não seria esse nada, de fato, alguma coisa? Uma vez sabendo que somos feitos de grânulos de poeira cozida no interior de uma estrela, poeira essa que, após milhões de transformações, calhou de fazer parte do nosso corpo, será que podemos traçar uma linha do tempo que nos ligue à nossa real origem? Seria a matéria capaz de carregar consigo as informações a respeito de todas as formas em que ela já se configurou? Teriam as coisas algo parecido a uma memória?

Munido há alguns anos dessas e de mais um punhado de questões, percebi que o imaterial age sobre a matéria de maneiras que jamais acreditaríamos
se não fosse tudo verdade. O amor fica nada atraente se descrito como “uma reação química que faz liberar no nosso cérebro algumas secreções que surtem em nossos corpos uma variada gama de efeitos”, mas essa reação em
cadeia é iniciada pelo imaterial: palavras, sentimentos, impressões. Tudo tão intangível, tão abstrato… mas capaz de provocar perturbações quânticas que ficam gravadas na memória das coisas. Perturbações quânticas que resistirão
à fome dos vermes.

Aqui neste livro, me encontro fugindo dos vermes: o que você lê sou eu, plantando o imaterial, emprestando pedaços de mim ao mundo, em pequenos barquinhos rumo à eternidade, enquanto minha nau segue em rota de colisão com o inevitável. Essas palavras que se seguem são fruto da minha matéria perturbada, flutuações dos meus humores (e amores) que não couberam em meu organismo e precisaram ser extirpados, para que eu pudesse continuar vivendo.

ESTÁ DENTRO DE TODOS NÓS O QUE
NOS FARÁ VIVER PARA SEMPRE.

Está dentro de nós o que vai nos consumir por completo até que deixemos de existir. Não existe uma maneira fácil de tornar-se eterno. Cada vez que nos apegamos ao que se pode ver e tocar, adicionamos algumas cadeiras ao banquete cabal dos vermes, mas, se dependesse apenas de mim, eles morreriam de fome.

A vida tem fim, simples assim. Mas até que esse dia chegue, no que você pretende se transformar?

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Coleção Dublinense

Coleção de textos relacionados com a Dublinense, selo editorial dedicado às literaturas brasileira e estrangeira, humanidades, negócios, além de livros de música, viagem e esportes.

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A Editora Dublinense é um projeto editorial eternamente em construção. Organizada em três selos: Dublinense, Não Editora e Terceiro Selo.

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